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Home Literatura

‘Cantiga de Findar’: abismo em pausa

Em 'Cantiga de Findar', Julián Herbert cria um retrato demolidor de sua própria existência.

porEder Alex
18 de novembro de 2015
em Literatura
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'Cantiga de Findar': abismo em pausa

Imagem: Reprodução.

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O escritor Julián Herbert é um filho de uma puta. Uma puta mexicana que levou uma vida triste e absolutamente degradante. Uma puta que arrastou atrás de si a alma destruída, o fracasso e a prole. Uma puta que era uma mãe. Cantiga de Findar, publicado pelo selo Otra Língua, da editora Rocco, com tradução de Miguel Del Castilho, é um livro escrito com sangue nos olhos em vez de lágrimas. O autor abre mão de qualquer sentimentalismo para compor uma obra que prima em sua linguagem por uma poética suja e ao mesmo tempo brutal. Ao falar sobre como a sua mãe, Guadalupe Chávez, foi devastada pela leucemia, Herbert narra como se avançasse com um taco de beisebol pra cima do inimigo, visando esmigalhar o seu crânio em muitos pedaços.

A verdade pode estar presente mais no veneno que invade as veias de Guadalupe, cujo corpo fraco deteriora num leito de hospital, do que nas anotações que o filho faz na cadeira ao lado, durante as madrugadas insones. Mas a importância do que é realidade e o que é ficção nesta narrativa, diz respeito mais ao funcionário que precisará selecionar a prateleira para guardar o livro na livraria do que ao leitor em si, pois ele provavelmente não ficará menos perturbado com aquilo que lê, por se tratar de uma memória inventada. O que impacta aqui é solidez da palavra, é a frase que voa na sua cara feita um tijolo.

A verdade pode estar presente mais no veneno que invade as veias de Guadalupe, do que nas anotações que o filho faz na cadeira ao lado.

É pouco provável, por exemplo, que alguém permaneça indiferente a um trecho como esse: “A médica receitou Metamucil e muita água, de modo que Guadalupe bebe três litros por dia. Continua sem cagar mas mija a cada vinte minutos. Como está conectada à máscara negra – assim minha mãe apelidou o soro duplo da químio -, tenho que trazer a comadre e colocá-la debaixo de suas nádegas, retirá-la quando o som parar, limpar sua buceta com um lenço de papel e depois esvaziar o mijo na privada”. Sentiu a bordoada?

Não há espaço para eufemismos ou moderação, Julián Herbert, tal como o fez Philip Roth em Patrimônio, esfrega a realidade na nossa cara com estupidez, de forma despudorada e com indelicadeza, pois quando se está vivendo o horror, não há espaço para os bons modos, para tato social ou para a literatura bem comportada. Tudo isso simplesmente não importa muito quando o pavor está ali na sua cara e o corpo de alguém que você ama começa a exalar um fedor cada vez mais intenso.

Apesar da força e do razoável grau de instrução, Guadalupe levou uma vida miserável junto com seus filhos, que tiveram uma infância a flanar por bordéis, becos, campos de futebol amador e barracos com teto de papelão. A perspectiva de futuro é um pouco diferente quando, em vez de brincar, a criança passa os dias com o estômago roncando e tentando não ser estuprada por um bêbado qualquer. Talvez a fome forme caráter e isso nos ajude a entender essa mistura de ódio e amor – “E eu a odiei alguma vezes na década seguinte só que sem método só por inércia: sem horário fixo. E sempre a amei com a luz intacta da manhã na qual ela me ensinou a escrever meu nome” -, e assim possamos compreender um pouco o distanciamento de um filho que se refere à mãe pelo nome próprio (ou pelos vários nomes utilizados por Guadalupe). Nesse “movimento do avião como um abismo em pausa”, como o próprio autor define a situação, acompanhamos não só a degradação dessa família, mas também do próprio México, às voltas com corrupção e narcotráfico.

Julián Herbert não poupa sua mãe e nem a si mesmo. Ela sabe que escreve para entoar o sofrimento e no obscuro desejo de que a morte lhe sirva de clímax para o livro que está a escrever, permanece a convicção de sua própria degradação: “Valerá a pena ter dedicado tantas horas de vigília junto a sua cama, um exercício estrito de memória, não pouca imaginação e certo decoro gramatical; valerá a pena este arquivo de Word se minha mãe sobreviver à leucemia…? Só de fazer essa pergunta já me transformo na pior das putas”.

É bem difícil sair ileso de uma leitura como essa.

CANTIGA DE FINDAR | Julían Herbert

Editora: Rocco;
Tradução: Miguel Del Castillo;
Tamanho: 256 págs.;
Lançamento: Outubro, 2014.

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Tags: Crítica LiteráriaEditora RoccoJulián HerbertLiteraturaLiteratura MexicanaResenha

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