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Home Teatro

Crítica – Cabras – Cabeças Que Voam, Cabeças Que Rolam – Festival de Curitiba

porFrancisco Mallmann
27 de março de 2016
em Teatro
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Quando Comadre Fulozinha entoa seu canto para dizer que “se queres atirar, atira, que eu também sei atirar”, parece haver a construção de um universo em que a informação principal é essa: a bala que vai, volta, inevitavelmente. Um canto de mulher, quase grito não fosse música. O eco de um terreno aberto, virado em horizonte – a vista turva porque o calor que bate no chão é, no ar, fumaça. Não é anunciada a vingança, não. O que se comunica, ao longe, é que não se foge a luta. Ninguém está imune a uma guerra, que de tão hereditária, nem guerra é mais.

Relações parentais. Antropologia do mundo. Pensamento de Brasil. Utopia: “O Brasil permanece como uma forma utópica, talvez mais como uma energia simbólica”. Aqui, nos trópicos. “O Brasil permanece como um ponto de esperança”¹.

Uma terra em que o ser, esse humano, se parece tanto um com o outro, envolto em pano, tudo meio igual. Gente que se encontra, se cruza, mistura. De repente, mulheres de um lado, homens de outro – que linha é essa? O pranto, separado pelo que? Uma existência que se repete. Chorar por sobre o corpo de alguém para ver começar tudo outra vez. Lágrima e sangue.

Cabras – Cabeças Que Voam, Cabeças Que Rolam parece apontar as multiplicidades da vida – cabra que é homem, cabra que é bicho.

Um corpo que é bicho, um bicho que é gente. As leis, todinhas faladas e a pele que fica de pagamento, de garantia. Rasgada, seca, feito o terreno que pisa. O povo nordestino, tão fácil identificar, esquecido. A lamúria, o lamento, o cântico, a oração. A fé, inabalável – em quê? Uma força ancestral. Infinidade de símbolo. Batalhas de gente, que briga com o mundo, que joga luz na certeza de que é difícil ser simples – complexo até a exaustão.

“Onde é que eu estava ontem?”, eles perguntam. Gente nômade, que faz da vida caminho e do horizonte destino. Como é que faz para colocar em cena um território feito de coronéis? Como faz para transpor a paradoxal fragilidade de figuras tão fortes? A firmeza com que se permanece estático é a mesma usada para cair. É isso, a dignidade?

Cabras – Cabeças Que Voam, Cabeças Que Rolam parece apontar as multiplicidades da vida – cabra que é homem, cabra que é bicho. Evoca todas as distâncias: entre o céu e o inferno, entre um ser e outro, entre um Brasil e outro. Fica longíssimo.

¹ BAUDRILLARD, Jean. In: EICHENBERG, Fernando. Entre aspas: diálogos contemporâneos. São Paulo: Globo, 2006.

Tags: Cabras - Cabeças que voam cabeças que rolamCrítica TeatralFestival de CuritibaFestival de Teatro de CuritibaLuís Alberto de AbreuMaria ThaísTeatro

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