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Katherine Mansfield no Brasil; agora, por inteiro

Katherine Mansfield volta aos holofotes no Brasil com publicação integral de sua prosa, reacendendo o debate sobre a autora no país.

porAlejandro Mercado
9 de abril de 2026
em Entrevistas, Literatura, Reportagem
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Novas obras da autora neozelandesa começam a ganhar corpo no Brasil. Imagem: Alexander Turnbull Library / Divulgação / Montagem: Escotilha.

Novas obras da autora neozelandesa começam a ganhar corpo no Brasil. Imagem: Alexander Turnbull Library / Divulgação / Montagem: Escotilha.

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Ainda que seu nome não estivesse exatamente ausente das livrarias brasileiras, não é exagero retórico afirmar que Katherine Mansfield voltou a aparecer nas estantes. Nome incontornável da literatura modernista neozelandesa, cuja obra é central para a história do conto em língua inglesa, a autora atravessou décadas sendo encontrada em antologias e traduções avulsas, sempre citada como referência de escritores e leitoras devotadas. Mesmo com esse histórico, a autora, uma das figuras decisivas da ficção curta moderna, circulou no Brasil de maneira parcial, como se sua obra tivesse sido reduzida a alguns contos célebres e a uma imagem de delicadeza literária que não dá conta do que seus textos fazem. É este o cenário que novas edições brasileiras começam a tensionar.

Pequena casa editorial, a Editora Cabriolé é a via pela qual este movimento tem sido possível, ainda que não de modo exclusivo. Através do projeto Mosaico, dedicado à tradução de autores em domínio público, em sua maioria composto por mulheres, a obra de Mansfield tem ganhando luz – e novos olhares e leituras. A iniciativa é maior do que simples tática de ampliação de catálogo. Através da aposta em volumes integrais e em títulos menos visitados, a editora lança luz sobre uma pergunta que, grosso modo, nunca foi enfrentada de maneira adequada em solo nacional: afinal, de que Katherine Mansfield o Brasil se aproximou até aqui – e qual lhe foi negada? Para tentar encontrar essa resposta, Escotilha ouviu três nomes ligados à circulação nacional da autora.

Uma autora maior do que o recorte pelo qual ficou conhecida

Imagem: PJ Ciro.

Ao analisar a história do conto moderno, nota-se que Mansfield ocupa uma prateleira bastante alta. Sua prosa é reconhecida por ter ajudado a alterar o centro de gravidade da narrativa curta, deslocando o eixo da ação para a percepção. No lugar de histórias organizadas por causalidade, a autora optava por estruturar seus contos como campos de experiência, onde o foco estava na modulação de sensações, hesitações e pequenas epifanias.

No que de melhor entregou a neozelandesa, o acontecimento raramente dependia de uma grande virada. Em geral, ele se instalava em gestos mínimos, frases aparentemente banais, em uma tensão social pouco disfarçada, em detalhes capazes de reordenar toda a cena. Para Katherine Funke, fundadora do Grupo Latino-Americano de Estudos em Katherine Mansfield, essa importância passa diretamente pelo fato da autora ter encontrado “sua própria maneira de escrever contos”. De acordo com a pesquisadora, Mansfield elaborou técnicas marcadas pelo ritmo, pela musicalidade das frases, pela influência simbolista e por uma construção que “quase sempre dispensa a figura do narrador tradicional”, sendo “influenciada pelo cinema e pelas artes visuais”, explica.

A fala de Funke permite entender a razão pela qual Mansfield permanece relevante mais de um século depois de seu falecimento. Sua escrita não era marcada pelo excesso, mas pelo modo como as emoções e os conflitos circulam sem se anunciarem por completo. Em outras palavras, uma autora cuja literatura usa o não dito sem fazer do silêncio puro ornamento.

“A ideia da publicação dos livros em sua versão integral sempre foi uma determinação”

Vanessa Thiago

Escritora e tradutora, responsável por traduzir Mansfield para o Brasil recentemente, Nara Vidal enxerga a força da autora na combinação entre sutileza psicológica, observação social e elaboração formal. “Mansfield tem ainda um aspecto que me interessa muito como leitora, que é o narrar uma história de forma, inicialmente, despretensiosa”, diz. “Antes de nos darmos conta, estamos emaranhados nas imagens que ela cria, nas tensões entre personagens, nas nossas próprias especulações.”

