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Home Crônicas Alejandro Mercado

No meio do caminho tinha uma livraria

porAlejandro Mercado
8 de dezembro de 2016
em Alejandro Mercado
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No meio do caminho tinha uma livraria

Ilustração: Vera Gomes.

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Em Lisboa, na esquina da Garrett com a Anchieta, encontramos a Livraria Bertrand. A rede é a maior e mais antiga de Portugal, fundada em 1732. Neste imóvel localizado no Chiado, a Bertrand se instalou de forma definitiva em 1773. Suas estantes até hoje ostentam as principais obras da literatura mundial. Suas abóbadas abrigam exemplares das cabeças e mentes de grandes nomes da literatura portuguesa. Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, Fernando Pessoa, Saramago e Lobo Antunes já cruzaram a porta de entrada, estrategicamente colocada entre duas grandes vitrines que expõem livros e souvenirs diversos. Em tempos nebulosos para a literatura (e para a cultura em geral), atravessar as portas daquele imóvel revestido de azulejos azuis comove o mais gelado dos corações.

As paredes da Bertrand guardam histórias, letras, versos. Prosa e poesia se escondem para serem encontrados. É inútil querer segurar as lágrimas. Quando nos damos por conta, percebemos que estamos na livraria mais antiga do mundo.

As paredes da Bertrand guardam histórias, letras, versos. Prosa e poesia se escondem para serem encontrados. É inútil querer segurar as lágrimas. Quando nos damos por conta, percebemos que estamos na livraria mais antiga do mundo. E o fato não é pouca coisa. A Livraria Bertrand é um comércio de rua, sem o atrativo das luzes de neon dos shopping centers. O glamour ali são os livros, o silêncio da leitura, a plasticidade com que funcionários transitam entre turistas e leitores, que se confundem neste cenário onde o protagonista pode ser qualquer um.

Não havia nenhuma placa indicativa de movimentos proibidos. Sendo assim, encostei as mãos nas paredes, nas estantes de madeira, cheirei livros, sonhei. E comigo sonhavam outras tantas pessoas que adentravam a livraria. A comoção é geral, a ponto de fazer com que as pessoas, tão acostumadas a empunhar seus celulares para enxergarem o mundo através de uma tela fria, deixassem seus aparelhos de lado e percorressem com corpo e alma cada centímetro deste espaço sagrado, onde a história humana é eternizada em caracteres, muitos mais do que os 140 das redes sociais.

As livrarias ainda são os melhores intermediários entre nós e o universo da literatura, essa vila paralela onde somos confrontados com nossa pequenez e descobrimos que não estamos sós. Com a literatura, as solidões ficam mais aceitáveis. Com as livrarias, todo pretenso poeta tem um ponto de refúgio. Com ambas, sentimo-nos vivos, verdadeiramente vivos.

Tags: Crônicafernando pessoaJosé SaramagoLisboaLiteraturalivrariaLivrosLobo AntunesPortugal

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