A noite de abertura da 15ª edição do Olhar de Cinema, realizada ontem (3) na Ópera de Arame, foi marcada por uma recepção calorosa a Yellow Cake, novo longa de Tiago Melo. Ao início da sessão, o público aplaudiu longamente a equipe do filme, com destaque para a presença de Tânia Maria (de O Agente Secreto), que recebeu uma das maiores ovações da noite. A reação, porém, não impediu que a obra se tornasse, imediatamente após a exibição, objeto de debate entre os espectadores.
Ambientado na região de Picuí, no sertão da Paraíba, Yellow Cake parte de uma premissa que mistura ficção científica, sátira política e fantasia popular. A trama acompanha um projeto científico destinado a combater a dengue por meio de técnicas nucleares envolvendo urânio. O experimento, conduzido por pesquisadores brasileiros em colaboração com especialistas estrangeiros, promete uma solução tecnológica para um problema de saúde pública. Aos poucos, entretanto, começam a surgir sinais de que algo está fora de controle.
No centro da narrativa está Rúbia, física nuclear interpretada por Rejane Faria (de Marte Um). Integrante da equipe científica, ela funciona como uma espécie de consciência crítica do filme, dividida entre a confiança na pesquisa e a crescente percepção de que a população local está sendo transformada em objeto de um experimento cujos riscos permanecem obscuros. Ao seu redor gravitam moradores da região, autoridades políticas, técnicos e representantes dos interesses econômicos envolvidos no projeto.
É justamente nesse confronto entre saber científico e conhecimento popular que Tiago Melo procura construir sua alegoria. O sertão surge como território historicamente submetido a decisões tomadas de fora, enquanto os cientistas estrangeiros representam uma forma contemporânea de colonialismo, baseada não mais na ocupação militar, mas na exploração de recursos naturais, dados e populações vulneráveis.
O problema é que os personagens raramente ultrapassam sua função simbólica. Rúbia possui potencial para se tornar uma protagonista complexa, mas sua trajetória acaba diluída em uma narrativa que se dispersa em múltiplos núcleos. Os demais personagens permanecem pouco desenvolvidos, funcionando mais como peças de um argumento político do que como indivíduos dotados de conflitos próprios.
O problema é que os personagens raramente ultrapassam sua função simbólica. Rúbia possui potencial para se tornar uma protagonista complexa, mas sua trajetória acaba diluída em uma narrativa que se dispersa em múltiplos núcleos.
Essa fragilidade se estende à própria estrutura dramática. O roteiro acumula situações, temas e registros distintos — da ficção científica ao humor absurdo, da crítica social ao realismo fantástico — sem encontrar uma forma consistente de articulá-los. Em diversos momentos, o espectador tem a impressão de acompanhar filmes diferentes disputando espaço dentro da mesma obra.
Isso não significa que faltem qualidades ao projeto. Há invenção visual, ousadia formal e uma disposição admirável para explorar um território pouco frequentado pelo cinema brasileiro. Algumas passagens revelam imaginação genuína, especialmente quando o filme abraça sem constrangimento sua dimensão fantástica e seu diálogo com o cinema de gênero.
Mas a impressão final é a de uma obra cujas ideias são mais interessantes do que sua execução. Ambicioso e repleto de intenções políticas pertinentes, Yellow Cake propõe reflexões relevantes sobre ciência, poder e exploração. Falta-lhe, porém, uma narrativa mais sólida e personagens mais bem delineados para que essas reflexões ganhem verdadeira força dramática.
Aplaudido na abertura do festival, o filme certamente encontrará defensores entusiasmados. Para este crítico, entretanto, trata-se de uma obra que confirma como a originalidade de uma proposta nem sempre é suficiente para sustentar um longa-metragem.
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