A observação é interessante porque retira a neozelandesa de uma leitura meramente atmosférica. Os textos de Katherine são finos, mas não etéreos; oferecem beleza, mas, também, fricção de classe, ironia, humilhação social, desejo, fratura íntima. Nara chama atenção, ao falar do conto “Êxtase”, para essa escrita que oferece superfície elegante e, concomitantemente, abre fissuras mais duras sob ela. “Se prestarmos atenção e estivermos dispostos a ultrapassar toda aquela beleza aparente, encontramos questões íntimas avassaladoras que tratam de problemas sociais e de classe”, sinaliza.

A Mansfield que o Brasil leu, e a que deixou de ler

Imagem: PJ Ciro.

A presença de Katherine Mansfield nas prateleiras das livrarias brasileiras sempre esteve longe de ter sido algo amplo e homogêneo, diferente da posição da autora enquanto cânone. Ela atravessou o século XX sendo lida e admirada por nomes como Vinicius de Moraes (que a ela dedicou um soneto), Erico Verissimo (um dos tradutores de sua obra), Clarice Lispector (sua leitora e admiradora) e Ana Cristina Cesar (que também a traduziu). Isso mostra que Mansfield não foi uma escritora marginal, pelo contrário. O problema, ao fim e ao cabo, é outro: ela chegou ao Brasil através de recortes específicos, que acabaram moldando a imagem que se construiu dela.

“No Brasil, a gente praticamente só conhece a Mansfield contista, ou então a Mansfield autora de diários e cartas”, afirma Funke. A fala da pesquisadora ajuda a mostrar tanto o alcance quanto o limite da circulação da autora. Mansfield chegou aos leitores brasileiros como grande nome do conto e como figura íntima, quase confessional, dos escritos pessoais. Outras frentes de produção permaneceram menos visíveis.

“No Brasil, a gente praticamente só conhece a Mansfield contista, ou então a Mansfield autora de diários e cartas”

Katherine Funke

Um bom exemplo dessa invisibilidade são as resenhas literárias que escreveu para jornais e revistas, como a Rhythm e a The Athenaeum, que seguem quase desconhecidas por aqui. Esse é, justamente, um dos eixos da pesquisa de pós-doutorado em Letras que Katherine Funke realiza na UFPR, sob supervisão de Caetano W. Galindo. Outro eixo pouco explorado da bibliografia de Mansfield é sua poesia, que começa, agora, a ganhar presença mais constante. Funke coordenou a tradução de 40 poemas da neozelandesa, reunidos no volume Quando fui pássaro, previsto para ser lançado ainda este ano pela Edições Jabuticaba.

Mansfield não era apenas a contista de títulos muito revisitados, tampouco somente a autora dos diários e cartas que tantas vezes foram fonte de fascínio por outras escritoras. Havia a crítica literária, a poesia, a autora cuja circulação editorial internacional foi marcada pelas escolhas póstumas feitas por seu viúvo, o também escritor John Middleton Murry. “Aos poucos, estamos acompanhando a atual fase de conhecimento sobre a obra dela, que ultrapassa, e muito, aquilo que Murry fez circular e publicar até o final da década de 1950”, afirma Funke. As novas publicações também atuam, desta maneira, como uma revisão de enquadramentos.

A força do deslocamento

Imagem: PJ Ciro.

Nas respostas de Nara Vidal à reportagem, um dos aspectos que mais aparece na leitura contemporânea da autora é o deslocamento. Nascida na Nova Zelândia, Mansfield mudou-se para a Inglaterra em 1903, com aproximadamente 15 anos de idade. Nessa travessia, passou a ocupar uma posição de pertencimento sempre incompleto. Para Nara, esse detalhe ajuda a iluminar a forma como a escritora observou o mundo. “Ela era uma expatriada e isso dava a ela um olhar muito agudo e crítico, tanto ao país do qual emigrou quanto para o qual imigrou”, explica.

