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‘Ponto Ômega’: os referenciais estranhos de Don Delillo

Não se pode queixar da complexidade excessiva de um livro de Don DeLillo: em 'Ponto Ômega', ele procura trabalhar com diferentes níveis de profundidade.

porYuri Al'Hanati
21 de maio de 2015
em Literatura
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'Ponto Ômega': os referenciais estranhos de Don Delillo

Imagem: Reprodução.

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A paralaxe é um conceito de astronomia que define a diferença aparente de um determinado corpo visto por dois observadores em posições distintas. Talvez esse seja o melhor termo para definir a estranheza dos referenciais óticos de Ponto Ômega, do escritor norte-americano Don DeLillo.

Desde o princípio, Ponto Ômega explora a diferença de referencial de cada situação. O livro abre com uma descrição da instalação “24 Hour Psycho”, do artista escocês Douglas Gordon. Trata-se de uma versão lenta do filme Psicose, de Alfred Hitchcock, que demora um dia inteiro para acabar. As impressões de um primeiro personagem, anônimo, giram em torno da essência de que, estendendo-se o tempo, o espectador deixa de se sentir imerso na história e, dando dois passos para trás, passa a ver a si mesmo assistindo ao filme.

Há então um corte, e o livro passa a ser narrado em primeira pessoa, sob a ótica de Jim Finley, um documentarista que procura fazer sua obra-prima de uma entrevista única com Richard Elster, ex-funcionário do Pentágono que, aposentado, arrasta o cineasta para sua cabana no meio de um deserto (talvez o de Sonora, ao sudoeste dos Estados Unidos). Uma referência que parece ser clara ao documentário Sob a Névoa da Guerra, de Errol Morris, (The Fog of War, vencedor do Oscar de melhor documentário em 2004), que registra depoimentos do ex-secretário de Defesa norte-americano, Robert McNamara.

Nessa troca de narração, de narrador e de protagonista, há a figura do leitor, que permanece imóvel em relação a todo esse movimento.

A visão do mundo de Elster é permeada pelo conceito do Ponto Ômega, uma teoria do padre e teólogo francês Pierre Teilhard de Chardin, que atesta que há uma força que age de dentro da matéria, orientando-a rumo a um ponto de complexidade máxima do universo, onde consciências e estágios diferentes de materialidade se fundirão para se tornar uma única coisa.

Nessa troca de narração, de narrador e de protagonista, há a figura do leitor, que permanece imóvel em relação a todo esse movimento. A diferença entre a visão de quem lê, que vê o personagem anônimo vendo o filme, e a diferença entre o mesmo leitor, que vê Elster sob a ótica de Jim Finley, é a forma de DeLillo explorar diferentes essências de um mesmo referencial. Uma paralaxe de um único observador, que se afasta e se aproxima de um mesmo livro pela força de um segundo referencial: o autor.

Não se pode queixar-se da complexidade excessiva de um livro de Don DeLillo: o autor procura trabalhar com diferentes níveis de profundidade, mas mesmo o mais raso deles já é profundo o bastante. E é admirável que se atinja tão densa literatura com parcas 109 páginas. Porém, do ponto de vista narrativo, DeLillo se dá melhor com obras mais longas, e a falta de fechamento de Ponto Ômega pode incomodar um leitor menos disposto. Mas é justamente essa trama aberta um dos charmes do livro: deixar que a consciência do leitor entre em comunhão com a consciência do livro – que, em se tratando dos livros de Don DeLillo, é sempre muito mais viva e forte.

PONTO ÔMEGA | Don DeLillo

Editora: Companhia das Letras;
Tradução: Paulo Henriques Britto;
Tamanho: 104 págs.;
Lançamento: Maio, 2011.

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Tags: Companhia das LetrasCrítica Literáriadon delilloLiteraturaponto omegaResenha

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