Como criança dos anos 1980, cresci vendo na televisão, com minha família, o Domingão do Faustão. Adorava vários quadros. Um deles envolvia um grande painel luminoso em que celebridades televisivas sentavam em quadrado dividido em seis lugares, em mesinhas iluminadas com neon. Aqueles famosos iriam ouvir uma pergunta de um anônimo e dariam uma resposta, que poderia ser verdadeira ou falsa. Em seguida, o participante era interrogado e, se acertasse o teor, um X ou um O acendia no painel, formando as linhas do jogo da velha.
Sem dúvida, a personagem mais divertida era a que ficava sentada bem no meio no painel. Para mim, era uma velhinha bem velhinha, desbocada, que costumava soltar sempre umas respostas atravessadas. Meio grossa, mas pouco importava: a graça estava justamente em ver uma senhora dizendo coisas que não condiziam com a idade que tinha.
Lendo Dercy: A Diva Debochada (Objetiva, 2026), da jornalista Adriana Negreiros, foi que descobri que aquela participação no Faustão (que dura umas duas páginas, se muito) era apenas a pontinha, bem pequena mesmo, de um grande iceberg chamado Dercy Gonçalves. Que havia, por trás daquela velhinha (quando o quadro do Faustão começou, Dercy contava 82 anos), havia uma mulher com muitas décadas de contribuição à cultura brasileira, na comédia, no cinema mas, sobretudo, no teatro.

A riqueza da obra de Adriana Negreiros é pintar Dercy não como uma heroína, mas como uma mulher extremamente complexa. Transgressora desde a infância, ela praticamente fugiu de casa (na pequena cidade de Santa Maria Madalena, no interior do Rio de Janeiro), onde havia sido abandonada pela mãe e criada pelo pai violento, junto com os irmãos. Mal vista no local, seria ela que popularizaria mais tarde o nome da cidade e a colocaria no mapa nacional.
Paupérrima, com quase nenhuma instrução, e ainda carregando seu nome de nascimento, Dolores, a jovem foi construindo uma vida a duras penas. Seu objetivo era ser cantora. Não conseguiu. As rejeições, claro, eram sempre humilhantes, e boa parte delas focava em dois argumentos: era velha ou feia, quando não as duas coisas.
Tentou então se aproximar de profissionais e de pequenas companhias de teatro, aos poucos entendendo que o seu talento mesmo era vocacionado para a comédia. Dercy mobilizava plateias com um humor popular, atrevido, pouco afeito às mulheres. Enquanto algumas eram as vedetes e serviam mais de enfeite em cena, Dercy se impunha pelo raciocínio rápido, pelo improviso e pela capacidade de rir dos outros. E de si mesma.
A contribuição de Dercy à cultura brasileira, conforme o livro nos esclarece, se deu pela popularização de um tipo de humor popular, que desprezava tudo que fosse elitista. Isso tinha a ver com as origens da artista. Com poucas habilidades de leitura, Dercy não conseguia ler os roteiros das peças, e pedia que alguém os lesse para ela. Memorizava alguns pedaços, mas improvisava grandes partes do texto – provocando a fúria de vários autores, mas fazendo o público rolar de rir.
Essa proximidade com o povo acabou a elevando ao nível de grandes artistas que eram seus contemporâneos, como Oscarito (que ela adorava) e Grande Otelo (que ela detestava, com uma boa dose de racismo). Contudo, o que ela odiava mesmo era a intelectualidade do país. “Sei que os intelectuais torcem o nariz para o meu teatro e que não gostam de mim. Mas não me incomodo”, chegou a dizer, em uma frase amena para os seus padrões.
Mas tudo isso – a polêmica e o sucesso, a coragem de ir contra a maré – cobrava um preço, que se apresentou desde muito cedo.
A diva desrespeitada
Dercy: A Diva Debochada nos revela a quantidade de machismo e de violência de gênero a que Dercy Gonçalves foi submetida desde sempre, por ser uma mulher que ia na contramão das convenções. Aos quarenta anos, já era considerada velha. De acordo com os relatos e documentos coletados por Adriana Negreiros, ela sempre declarou ter sofrido nas mãos dos homens, a ponto de, a certo momento da vida, desistir dos relacionamentos.
