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Apesar de falhas no texto, ‘Vade Retro’ dá show

porGabrielle Russi
10 de maio de 2017
em Televisão
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Vade Retro

‘Vade Retro’ apresenta direção e elenco afinados, mas o texto sobrenatural é exagerado. Foto: Reprodução.

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Estrelando Mônica Iozzi como protagonista e mostrando um Tony Ramos diferente de tudo aquilo que já vimos, Vade Retro mistura comédia e terror e tem como temática uma suposta luta entre o bem e o mal. Assinado pelos autores da aclamada série Os Normais, Alexandre Machado e Fernanda Young, o roteiro utiliza como artifícios uma combinação de nonsense, humor negro, sarcasmo, crítica, deboche, frases de efeito, trocadilhos infames, como os cacófatos contidos nos nomes dos personagens, e jogos de palavras para retratar a dualidade santo-profano e Deus-Diabo.

A trama gira entorno da relação entre a advogada Celeste e o lobista Abelardo Zebu. Ela é correta, religiosa, bem-intencionada, ingênua e vive uma vida monótona: sua carreira é malsucedida, seu relacionamento amoroso é sem graça e sua mãe está morando com ela. A única coisa que a torna interessante é um pequeno fato peculiar: quando criança, foi beijada pelo Papa e acabou se tornando um símbolo de fé. Porém, tudo muda quando conhece Abel Zebu, um palestrante motivacional que a contrata com a desculpa de estar se divorciando para tentar torná-la laranja em seus negócios escusos. Embora caia no jogo de sedução do canastrão, a jovem desconfia que na verdade ele seja o “capiroto” em pessoa.

Tony Ramos e Monica Iozzi dão vida aos protagonistas Celeste e Abel Zebu
Tony Ramos e Monica Iozzi dão vida aos protagonistas Celeste e Abel Zebu. Foto: Carol Caminha/Gshow.

Na construção da narrativa não faltam elementos sacros e religiosos, que ajudam a conduzir a história, e pequenos detalhes que dão um certo charme e um ar diferente e sofisticado ao programa. Todo episódio começa com uma recapitulação, porém, esse pequeno resumo é feito numa espécie de opereta, em um ritmo que lembra a obra Carmina Burana, musicalizada por Carl Orff. A primeira cena é sempre uma palestra de Zebu, e o que ele diz permeia o episódio inteiro.

Mas o que seria do enredo sem a direção caprichada de Mauro Mendonça Filho e da equipe formada por André Felipe Binder e Rodrigo Meirelles? No melhor estilo “terrir”, a atração é repleta de referências cinematográficas. Com uma boa dose do mundo do Zé do Caixão, é possível enxergar alguns traços de diretores como Polanski, Ed Wood, Tarantino e Kubrick. A abertura, por exemplo, é puramente inspirada em filmes clássicos de terror da década de 1970 e traz elementos do gênero apelativo exploitation, que aborda de modo mórbido e sensacionalista a temática que trata (leia aqui).

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Mas talvez a direção não surtisse o efeito pretendido não fosse o elenco afinado e em total sintonia com a proposta estética, narrativa e interpretativa. Tony Ramos surpreende com sua atuação e prova a sua capacidade de fazer diferentes papéis e atuar em gêneros diversos: o lobista é um vilão cômico, trabalho fora da curva na trajetória do ator, que é acostumado a dar vida a mocinhos. E Mônica Iozzi, que deixou o Vídeo Show por causa do seriado, encaixou-se bem no papel e é um dos fios condutores das risadas. Com intimidade na comédia, ela consegue deixar escapar pérolas divertidas em meio ao nervosismo da sua personagem.

Elenco e direção de 'Vade Retro' reunidos
Elenco e direção de ‘Vade Retro’ reunidos. Foto: Divulgação/Rede Globo.

Eles são ótimos cronistas, falam muito bem sobre rotina, manias e amoralidades do homem comum.

O restante do elenco também não está para brincadeira. Juliano Cazarré, se destaca com seu Davi, o namorado de Celeste. Cecília Homem de Mello, que dá vida a Leda, a mãe intrometida, xereta e carola, é uma personagem hilária. Luciana Paes é outro destaque cômico com sua interpretação de Kika, secretária da advogada e amante de Davi. Do lado dark temos Maria Luísa Mendonça, que está realmente diabólica na pele de Lucy Ferguson, mulher de Abel. Até o ator mirim Enrico Baruzzi dá um show, o garoto está assustador como Damien, filho de Abel e Lucy. E ainda falta conhecermos Carrie (Nathália Falcão), enteada de Abel e filha de Lucy de um casamento anterior, e Lilith (Maria Casadevall), uma dançarina íntima de Abel, personagens que ainda não entraram na série, mas que se seguirem o exemplo dos demais, podemos esperar um bom caldo.

No geral, a atração é divertida e bem produzida. O único problema de Vade Retro está no texto. Toda vez que as cenas estão no campo da trivialidade e os personagens brincam com as idiossincrasias sociais, o episódio cresce e vemos diálogos debochados e bem-humorados. Entretanto, os diálogos rápidos e espertos perdem força quando precisam se reencaixar e voltar para a construção dessa trama “conceitual”.

A julgar pelos três primeiros episódios, a produção poderia investir menos no sobrenatural e focar mais no cotidiano — o que sabemos que Alexandre e Fernanda fazem como ninguém. Eles são ótimos cronistas, falam muito bem sobre rotina, manias e amoralidades do homem comum. Porém, quando adentram no enredo fantástico, os autores precisam ser um tanto didáticos para explicar as situações absurdas e acabam soando um pouco forçados. Mas ainda dá tempo de corrigir!

A minissérie, que estreou no dia 20 de abril, é exibida toda quinta-feira na Rede Globo após a novela das nove e o capítulo da semana é disponibilizado antecipadamente para os assinantes da Globo Play.

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Tags: Cecília Homem de MelloCrítica de SeriadosCrítica TelevisivaJuliano CazarréMaria Luísa MendonçaMinissérieMonica IozziRede GloboSeriadosSérieTelevisãoTony RamosTVVade Retro

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