Há muito tempo a televisão descobriu que poucos ambientes são tão propícios ao drama quanto um hospital. Ali, vida e morte convivem separadas por corredores, portas e decisões que precisam ser tomadas rapidamente. Há o paciente que chega sem aviso, a família que espera, o médico que precisa decidir e aquela pergunta elementar que acompanha boa parte das narrativas do gênero: será possível salvar aquela pessoa?
De ER a Grey’s Anatomy, passando recentemente pela excelente The Pitt, as séries médicas aprenderam a explorar essas situações de muitas maneiras. No Brasil, Sob Pressão encontrou uma chave particularmente interessante ao perceber que um hospital público poderia funcionar também como uma espécie de microcosmo do país.
Emergência 53, nova produção da Conspiração para o Globoplay, nasce inevitavelmente sob a sombra dessa comparação. Não apenas porque se trata novamente de uma série médica brasileira, mas porque entre seus criadores estão Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington, nomes que também participaram da criação de Sob Pressão.
A semelhança, no entanto, talvez seja menos importante do que a diferença. Se Sob Pressão concentrava boa parte de sua tensão dentro do hospital, Emergência 53 abre as portas e vai para a rua. E essa mudança aparentemente simples altera muita coisa.
Se Sob Pressão concentrava boa parte de sua tensão dentro do hospital, Emergência 53 abre as portas e vai para a rua. E essa mudança aparentemente simples altera muita coisa.
A série acompanha uma unidade de atendimento móvel de urgência inspirada no SAMU. Sob o comando de Irene, médica e gestora interpretada por Yara de Novaes, trabalha um grupo de profissionais bastante diferentes entre si, reunidos menos por afinidade do que por uma profissão que os obriga diariamente a entrar na vida de desconhecidos no pior momento possível.
É nesse universo que chega Manuela, enfermeira interpretada por Valentina Herszage, de Ainda Estou Aqui. Filha do proprietário de uma rede de hospitais particulares, ela entra na Unidade 53 por uma articulação do pai, Maurício, vivido por Emílio de Mello, com Irene. Ele não acredita que a filha suportará por muito tempo a realidade do serviço público. Manuela, naturalmente, pretende provar o contrário.
A escolha da personagem como uma das portas de entrada para a narrativa é eficiente porque permite que também o espectador descubra aos poucos as regras daquele mundo. Manuela chega trazendo consigo privilégios, expectativas e uma ideia sobre a profissão que será colocada à prova assim que as portas da ambulância se fecharem. Ao redor dela, Emergência 53 constrói uma narrativa deliberadamente coral.
Glória, vivida com força por Heloísa Jorge, tornou-se médica depois de conhecer muito cedo as consequências da dificuldade de acesso à saúde. Pedro, personagem de Emílio Dantas, é um cirurgião brilhante que precisa conviver com o transtorno bipolar e com os escombros de uma trajetória profissional interrompida. Há ainda Vanessa, enfermeira interpretada por Raquel Villar; Átila, de William Nascimento, enfermeiro evangélico e ex-militar; e os motoristas Vandam e Duda, vividos respectivamente por Jaffar Bambirra e Ana Hikari.
São personagens que poderiam facilmente se transformar numa coleção de tipos. E esse é, em alguns momentos, um dos riscos da série. Há muita coisa acontecendo na vida de todos eles. Passados traumáticos, conflitos familiares, questões religiosas, afetivas, financeiras e profissionais vão sendo distribuídos ao longo dos dez episódios, numa estrutura que às vezes parece empenhada demais em assegurar a cada integrante da equipe seu próprio grande drama.
Mas Emergência 53 é melhor justamente quando não força essas histórias. Quando permite simplesmente que seus personagens trabalhem. Porque é durante os atendimentos que a série encontra sua identidade.
A emergência móvel possui uma característica que a distingue radicalmente do hospital: quem atende precisa entrar no espaço do outro. A ambulância chega à favela, ao apartamento confortável, à rua, ao lugar de um acidente. Não existe a relativa neutralidade de um consultório. Médico, enfermeiro e motorista atravessam uma porta e, durante alguns minutos, passam a fazer parte da intimidade de pessoas que nunca viram antes.
É uma diferença narrativa importante. A cidade deixa de ser cenário e passa a fazer parte da história.
