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Home Teatro

‘Contos de Nanook’: teatro-instalação

porHelena Carnieri
4 de julho de 2017
em Teatro
A A
Contos de Nanook

'Contos de Nanook'. Foto: Amanda Vicentini.

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Alerta de spoiler: esse é o tipo de crítica que não consegue fugir de ser descritiva, já que se trata de um espetáculo bastante calcado na visualidade e sonoridade. Sem palavras (em português).

Ao entrar desavisado para assistir a Contos de Nanook (em cartaz até 16 de julho no Cleon Jacques), o espectador se depara com uma visão pouco usual hoje em dia. No lugar do cenário minimalista, mais sugestivo do que informativo e comumente usado, encontra um enorme manto de neve, com carcaças aqui e ali e um corpo que jaz no duro gelo. Sentir frio é imediato, independentemente de massa de ar polar chegando à cidade.

Está dada a largada para um espetáculo que apela sobretudo aos sentidos. Deixe o intelecto um pouco descansando, sob o risco de se aborrecer.

O impacto visual do cenário (Guênia Lemos) é acrescido de sons assustadores, como a respiração de humano ou animal à espreita. Tudo somado forma uma instalação que poderia ser um diorama de museu de história natural.

Mas aos poucos tem lugar a performance associada a essa visão de outro mundo. Temos uma releitura do que seria a vida dos índios inuítes num tempo indefinido, num confronto pela sobrevivência. Nos encontramos com a população indígena do Polo Norte, conhecida como esquimó, numa cena poética e lenta que traz pensamentos não antropológicos, mas humanos.

Esse retrato é trazido de forma a embasbacar e surpreender simultaneamente – não por acaso, esse é um dos mantras da companhia Setra, de Eduardo Ramos (direção), que realizou anteriormente Mommy (2016), entre outros. Como dito, é uma escrita cênica lírica, não destinada a contar uma história precisa, apesar de muita história e muitas estórias estariam contidas nela. Essa parte da dramaturgia veio de Léo Moita (autor de O homem do banco branco e a amoreira).

Contos de Nanook
‘Contos de Nanook’. Foto; Amanda Vicentini.

O relato em linhas gerais promove o encontro de um inuíte (Mauro Zanatta) e uma menina (Má Ribeiro), que passam a dividir a luta pela sobrevivência num inverno extremamente rigoroso (estamos falando de frio no Polo Norte, veja bem). Um urso polar (Bruno Lops) completa a tríade e dispara o clímax.

O silêncio que reina no meio traz o desconcerto de se confrontar com a fala e a cultura do outro.

A chegada dos atores revela outra camada dupla de estranhamento e encantamento, com o incrível trabalho vocal (Edith de Camargo) e corporal  (Airton Rodrigues) realizado durante cerca de três meses. Para completar a caracterização, o grupo usa peles e assustadores lentes de contato que tornam os olhos brancos quando se olha de frente.

Os sons e palavras que remetem à cultura inuíte foram pesquisados e trabalhados de forma a compor a dramaturgia sonora do espetáculo, que não tem palavras (em português).

O silêncio que reina no meio traz o desconcerto de se confrontar com a fala e a cultura do outro. Nesse caso, um outro de um tempo remoto e espaço mais ainda, que conhecemos apenas pelo termo pejorativo de esquimó (“aquele que come carne podre”, apelido carinhoso advindo do encontro com colonizadores).

O trabalho de corpo é ampliado pela presença da bailarina Malki Pinsag (que já havia roubado a cena em Guernica). Sua movimentação, ora sozinha, ora em parceria com Bruno, transformam a peça de instalação num show para os sentidos.

A soma de linguagens se completa com a relação intertextual com o filme Nanook of the North, de 1922, o primeiro documentário antropológico de que se tem notícia. A obra retrata uma família inuíte naquele início de século, suas caçadas e pescarias e a relação com um urso polar. O protagonista, Nanook, (“urso”) morreu de fome posteriormente em busca de alimento para o clã.

SERVIÇO | Contos de Nanook

Onde: Teatro Cleon Jacques | R. Mateus Leme, 4777 – São Lourenço; Curitiba/PR;
Quando: De 16 de junho a 16 de julho, sextas, às 20h, sábados, às 18h e 20h, e domingos, às 19h;
Quanto: Entrada Franca – os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro uma hora antes do espetáculo | Lotação: 100 lugares;
Duração: 1h;
Classificação indicativa: Livre.

Ficha Técnica

Dramaturgia: Léo Moita;
Direção: Eduardo Ramos;
Assistência de Direção: Juliana Pedrozo;
Dramaturgia Sonora e Preparação Vocal: Edith de Camargo;
Coreografia e Preparação Corporal: Airton Rodrigues;
Elenco: Bruno Lops, Má Ribeiro, Malki Pinsag, Mauro Zanatta;
Iluminação: Beto Bruel;
Cenário: Guenia Lemos;
Figurinos: Eduardo Giacomini;
Maquiagem: Marcelino de Mirandha;
Costureira: Sandra Francisca Canonico;
Adereços: Katia Piccolin;
Cenotécnico: Samuel Amorim;
Desenho Sonoro e Operador de Som: Jo Mistinguett;
Operador de Luz: Dani Régis;
Assessoria de Comunicação e Imprensa: Luciana Melo;
Arte Gráfica: Pablito Kucarz;
Ilustrações: Guga Scharf;
Fotos: Amanda Vicentini;
Teaser e Registro Videográfico: Labirinto;
Coordenação de Projeto: Laura Haddad / Duplo Produções;
Direção de Produção: Juliana Pedrozo / Formiga Produtora;
Produção Executiva: Thierry Lummertz e Lorayne Claudino;
Captação de Recursos: Formiga Produtora;
Incentivo: Uninter e CEDIP;
Realização: Setra Companhia.

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Tags: Bruno LopsContos de NanookCrítica TeatralEduardo RamosGuenia LemosMá RibeiroMauro ZanattaSetra CompanhiaTeatroTeatro Cleon JacquesTeatro Curitibano

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