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O paraíso perdido em ‘A Fazenda Africana’

'A Fazenda Africana', escrito pela escritora dinamarquesa Karen Blixen em um estilo marcadamente nostálgico e bucólico, é exemplo de uma das mais intensas e verdadeiras literaturas já produzidas.

porYuri Al'Hanati
2 de abril de 2015
em Literatura
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O paraíso perdido em 'Fazenda Africana'

Imagem: Reprodução.

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Ibiza, Kuala Lumpur, Rio de Janeiro, Bali, Mumbai, Tunis, Ilhas Maurício. A elite europeia nunca gostou muito de festejar em casa. Hoje em dia, quanto mais longe e exótico, melhor. Se tiver acesso fácil a drogas pesadas, a coisa só melhora. Os paraísos europeus mudam sazonalmente, mas no começo do século 20, o paraíso perdido era a África.

A partilha territorial pelo Tratado de Berlim no final do século 19 fez do continente mãe a varanda europeia nos trópicos. Um espaço completamente novo e controlado, com novas possibilidades de exploração mineral e vegetal, e uma fonte inesgotável de animais selvagens para safáris intermináveis, e muito mais, era o que o continente africano oferecia para ricos europeus cansados de seus impérios e da mesmice na metrópole.

Os relatos introduzem o leitor a conceitos básicos sobre a vida na África – tratada pela autora como um território manifestamente destinado a sofrer intervenção europeia, um pensamento muito comum na época.

Foi nesse cenário que, em 1913, a baronesa Karen von Blixen (1885 – 1962) se mudou para uma o território britânico que hoje corresponde ao Quênia para montar uma fazenda cafeeira aos pés dos montes Ngong. Casada com seu primo de segundo grau, o sueco Bror von Blixen, Karen transformou suas memórias do período, que terminou em 1931, no livro A Fazenda Africana (Cosac Naify, 448 págs.), publicado em 1937 e adaptado para o cinema em 1985 por Sidney Pollack, com Meryl Streep e Robert Redford nos papéis principais.

Embora o filme relate parte da história do casal, o livro sequer menciona o cônjuge da escritora. Bror e Karen se separaram em 1921 e se divorciaram em 1925, devido a infidelidades por parte dele, que além do mais era um péssimo administrador de fazendas. Karen permaneceu sozinha e se dedicou os últimos seis anos na fazenda ao plantio de café e a suas relações com os nativos, em especial os quicuios, os somalis e os massais, etnias mais próximas da região.

Assim mostra a obra dividida em cinco partes. Nele, Karen aborda sua relação com Kamante, um menino quicuio criado na fazenda, e com Lulu, uma gazela que também foi adotada por sua propriedade. Os relatos introduzem o leitor a conceitos básicos sobre a vida na África – tratada pela autora como um território manifestamente destinado a sofrer intervenção europeia, um pensamento muito comum na época – e sobre valores nativos que precisaram ser assimilados pelos colonizadores. Esses valores, em especial o conceito de crime e justiça, são aprofundados na seção seguinte, em que ela relata um acidente com arma de fogo que acaba por vitimar uma criança nativa, e cabe ao tribunal de anciãos massais deliberar sobre a pena do réu.

A terceira e quarta parte são apenas notas soltas sobre visitantes que a autora recebeu na fazenda e sobre peculiaridades que observou no período em que passou lá. Somente na última parte, intitulada “O Adeus à Fazenda”, ela narra cronologicamente como a plantação de café foi minguando (devido à pobreza do solo africano) até que a baronesa se vê obrigada a vender a propriedade e voltar para a Europa, de onde nunca mais saiu, até morrer em 1962, aos 77 anos. De modo que a Fazenda Africana, escrito em um estilo marcadamente nostálgico e bucólico, foi produzido quando não apenas a fazenda da baronesa quanto o território da África Oriental Britânica já faziam parte do passado.

Apesar da infidelidade do marido e da melancolia de algumas partes, é possível ver como a autora, que se revelou uma mulher forte e independente em território africano, foi feliz durante aquele período. A África, vista como uma utopia neolítica pelos colonizadores, mudou, deu lugares às guerras civis e às epidemias com o abandono europeu no pós-guerra, e a elite mudou o endereço da festa para outros lugares no mundo. A marca da baronesa na região pode ser vista até hoje – o bairro onde a fazenda foi instalada leva seu nome e há ainda um museu em sua homenagem – mas a marca da região na baronesa von Blixen se tornou uma das mais intensas e verdadeiras literaturas já escritas.

A FAZENDA AFRICANA | Karen Blixen

Editora: Cosac Naify/ Sesi-SP;
Tradução: Claudio Marcondes;
Tamanho: 448 págs.;
Lançamento: Julho, 2005.

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Tags: Cosac NaifyCríticaFazenda AfricanaKaren von BlixenLiteratura

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