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Home Música

Kim Gordon troca o atrito pela forma em ‘PLAY ME’

Terceiro disco solo da ex-Sonic Youth, ‘PLAY ME’ mantém o radar ligado no presente, mas já não produz o mesmo desconforto fértil que Kim Gordon atingiu em ‘The Collective’.

porAlejandro Mercado
24 de março de 2026
em Música
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'PLAY ME' é o terceiro trabalho solo de Kim Gordon. Imagem: Todd Cole / Reprodução.

'PLAY ME' é o terceiro trabalho solo de Kim Gordon. Imagem: Todd Cole / Reprodução.

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Quando se olha a trajetória do Sonic Youth em retrospectiva, fica claro que a pessoa mais incrível ali sempre foi Kim Gordon. Sua chegada à carreira solo foi tardia, e de alguma maneira ajudou a alimentar parte do fascínio em torno de seu nome. Depois de No Home Record (2019) e The Collective (2024), ela agora apresenta PLAY ME, seu terceiro trabalho. Justin Raisen retorna à produção, ele que é seu parceiro decisivo nesta nova fase em que a artista deixou para trás toda a reverência à sua trajetória, passando a trabalhar com beats mais secos, estrutura curta e uma linguagem bastante ligada à saturação do presente.

Kim disse durante o período anterior ao lançamento que queria canções curtas, feitas de modo rápido, mais focadas e orientadas por ritmo do que em seu trabalho anterior. Todavia, se The Collective parecia ter aberto uma frente realmente incômoda na discografia da musicista, ríspido, meio torto e, às vezes, até irritante, em PLAY ME a continuidade até existe, mas o efeito é outro. Quem se dedica a ouvi-lo logo percebe que o novo LP parece transcorrer melhor, encaixar melhor, até soar mais palatável. O que antes soava como uma espécie de fricção, agora parece um recurso já estabelecido, quase formulaico.

Isso não significa dizer que Kim Gordon tenha perdido assunto. Em PLAY ME, ela segue obcecada pelo mesmo mundo em colapso que vinha rondando sua produção recente. Nas letras, desejo, tecnologia, consumo, masculinidade tóxica, ansiedade, IA e ruína política aparecem fundidos em uma mesma paisagem verbal, ainda que sem o mesmo elemento confrontador de outrora.

O álbum abre com “PLAY ME”, entregando uma sucessão de signos de estilo e comportamento, quase como se estivéssemos diante de uma vitrine de referências culturais. O que parece estar em jogo na faixa é a transformação da identidade em metadado, da personalidade em catálogo. Gordon elabora um inventário de curadoria algorítmica, em que a própria letra vira pacote de consumo.

Pode parecer irônico, mas é quando Gordon hesita e parece vacilar que o álbum respira e soa mais vivo.

É notório que Kim Gordon continua enxergando o presente. O que talvez seja diferente no novo disco é que, desta vez, ela nem sempre transforma esse presente em algo à altura. “DIRTY TECH” é um bom exemplo disso. Apesar de uma letra forte, em que ela erotiza a linguagem do trabalho corporativo e da tecnocracia, usando ironia para sustentar a ideia de um desejo já colonizado pelo vocabulário da automação, da hierarquia e do serviço burocrático, isso é feito cedo demais. É o tipo de piada pronta em que o alvo é fácil. As informações que Gordon destila chegam mastigadas demais, quase prontas, sem criar tanta zona de atrito, ambiguidade ou estranhamento.

E esse é um tom que perpassa todo o disco. “BLACK OUT” junta Trump, inteligência artificial, patriotismo, devastação industrial e uma resposta debochada ao poder. “You don’t trump me, I trump you”, ela canta. Já em “SQUARE JAW” ela encena uma ameaça direta a um tipo de masculinidade tecnocrática caricata. “SUBCON” desmonta o futuro imaginado e vendido pelas bigtechs. “POST EMPIRE” é um resumo de um mundo de privilégios em constante decomposição. É fácil perceber que nada nessas críticas é banal. Quase tudo é reconhecível, mas talvez reconhecível até demais.

Uma entrevista concedida recentemente ao The Guardian ajuda a entender as razões para que esse disco soe dessa maneira. Nela, Gordon diz que sente ser cada vez mais difícil falar com sutileza, porque as zonas cinzentas estariam desaparecendo. No mesmo papo, a cantora fala do fascínio um tanto sedutor da tecnologia, mas acrescenta que a inteligência artificial a assusta por parecer limpa demais, sem uma fragilidade típica do ser humano, e sem morte. Esse também é um tipo de impasse que passeio por PLAY ME: Kim segue olhando para a tecnologia com uma mistura de nojo e atração, como quem nota a sedução do dispositivo ao mesmo tempo que o esvaziamento humano que ele provoca. Se ouvi-la falar sobre o disco auxilia de algum modo a iluminá-lo, não resolve a principal limitação estética do trabalho: ele fala de modo mundo específico sobre o mundo, mas não é capaz de dar contornos vivos a isso.

O LP se beneficia de quando a artista escapa da marcha programada que domina o restante do registro. “GIRL WITH A LOOK”, por exemplo, trabalha a sedução como encenação, na qual a canção passa a pairar entre desejo e superfície. Já “NOT TODAY” abre um raro buraco emocional no disco com frases simples, mas certamente menos automáticas que o conjunto dos comentários apresentados em outras canções. Pode parecer irônico, mas é quando Gordon hesita e parece vacilar que o álbum respira e soa mais vivo. “BUSY BEE” é uma das composições mais fortes do disco, essencialmente porque nela volta o que faz bastante falta em PLAY ME: ambiguidade. Kim canta sobre dinheiro, servidão, trabalho e recompensa viciante em imagens meio bobas, meio ameaçadoras. Esqueça o fato de Dave Grohl estar aqui, a música é bacana porque a cantora parece brincar com o absurdo em vez de apenas apontar para o desastre em volta.

O álbum chega ao fim com “BYEBYE25!”, faixa que concentra todas as virtudes e impasses que integram o trabalho. Enumerando termos ligados a gênero, saúde pública, imigração, diversidade e direitos, Kim Gordon torna a música em um inventário seco de palavras, ainda que, como gesto e leitura do presente, seja forte e funcione. Compará-la com “BYE BYE”, que abria The Collective, é pesado porque escancara a diferença entre uma faísca estética e um comentário eficaz. É como se ela tivesse acertado o alvo, mas não tivesse causado impacto nele.

Eu não quero aqui dizer que PLAY ME é ruim, porque não o é. Contudo, soa menor do que a promessa que a musicista de Rochester carrega em si. Ela segue afiada para captar como identidade, consumo e política se entrelaçam no nosso cotidiano; também se mostra com vivacidade para compor sem nostalgia, o que já a separa de muita gente de sua geração. Ao The Guardian, ela contou que seu método é seguir tentando fazer algo novo e ver o que acontece. Minha sensação é que, aqui, aconteceu menos.

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Tags: Crítica MusicalKim GordonMúsicaPLAY ME

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