Entre os filmes brasileiros da competição do 15º Olhar de Cinema, Telúrica: a Íntima Utopia, de Mariana Lacerda, parte de uma situação aparentemente simples: os ensaios de um espetáculo criado pela companhia teatral Ueinzz. Aos poucos, porém, o documentário revela ambições mais amplas. O teatro é apenas o ponto de partida para uma investigação sobre formas de existência que escapam aos mecanismos de normalização da vida contemporânea.
Criada nos anos 1990, a Ueinzz reúne artistas que convivem com diferentes experiências de sofrimento psíquico. Durante o filme, eles se preparam para encenar uma peça sobre a extinção da Terra e o desejo humano de permanência. O tema, que poderia soar excessivamente abstrato, ganha corpo por meio das conversas, improvisações e reflexões dos participantes. Mais do que acompanhar a construção de um espetáculo, Mariana Lacerda observa a construção de um espaço coletivo onde a diferença não é um obstáculo a ser superado, mas o fundamento da própria criação.
Esse é também o principal mérito do documentário. Em vez de abordar seus personagens a partir do diagnóstico, a diretora desloca o olhar para a produção de subjetividade. Não interessa compreender quem são aquelas pessoas por meio de categorias clínicas, mas observar como elas pensam, criam, discordam e se relacionam. Trata-se de uma escolha ética e estética que afasta o filme tanto da curiosidade voyeurística quanto da sentimentalização frequentemente associada a representações do sofrimento psíquico.
A questão não é trivial. Desde suas origens, o cinema documental convive com o desafio de representar grupos historicamente marginalizados sem transformá-los em objeto de observação. Em Telúrica, esse risco é enfrentado pela centralidade concedida à palavra e ao processo criativo. Os integrantes da Ueinzz não aparecem como personagens passivos diante da câmera, mas como agentes de pensamento. São eles que formulam perguntas, elaboram percepções sobre o mundo e atribuem sentido à experiência que compartilham.
Nesse aspecto, o filme dialoga, ainda que indiretamente, com o legado da reforma psiquiátrica brasileira. A Ueinzz nasceu em um contexto marcado pela crítica ao modelo manicomial e pela busca de novas formas de inserção social para pessoas em sofrimento psíquico. Embora Mariana Lacerda evite transformar essa discussão em eixo explícito da narrativa, ela permanece como pano de fundo permanente. O que está em jogo não é apenas uma experiência artística, mas uma concepção de cidadania baseada na convivência e na valorização das singularidades.
A presença do filósofo Peter Pál Pelbart ajuda a explicitar algumas dessas questões. Quando afirma que a Ueinzz não é um grupo terapêutico, mas um grupo de teatro, ele desloca a discussão para um terreno mais complexo. O interesse não está na arte como instrumento de cura, mas na arte como produção de mundo. A transformação que emerge do processo criativo não resulta de uma finalidade terapêutica previamente definida, mas da possibilidade de criar espaços onde outras formas de vida possam ser imaginadas e experimentadas.
Nesse aspecto, o filme dialoga, ainda que indiretamente, com o legado da reforma psiquiátrica brasileira. A Ueinzz nasceu em um contexto marcado pela crítica ao modelo manicomial e pela busca de novas formas de inserção social para pessoas em sofrimento psíquico.
Também merece atenção a maneira como o filme lida com a relação entre teatro e cinema. Registrar ensaios é sempre um desafio. Há o risco de que a câmera apenas documente um acontecimento cujo centro está em outro lugar — o palco. Mariana Lacerda evita essa armadilha ao concentrar seu interesse menos no espetáculo final do que nos percursos que o tornam possível. O filme encontra sua força justamente nos momentos de suspensão, nas hesitações, nos desvios e nas conversas aparentemente laterais que revelam a riqueza daquele processo coletivo.
Talvez por isso Telúrica funcione melhor quando abandona qualquer pretensão explicativa. O documentário não oferece respostas definitivas sobre saúde mental, arte ou inclusão. Tampouco tenta transformar a experiência da Ueinzz em modelo idealizado de convivência. Seu gesto mais interessante é outro: criar um espaço de escuta para sujeitos que a sociedade frequentemente reduz a rótulos e diagnósticos.
Ao acompanhar um grupo que encena o fim do mundo, Mariana Lacerda acaba realizando um movimento inverso. Seu filme fala, sobretudo, sobre a persistência da experiência humana. Sobre a capacidade de imaginar coletivamente outras formas de estar junto. Em tempos marcados pela intolerância à diferença e pela crescente patologização da vida, não deixa de ser uma reflexão política das mais urgentes.
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