De um dos seus maridos, Danilo Bastos (e a quem provavelmente Dercy foi mais apegada), ela ouvia humilhações terríveis e sofria traições. Chegou a pegá-lo com a amante em um quarto do hotel. Entre os efeitos provocados por tudo isso em Dercy, estava uma obsessão por cirurgias plásticas, a qual ela tornou uma espécie de piada da qual falava o tempo todo nas entrevistas que dava. “Bonita não sou, mas faço uma força danada. Vou acabar com 80 anos, os joelhos pelancudos, mas a cara lisa”, declarou certa vez.
A contribuição de Dercy à cultura brasileira se deu pela popularização de um tipo de humor popular, que desprezava tudo que fosse elitista. Isso tinha a ver com as origens da artista.
São nesses momentos do livro que aparecem os paradoxos da Dercy/ Dolores, que fascinam o fã antigo e surpreendem o leitor contemporâneo que só a conhece na superfície. Dercy, sem dúvida, foi uma desbravadora, uma mulher que lutou para ser livre e existir fora dos padrões.
Por exemplo, em plena década de 1930, ela teve sua única filha, Decimar, com um homem de quem era amante, e a criou praticamente sozinha. Levava a bebê para todos os lados e, por não conseguir trabalhar, vendia perfumes nas coxias dos teatros. Voltou à estaca zero, mas não abriu mão da própria carreira.
Manteve sua autenticidade, e foi considerada e chamada de pornográfica ao longo de toda vida. Foi muito desrespeitada, mas, ao mesmo tempo, foi isso que lhe deu a fama e lhe trouxe muito dinheiro – em certo momento, conforme nos conta a biógrafa, era a artista mais importante da Globo, e era disputada por várias emissoras.
Essa Dercy vanguardista, que poderia ser lida facilmente como feminista, também expunha o tempo todo as suas sombras. Era homofóbica e transfóbica, ainda que esses termos ainda não circulassem. A biografia conta, por exemplo, que em certa feita Dercy expulsou um ator do palco por ele ser excessivamente delicado. E as palavras usadas no episódio seriam hoje consideradas criminosas: “Te manda, seu viado”.

Outro caso famoso envolve o combate aberto que Dercy manteve contra Roberta Close, modelo que, na década de 1980, se tornou muito famosa por ser trans e posar na Playboy. Na época, a comediante provocou o país ao participar do programa de Hebe Camargo e mostrar os seios nus com mais de 80 anos.
Não era uma reivindicação à sexualidade dos idosos, mas um achincalhe à Roberta Close. “O Brasil está mesmo avacalhado. Esse negócio de travesti virar símbolo sexual combina bem com a atual situação do país: estamos mesmo no fim”, declarou.
Dercy também se manifestava avessa ao movimento feminista, e chamava as ativistas de “babacas”. Mesmo sendo considerada profana na vida pública, defendia que as mulheres deveriam ser “damas na intimidade”. Fatos contraditórios, mas que possivelmente revelavam traumas, uma vez que Dercy dizia abertamente que não gostava de sexo e que pouquíssimas vezes teve prazer na vida.
O fato é que esta era uma mulher complexa – que conseguia ser genial e simples, amorosa e detestável na mesma medida. Dercy ganhou muito dinheiro e perdeu, comprou imóveis, joias, perucas e roupas e depois os vendeu, gastou muito com o vício em jogos – o que, para ela, era o melhor substituto ao amor para os solitários como ela.
Mas, acima de tudo, ela viu o Brasil se desenrolar em seus 101 anos de vida, e principalmente conheceu o gosto do povo como poucos. “Eu sou o Brasil”, Dercy gostava de dizer. Conhecer a sua vida não é apenas bisbilhotar a vida de uma celebridade: é entender mais a fundo a história da nossa cultura e, de forma vicária, a história das mulheres desse país.
DERCY: A DIVA DEBOCHADA | Adriana Negreiros
Editora: Objetiva;
Tamanho: 304 págs.;
Lançamento: Maio, 2026.
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