Cada chamado conduz a equipe a um pequeno fragmento de Brasil. As diferenças de classe, o acesso desigual aos serviços, a violência e a precariedade aparecem não porque alguém decidiu interromper a narrativa para explicá-las, mas porque a ambulância precisa atravessá-las. Nesse sentido, há algo muito brasileiro em Emergência 53.
O SUS está presente não como discurso abstrato, mas como experiência cotidiana. A série olha para uma estrutura pública frequentemente lembrada apenas por suas deficiências e procura enxergar também as pessoas que continuam fazendo com que ela funcione. Isso não significa idealizá-las. E talvez esteja aí uma das qualidades da produção.
Os profissionais da Unidade 53 não são santos. Alguns são difíceis, outros imprudentes. Erram, julgam, escondem coisas, carregam preconceitos e tomam decisões ruins. Sabem como agir diante de um corpo ferido, mas não necessariamente sabem o que fazer diante das próprias fraturas. Irene talvez seja a personagem que melhor sintetize essa contradição.
Há nela a segurança de quem passou boa parte da vida tomando decisões difíceis. Mas há também uma mulher tentando lidar com a doença degenerativa da mãe, dona Laura, personagem de Fernanda Montenegro. E a presença da atriz acrescenta outra dimensão à série. Não apenas pela força inevitável que Fernanda leva a qualquer cena, mas porque a relação entre mãe e filha introduz uma pergunta especialmente incômoda numa história sobre pessoas treinadas para salvar vidas: o que fazer quando cuidar já não significa necessariamente curar?
Emergência 53 cresce quando se aproxima dessas zonas menos evidentes. Também por isso é interessante observar o tratamento dado a Pedro. Emílio Dantas evita transformar o transtorno bipolar do personagem numa coleção de sinais destinados a informar ao espectador o que ele deve perceber. Existe instabilidade, evidentemente, mas existe também um profissional competente, às vezes brilhante, que não pode ser reduzido ao diagnóstico que carrega.
O mesmo vale para outros integrantes da equipe. A série procura conceder a todos alguma vida para além do uniforme. Nem sempre consegue com a mesma profundidade. Em certos momentos, a quantidade de conflitos pessoais ameaça tornar a narrativa excessivamente programática, como se fosse necessário oferecer a cada personagem uma questão social ou um segredo capaz de sustentar um arco dramático.
Mas há inteligência na maneira como esses fios são frequentemente interrompidos pela urgência, porque a emergência não espera que ninguém resolva a própria vida. O telefone toca. A ambulância sai. Há alguém precisando de ajuda. E tudo aquilo que parecia tão importante alguns segundos antes precisa esperar.
Essa estrutura também imprime à série um ritmo particular. As sequências de atendimento são construídas para produzir tensão, mas raramente dependem apenas do suspense sobre a sobrevivência do paciente. O que interessa é também a maneira como cada ocorrência modifica, ainda que discretamente, quem participou dela.
Há, nesse aspecto, um parentesco evidente com Sob Pressão. Mas reduzir Emergência 53 a uma espécie de versão sobre rodas daquela série seria injusto. Ao abandonar o hospital, a nova produção ganha outra relação com o espaço e, principalmente, com o país que pretende observar.
O movimento da ambulância permite atravessar territórios, classes sociais e formas muito diferentes de existir. A cada porta que se abre, existe uma nova história. Algumas duram poucos minutos. Outras deixam marcas.
É nessa transitoriedade que Emergência 53 encontra seus melhores momentos. Não conhecemos aquelas pessoas antes do chamado. Provavelmente não saberemos o que aconteceu com muitas delas depois. Durante algum tempo, porém, suas vidas dependem de um pequeno grupo de desconhecidos que chegou numa ambulância.
Talvez seja por isso que histórias médicas continuem exercendo tamanho fascínio. Não apenas porque nos colocam diante da possibilidade da morte, mas porque desmontam por alguns instantes a ilusão de que controlamos aquilo que acontece conosco.
Diante de uma emergência, dinheiro, profissão, religião ou posição social podem continuar produzindo diferenças — e a série é bastante consciente disso. Mas existe também um corpo que falha, sente dor, sangra e precisa ser cuidado. Emergência 53 entende essa fragilidade.
E entende sobretudo que, por trás da sirene, dos procedimentos médicos e da adrenalina, há pessoas tentando cuidar de outras pessoas enquanto procuram descobrir como cuidar de si mesmas.
Quando percebe isso e confia menos no mecanismo do drama, a série deixa de ser apenas mais uma boa produção médica. Torna-se também um retrato de um país permanentemente em estado de emergência.
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