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Scholastique Mukasonga reverencia as ruandesas em ‘A Mulher de Pés Descalços’

Em 'A Mulher de Pés Descalços', Scholastique Mukasonga apresenta o terror do genocídio e a tradição africana.

porMarilia Kubota
8 de maio de 2018
em Literatura
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Scholastique Mukasonga reverencia as ruandesas em 'A Mulher de Pés Descalços'

Imagem: Reprodução.

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Em A Mulher de Pés Descalços (tradução de Marilia Garcia, 2017), Scholastique Mukasonga rememora a história de sua família no campo de refugiados de Gitagata, na fronteira de Ruanda e Burundi. As memórias antecedem o massacre dos tutsis, em 1994, quando cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas por extremistas étnicos hutus. O assassinato de sua família aconteceu quando a autora estava fora do país. O romance reverencia a mãe de Scholastique, Stefania, e todas as mães e mulheres ruandesas.

Os tutsis dominaram o país por muito tempo. Em 1959, a monarquia tutsi foi derrubada pelos hutus e milhares fugiram para países vizinhos. Exilados tutsis formaram um grupo rebelde, que invadiu Ruanda em 1990 e lutou até o estabelecimento de um acordo de paz, em 1993. Na noite de 6 de abril de 1994, o avião em que viajava o presidente hutu de Ruanda, Juvenal Habyarimana, foi derrubado. Extremistas culparam o grupo rebelde e aí começou uma campanha de assassinato.

Mukasonga (seu nome tutsi) rememora o dia-a-dia no campo de refugiados, onde o medo era imperativo. Sua mãe, Stefania, tinha como único projeto de vida salvar os filhos. A ameaça de extermínio por parte dos militares instalados em campo vizinho é permanente:

“Minha mãe tem somente uma ideia na cabeça, o mesmo projeto para todos os dias, uma única razão de viver: salvar os filhos. Para isso, ela elaborava estratégias, experimentava táticas. Seria preciso fugir, se esconder. É certo que o melhor seria fugir e se esconder no matagal espesso, cheio de espinhos, que ficava na nossa plantação. Mas, para isso, era preciso ter tempo. Mamãe espreitava os barulhos sem parar. Desde o dia em que queimaram nossa casa em Magi, em que ela ouviu o rumor do ódio, como o zumbido de um enxame monstruoso vindo em nossa direção, ela desenvolveu, parece-me, um sexto sentido, o da presa que está sempre alerta. Ela identificava de longe o barulho das botas na estrada. ‘Ouçam’, dizia, ‘eles estão por perto’.” (páginas 12 e 13)

Apesar do cotidiano de terror, a família de Mukasonga tenta levar uma vida normal. O pai e a mãe personificam o embate entre a modernização e a tradição ruandesa.

Apesar do cotidiano de terror, a família de Mukasonga tenta levar uma vida normal. O pai e a mãe personificam o embate entre a modernização e a tradição ruandesa. Stefania reconstrói o inzu, a casa típica ruandesa, em que as três gerações da família se reuniam, e ouvia-se o rangido da pedra moendo o sorgo, matéria-prima com a qual se fabricava a cerveja caseira. O pai de Mukasonga ergue uma casa de tijolo.

O embate entre a tradição e a modernização segue, em outras áreas, como a saúde e alimentação. Stefania não acredita na medicina dos brancos, e também guarda os segredos dos remédios tradicionais, feitos à base de ervas, tubérculos raízes, folhas de árvores da savana. A chegada do pão em Gitagata é um acontecimento, a ponto de Stefania os distribuir para os mais pobres .

Quando Mukasonga entra na escola, em Butare, percebe uma ruptura. O pão é servido diariamente no café da manhã. O penteado que deixava tufos geométricos em forma de meia-lua. O amasunzu, usado pelas moças em idade de casar, é substituído pelo cabelo liso. As meninas são obrigadas a usar calcinhas. Ao mesmo tempo, Mukasonga vai se dar conta que nem sempre o progresso tem uma boa conotação. Na escola, a única professora negra nunca mostra os pés. Certa vez, inadvertidamente, os pés ficam à mostra:

“Dispenso aqui descrever os pés de Haute-Volta, mas lembro-me que, algum tempo depois, folheando o manual de história-geografia, deparei com dois desenhos, ou duas fotos, já não sei, que na mesma hora me fizeram pensar nos pés dela. Um representava as montanhas ou colinas que tinham sido cortadas como um pedaço de bolo e mostravam, assim, as camadas sobrepostas de terra e de rochas por meio das quais os geólogos decifravam a história dos continentes e contavam as idades da Terra. O segunda mostrava um tipo de fosso cavado pelos arqueólogos que, desse modo, dizia a legenda, tinham descoberto, nos estratos mais profundos, a partir de alguns cascalhos cortados, os primeiros rastros da humanidade. E me parecia que se eu pudesse chegar mais perto dos pés de Haute-Volta, também poderia ler as idades do mundo e remontar, de geração em geração, até chegar à mulher que foi a primeira e que, com as costas encurvadas e uma enxada nas mãos, abriu a terra vermelha da África.” (páginas 104 e 105)

Scholastique Mukasonga nasceu em 1956. Vive e trabalha atualmente na região da Baixa Normandia, na França. Dela, a Editora Nòs publicou também o romance Nossa Senhora do Nilo.

A MULHER DE PÉS DESCALÇOS | Scholastique Mukasonga

Editora: Nós
Tradução: Marilia Garcia
Tamanho: 207
Lançamento: Junho, 2017.

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Tags: A mulher de pés descalçosBook ReviewCrítica LiteráriaEditora NósgenocídioLiteraturaLiteratura AfricanaMarilia GarciaResenhaReviewRuandaScholastique Mukasonga

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