Republicado este ano, a obra O Adversário (editora Alfaguara, 2026; tradução de Mariana Delfini), de Emmanuel Carrère, pode ser considerado um clássico do gênero true crime. Lançado originalmente em 2000, a história cobre um dos crimes mais hediondos da França: quando, em 1993, um médico chamado Jean-Claude Romand assassinou a esposa, seus dois filhos pequenos e os próprios pais idosos. Depois disso, tentou suicídio colocando fogo na própria casa, mas sobreviveu ao incêndio.
Parece cruel demais, a ponto de parecer uma ficção – mas não é. A sobrevivência do assassino fez com que ele fosse posto a julgamento, para que então se desvendasse que não estava ali um médico de alto cargo na Organização Mundial de Saúde, conforme todos acreditavam. Na verdade, Romand nunca se formou em Medicina e enganou todos os familiares por dezoito anos, vivendo e sustentando esposa e filhos com o dinheiro que desviava de velhinhos, na promessa de fazer investimentos.
Poucos anos depois do crime, Romand acaba condenado, e Emmanuel Carrère resolve escrever uma carta para ele. A proposta parecia difícil de ser aceita: o escritor gostaria de contar a sua história. Segundo declarou, seu interesse não era a exploração sensacionalista do caso, que havia chocado o país, mas tentar entender as forças que existiriam dentro de um homem para que, quando levado ao seu limite, concretizasse o mais terrível de todos os atos.
Para a sua própria descrença, dois anos depois, Jean-Claude Romand retornou a carta aceitando a parceria. Logo o escritor francês conseguiria também autorização para visitá-lo e para acompanhar o seu julgamento. O resultado seria este romance de não-ficção cujo nome guarda um subtexto: na cultura francesa, o termo “adversário” é também utilizado para se referir ao diabo, uma vez que Satanás seria o adversário do homem e de Deus.
‘O Adversário’: uma proposta elegante para um livro de true crime

Vinte e seis anos depois de seu lançamento, O Adversário pode ser encarado como um precursor elegante da febre true crime que se levantaria nas décadas seguintes. O adjetivo é utilizado aqui pela forma sóbria com que o escritor encara o desafio de retratar as memórias de um homem execrável – que, antes de ser um assassino, era um impostor, um mentiroso contumaz, inclinado a esta prática por conta da pequeneza de sua vida.
Pelo que vamos descobrindo, Romand cresceu em uma pequena cidade da França, perto da Suíça. No segundo ano da faculdade de Medicina, quando deixa de fazer os exames para passar à próxima fase, ele resolve sustentar uma farsa.
Seus pais e sua noiva, Florence, assim como seu melhor amigo, passam a acreditar que ele realmente se tornou um médico bem-sucedido, a ponto de ter sido contratado como pesquisador da OMS. O cargo justifica suas idas frequentes à Suíça – mas, ao invés de adentrar o prédio da organização, ele passa o seu tempo no carro, nos cafés lendo jornais ou procurando outras coisas para driblar o tédio.
O Adversário pode ser encarado como um precursor elegante da febre true crime que se levantaria nas décadas seguintes.
A obra se dedica à vida pregressa do assassino antes do crime. O mergulho que Emmanuel Carrère nos proporciona é na mente doentia deste homem cuja mentira só aumenta, a ponto de ele sentir que não há mais como sair dela. A paranoia de quem tenta fugir da verdade, mas sabe que ela está apenas a poucos passos de vir à tona, aproxima O Adversário das sensações provocadas por Crime e Castigo, o clássico de Dostoiévski.
Mas o livro vai além disso. O drama descreve de forma documental as ocorrências do mundo externo, atreladas às visões de Jean-Claude Romand, mas também nos apresenta os dilemas interiores do escritor, que também se analisa e se pergunta sobre o seu interesse naquela história terrível. Nesse olhar para a escuridão do mal, tal como um espelho, o escritor vai experimentando sentimentos conflituantes, que variam entre o nojo e até uma certa empatia.
Não há reações simples para este clássico, que nos mostra o quanto histórias reais – mesmo as mais terríveis – podem gerar obras que permanecem. Mas apenas quando chegam nas mãos de artistas com a estatura de Emmanuel Carrère. O Adversário, oportunamente, também nos sugere que quase tudo o que conhecemos sobre true crime é puro lixo.
O ADVERSÁRIO | Emmanuel Carrère
Editora: Alfaguara;
Tradução: Mariana Delfini;
Tamanho: 200 págs.;
Lançamento: Fevereiro, 2026.
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