Nara insiste nesse ponto ao dizer que Mansfield escreve de um lugar intermediário. “O meio do caminho proporciona uma ótima vista dos dois lados”, observa. Dessa posição, a autora vê melhor as convenções, as empáfias de classe, os pequenos rituais de exclusão, a instabilidade íntima dos personagens. A elegância da prosa, então, não funciona como verniz pacificador, mas como instrumento de precisão. Em alguma medida, essa forma de enxergá-la também ajuda a entender como a autora segue ecoando nos leitores de hoje. Temas como desenraizamento, deslocamento, pertencimento e identidade social têm organizado boa parte da experiência contemporânea, auxiliando que Mansfield reaparece como uma escritora capaz de seguir produzindo leitura.

O que a Cabriolé tenta recolocar em circulação

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Foi a autora construída nas linhas anteriores que a Cabriolé encontrou ao iniciar o projeto Mosaico. Segundo Vanessa Thiago, responsável pela casa editorial, o grupo estava em busca de um nome forte para o conto no instante em que começou a traduzir Katherine Mansfield. Neste processo, deram-se conta de que a autora neozelandesa tinha presença incipiente sob a perspectiva de como seus livros haviam sido concebidos originalmente, concentrando sua tradução por meio de coletâneas.

“Apesar de A festa no jardim já ter publicações anteriores, inclusive uma organizada por Erico Verissimo, não conseguíamos entender por que parte dos contos havia sido deixada de lado”, conta Vanessa. O incômodo, então, acabou se tornando princípio editorial. “A ideia da publicação dos livros em sua versão integral sempre foi uma determinação.” A editora faz questão de reforçar que a Cabriolé não mergulhou em Mansfield somente para repetir o que já havia sido feito, mas empreendendo esforços em direção à integralidade e também de trajetória. “Com a coleção de cinco livros, buscamos encerrar o ciclo de Katherine Mansfield na íntegra, mostrando a trajetória dela como escritora”, diz Vanessa.

“Ela era uma expatriada e isso dava a ela um olhar muito agudo e crítico”

Nara Vidal

A proposta busca devolver movimento a uma obra que, no Brasil, muitas vezes chegou restrita a poucos títulos. O exemplo mais claro talvez se encontre em Algo pueril, volume póstumo que a editora publica apostando justamente em uma Mansfield ainda em formação. Vanessa admite o risco do gesto, mas o assume como parte da proposta. “Os contos, escritos por Mansfield na adolescência, antes de um amadurecimento forçado, são muito menos irônicos do que o restante de sua obra, mas já mostram a força por trás das palavras da autora e muito de suas características que começavam a despontar.” O movimento permite ao leitor perceber a continuidade, desvio, hesitação e o surgimento de traços que se tornariam marca da neozelandesa. Expande uma autora para além de seu auge, oferecendo uma escritora em processo.

Ler Mansfield de novo

Katherine Mansfield
A neozelandesa Katherine Mansfield. Imagem: Reprodução.

O retorno editorial de Katherine Mansfield ao Brasil modifica a maneira como ela tem sido oferecida aos leitores brasileiros. A partir do encontro de novas traduções, volumes integrais, pesquisa acadêmica e pequenos projetos editoriais, a neozelandesa deixa de circular como referência meio automática e torna a produzir descoberta – o que é, provavelmente, o aspecto mais forte dessa volta às livrarias.

Para Nara Vidal, a experiência de leitura de Mansfield se aprofunda e ressignifica a cada reencontro. “Uma vez que alguém entra nesse universo de Mansfield, fica procurando ler tudo que ela escreveu”, afirma. Talvez o público esteja, enfim, diante da possibilidade concreta de “ler tudo que ela escreveu”, e não mais do puro desejo dessa realização..

O que acontece com Katherine Mansfield mostra, em última instância, que o papel de editoras pequenas não é lateral, podendo ser decisivo. A busca de títulos menos óbvios na bibliografia de autores e a insistência na forma integral dos volumes ajuda a reabrir a discussão sobre estes. No caso específico, a Cabriolé ajuda a reposicionar Mansfield no Brasil, não mais como nome decorativo do modernismo ou autora limitada a contos, mas como uma obra em franca expansão para o leitor brasileiro.

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Tags: Editora CabrioléKatherine MansfieldLiteraturaNara Vidal

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