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O mistério da morte

porYuri Al'Hanati
5 de abril de 2021
em Yuri Al'Hanati
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James Gandolfini em Família Soprano

James Gandoldini viveu o protagonista Tony, da série 'Família Soprano'. Imagem: Divulgação.

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James Gandolfini morreu aos 51 anos de idade, de um ataque cardíaco fulminante enquanto passava um tempo em Roma com sua família, em 2013. O ator marcou a história da teledramaturgia norte-americana no papel de Tony Soprano, protagonista da série Família Soprano, ao elevar a construção de personagem e complexidade emocional a outros patamares, até então inéditos na televisão.

Contardo Calligaris morreu nesta semana em São Paulo, aos 72 anos, vítima de um câncer. O escritor e psicanalista recheou muitas páginas de jornal com um esclarecimento acerca de nossos sentimentos e processos internos de maneira acessível e inteligente. Seu filho disse que, diante da morte, suas palavras foram: “Espero estar à altura”.

Cito estes dois exemplos de pessoas agraciadas com um entendimento – seja ele teórico ou performático – acerca da complexidade da vida, e que conheceram, cada um a seu tempo, o maior dos enfrentamentos emocionais. Todos, sem exceção, vão se ver diante da morte, mas alguns poucos poderão tomar consciência dela alguns momentos antes.

Se perceber a vida se esvaindo de si constitui um privilégio ou não é um assunto debatível de acordo com a convicção e o medo de cada um. Entretanto, é de se lamentar que nem Calligaris nem Gandolfini – nem Richard Burton ou o papa João Paulo II ou quem quer que seja – tiveram como relatar suas experiências acerca do ato de morrer.

Se perceber a vida se esvaindo de si constitui um privilégio ou não é um assunto debatível de acordo com a convicção e o medo de cada um.

Dizem que a morte é o grande mistério, mas acredito que mais do que o mistério do pós-morte, com todas as suas especulações ao longo da história das religiões, é o mistério da narrativa individual que cada um poderia acrescentar ao nosso entendimento maior sobre um momento crucial e sobre o qual nada é possível fazer a não ser testemunhar sua antecipação, mas jamais a consumação do ato em si.

A maioria das mais de três mil pessoas que morrem todos os dias de Covid-19 no Brasil é alienada sobre tal momento. Morrem em coma, sufocadas, sem a despedida nem as reflexões sobre os momentos finais. São vítimas inconscientes de seu próprio destino. Soubessem o que lhes espera, talvez pudessem tentar tirar suas próprias conclusões a respeito do testemunho de Contardo Calligaris ou James Gandolfini sobre suas próprias mortes. Um documento importante que jamais será escrito sobre a completa definição da experiência. A tristeza da morte é não voltar para contar a história.

Tags: Contardo CalligarisCrônicaexperiênciajames gandolfinimistériomorte

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