Em geral, os críticos e articulistas de música dão ao artista ou à obra de arte o papel protagonista em suas crônicas e textos. Hoje, nesta coluna – no sentido mais corpóreo da palavra -, o protagonismo é para o papel do selo fonográfico, especificamente o selo Escápula Records, que assina os dois últimos discos que ouvi: Percepção, de Poty, e Neura, de Juliano Guerra.
A escápula é um “osso-gêmeo”. O lado esquerdo espelha o lado direito. Independentes entre si, mas complementares na função do movimento humano. Cabe à escápula a união do tronco aos membros superiores. Não apenas na anatomia do ser: a palavra ao pé da letra, também significa escapulir, escape, escapar. Sob um ponto de vista surrealista – ou somente uma visão poética -, as duas definições levam ao selo Escápula Records, um levante do atual movimento musical do sul do sul brasileiro.
Escápula Records é um empreendimento organizado, que reside no ponto de intercessão do mundo interior com o mundo exterior.
Um bom selo fonográfico atua na tensão existente entre, de um lado, um artista empunhado de sua obra de arte e, de outro, a correnteza de um mercado cultural em constante transformação. Há quem consiga caminhar por conta própria ou criando seu próprio selo – como o Rosa Flamingo, da cantora Tiê -, e há nascimentos oriundos de processo coletivos, o que, historicamente, atinge resultados mais sólidos.
Nos últimos anos, os discos que mais tocaram na minha discoteca vieram da Biscoito Fino (RJ), Borandá (SP), Circus (SP) e Maritaca (SP), o único especializado em música instrumental. Selos independentes de gravadoras com um catálogo de artistas agrupados em gêneros musicais, regionalismos, militâncias ou ainda, processos similares de gravação/mixagem/masterização. Escápula Records (Pelotas/RS) é o ponto fora da curva da minha audição tão sudeste.
Em quatro anos de existência, o selo pelotense – fundado pelo engenheiro de som Lauro Maia – já lançou 20 trabalhos fonográficos no mercado. Na maioria, os artistas puderam contar com a cooperação do “osso-irmão” da escápula, o estúdio A VAPOR. Empresas autônomas, mas com os mesmos sócios: o técnico Lauro Maia e a produtora Ana Maia. Lauro é o técnico de som dos CDs e dos shows dos artistas do selo. Ana, além de contribuir com o trabalho de Vitor Ramil há anos, e encaminhar os trabalhos do selo, encontra tempo e bom humor para divertir pequenos leitores facebookianos com sua série “ouvindo conversas alheias”. Sou leitora.
Escápula Records é um empreendimento organizado que reside no ponto de intercessão do mundo interior com o mundo exterior. Um selo crescente, que serve de modelo às iniciativas de outros coletivos da sempre boa produção musical do sul do Brasil.
POTY (Percepção, 2018)

Curiosamente, os dois trabalhos que ouvi nesta semana, tanto do Juliano Guerra quanto do Poty Burch, são convites para uma audição fora do comum. Uma máquina do tempo, de volta aos anos noventa nas narrativas de Juliano Guerra em Neura e, uma sonoridade vintage para ver o mundo de Poty Burch em Percepção.
Desde 2013, quando ainda integrava o coletivo “Escuta o som do compositor” – um laboratório de composição fundado por músicos da nova geração de cancionistas de Porto Alegre -, Poty já trilhava um caminho mais autônomo nas escolhas estéticas de suas canções, embora seus parceiros apontassem para linguagens mais ligadas ao rock e ao pop. Deste coletivo, saíram alguns trabalhos que refletem parte da Porto Alegre dos dias de hoje, como, por exemplo, Ian Ramil, Apanhador Só, Thiago Ramil e o grupo Dingo Bells.
Poty fez escolhas sonoras mais londrinas. Um ar vintage em 12 obras, a maior parte de sua autoria exclusiva. Em sua visão literária do mundo, há uma busca constante do tempo presente, sutilmente forjada numa espécie de poética de solidão. O CD foi gravado ao vivo no estúdio Pedra Redonda em Porto Alegre e aposta na espacialidade, harmonizando perfeitamente as texturas do guitarrista Lorenzo Flach com o violão de aço de Poty. O time se completa com Bruno Neves na bateria e Guilherme Ceron no baixo, que também é produtor musical do trabalho, ao lado de Ian Ramil.
Além do disco, Poty Burch lançou este ótimo videoclipe:
JULIANO GUERRA (Neura, 2018)
Neura é o terceiro álbum do compositor Juliano Guerra. Como em todos os trabalhos, Juliano apresenta sua canção vanguardista, com excelentes narrativas e construções poéticas. Crítico da realidade, Juliano traz sarcasmo e ironia em 12 faixas que trazem de volta o grunge e o indie dos anos 90. Com uma boa dose de concretismo, Neura também se aproxima em letra e interpretação da obra de Luiz Tatit. Um álbum neurótico, que pretendo comentar em breve nesta coluna.
Ouça ‘Percepção’ na íntegra no Spotify
https://open.spotify.com/album/6KaPenIsT6LJl61TxdnByK?si=zQMqyt3-TfGQ3VBeh2lGuQ