• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Literatura

‘Um copo de cólera’: quando paixão e razão coexistem

Em 'Um copo de cólera', de Raduan Nassar, paixão e razão combinam-se e resultam num desejo colérico expresso pela linguagem.

porTamlyn Ghannam
14 de maio de 2017
em Literatura
A A
'Um copo de cólera': quando paixão e razão coexistem

Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

A trama de Um copo de cólera é, à primeira vista, simples: são seis capítulos narrados pelo protagonista que recebe em sua chácara a amante, e o sétimo capítulo sendo narrado por ela. O elemento sexual se faz presente desde o início e não apenas no conteúdo. O ritmo dos acontecimentos igualmente emula o coito, na medida em que começa seduzindo lentamente o leitor enquanto os dois personagens também praticam o seu vagaroso jogo de sedução, até culminar no êxtase do esporro, no frenesi maior que tem lugar não no sexo, mas na discussão que ocorre entre os dois.

A relação sexual que se estabelece é, acima de tudo, uma relação de dominação por parte do homem. Ele vê no erotismo a possibilidade de assumir o papel de cultivador nutrindo a plantação que precisa dele para amadurecer, de mestre que instrui um discípulo. Mais do que isso, ele associa à luxúria e à obscenidade o imaculado, comungando sagrado e profano, atribuindo a si mesmo o ofício de divindade a doutrinar sua apóstola como quem lida com um ser inferior. O chacareiro vê sua parceira como alguém que só se realiza sob os estímulos masculinos. Tal superioridade aparece a princípio de modo um tanto quanto velado, retraído entre parêntesis, mas acompanhando a aceleração da obra vai aos poucos ganhando espaço até tornar-se opressiva.

A subversão do proprietário da chácara, no entanto, é válida apenas no terreno do sexual. Ele deposita mais entusiasmo na botânica do que no sexo, aplica mais esforço e obtém mais satisfação com as plantas. Assim, quando, ao notar sua cerca viva destruída por formigas, o protagonista é tomado pela cólera e trava uma altercação com a mulher, vem à tona um conservadorismo tirânico por parte dele. O homem, que na cama alicia perversamente o sórdido ao virtuoso, manifesta tresloucado em sua fala a repulsa pelo povo e o fascínio pela manutenção da ordem, esta como organização hierárquica e regra a ser cumprida, ao ponto de ser qualificado como fascista pela companheira.

“O povo nunca chegará ao poder! Não será pois com ele que teria um dia de me haver; ofendido e humilhado, povo é só, e será sempre, a massa dos governados; diz inclusive tolices, que você enaltece, sem se dar conta de que o povo fala e pensa, em geral, segundo a anuência de quem o domina”.

O embate político que permeava o país transporta-se, em Um copo de cólera, do meio coletivo ao privado e está representado pela peleja entre os dois personagens em discordância.

A denúncia do fascismo se faz especialmente relevante se levado em conta o ano de publicação da obra. Em 1978, o Brasil passava pelo conturbado período da ditadura militar. O embate político que permeava o país transporta-se, em Um copo de cólera, do meio coletivo ao privado e está representado pela peleja entre os dois personagens em discordância. Na obra de Raduan Nassar, o discurso atua como delator do caráter emancipador da mulher representante das massas e delator da índole repressiva do homem, espécie de ditador que recusa qualquer intromissão modificadora do arranjo considerado natural por ele.

A fala é também um sistema transmissor da fúria que impele os protagonistas. Pela linguagem se alcança o êxtase que simultaneamente os atrai e repele um ao outro, é por ela que se transmite a paixão atrelada à razão. Através das palavras – para ele “soluções imprestáveis” –, o homem expressa a cólera que o transforma em “eu cavalo”. Ao valer-se delas, o narrador sem nome caracteriza-se como “o quisto, a chaga, o cancro, a úlcera, o tumor, a ferida, o câncer do corpo”, tudo o que há de humanamente baixo, doentio e pútrido, enquanto, ao mesmo tempo, vangloria-se por sua sinceridade, por ser um déspota assumido e, portanto, licenciado.

O chacareiro reconhece e honra suas complexas contradições e tal consciência repercute na forma da novela. Em períodos longos de tirar o fôlego de quem lê, Um copo de cólera adentra o fluxo de consciência frenético daquele que não desconcilia o raciocínio da emoção e assim manifesta-se formalmente, mas com selvajaria. A ira reproduzida é como um reflexo natural e implacável do dilúvio interno ao narrador, inundado de deterioração, dores e presunção incontroláveis. Ele reconhece o mal dentro de si como qualquer coisa de divino, fundindo novamente o santo e o demoníaco em sua composição.

Racionalmente, o protagonista aproveita suas paixões para lidar com sua interlocutora de modo a ser alvo de algum sentimento autêntico, amor ou ódio, desde que provoque a cólera que o alimenta. O capítulo desse combate entre homem e mulher leva o nome de “O esporro” e tem representado em si todos os significados da palavra. Nele, há espaço para o coerente e violento bate-boca e para a explosão irracional do gozo induzido pela fúria que escapa, incontrolável, de ambos os personagens.

“‘Assumir’ o vilão tenebroso da história, alguém precisa assumi-lo pelo menos para manter a aura lúcida, levitada sobre tua nuca; assumo pois o mal inteiro, já que há tanto de divino na maldade, quanto de divino na santidade”.

Essa conjunção razão-paixão, tão necessária para a constituição do personagem masculino, é igualmente primordial para a estrutura da obra. O jogo entre dois elementos aparentemente tão distintos direciona o relacionamento dos protagonistas e também desenrola a trama do livro, que começa e termina com “A chegada”. O ciclo doentio é motivado pelo desejo que atrai o casal quase que maquinalmente, ainda que o desenlace de seus encontros seja sempre colérico. A simbiose amor-ódio e suas mais variadas ramificações são e estão nos próprios sujeitos que, polos opostos, aproximam-se magneticamente em prol da volúpia exasperada. Repleto de referências bíblicas e literárias (como Jorge de Lima, Faulkner, Fernando Pessoa e James Joyce), Um copo de cólera brinda à desarmoniosa congregação dos díspares que fundamentam as relações humanas.

UM COPO DE CÓLERA | Raduan Nassar

Editora: Companhia das Letras;
Tamanho: 160 págs.;
Lançamento: 1978.

COMPRE O LIVRO E AJUDE A ESCOTILHA

Tags: Companhia das LetrasCríticaCrítica LiteráriaLiteraturaLiteratura BrasileiraRaduan NassarUm Copo de cólera

VEJA TAMBÉM

A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.
Literatura

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Juliana Belo Diniz desafia o biologicismo e recoloca o sofrimento mental em seu contexto humano. Imagem: Juliana Veronese / Divulgação.
Literatura

‘O que os psiquiatras não te contam’ e a urgência de devolver complexidade à saúde mental

19 de dezembro de 2025
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Timothée Chalamet está indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação de Marty Mauser. Imagem: A24 / Divulgação.

‘Marty Supreme’ expõe o mito da autoconfiança americana

5 de fevereiro de 2026
'Guerreiras do K-Pop' desponta como favorito na categoria de melhor canção original no Oscar 2026. Imagem: Sony Pictures Animation / Divulgação.

O fenômeno ‘Guerreiras do K-Pop’

4 de fevereiro de 2026
Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

‘Pluribus’ faz da felicidade obrigatória uma forma de violência

3 de fevereiro de 2026
A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.