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‘A liberdade total’: uma obra perfeita para o Brasil de 2021

Em ‘A liberdade total’, escritor argentino Pablo Katchadjian usa Teatro do Absurdo como força motriz de narrativa visceral e cada vez mais atual.

porJonatan Silva
29 de outubro de 2021
em Literatura
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‘A liberdade total’: uma obra perfeita para o Brasil de 2021

Pablo Katchadjian: autor de 'A liberdade total'. Imagem: Reprodução.

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A rivalidade Brasil versus Argentina só existe na trivialidade da grade de programação da TV, sobretudo a aberta. Na literatura, com certeza, é empate. Nas duas seleções, os craques mais recentes batem um bolão – ainda que sob a proteção dos santos guerreiros de outros tempos. No território portenho, um dos destaques é Pablo Katchadjian, artilheiro em termos de radicalismo e experimentação.

Katchadjian, que publicou há pouco pela DBA o romance A liberdade total, ficou conhecido por aqui quando María Kodoma, viúva de Borges, o processo por El Aleph engordado, uma versão remix do conto publicado pelo Maestro. Na verdade, chamar A liberdade total é impor ao texto uma limitação que não cabe à obra. A narrativa se debruça sobre dois personagens, A e B, duas almas beckettianas que discutem sobre as perspectivas possíveis diante de uma rebelião contra o status quo.

Como Cesar Aira e Cortázar, de quem é herdeiro direto, Katchadjian é um artista sardônico, alguém capaz de explorar as vias mais esdrúxulas para compor uma obra original e intrigante.

Como Cesar Aira e Cortázar, de quem é herdeiro direto, Katchadjian é um artista sardônico, alguém capaz de explorar as vias mais esdrúxulas para compor uma obra original e intrigante. Como no caso da versão que fez de Borges, o escritor se apropriou de um conto clássico para recriá-lo e construí-lo de uma maneira original.

Jonathan Safran Foer fez movimento semelhante com o conto “Streets of crocodiles” (“A Rua de Crocodilos”, por aqui), de Bruno Schulz, recortando o texto e criando uma nova fábula, Tree of codes. A estratégia só faz burburinho nas letras. Nas artes visuais, Andy Warhol rompeu nos anos 1960 com a ideia de autoria e pertencimento e, claro, na música o remix e a apropriação – creditados, obviamente – são uma estrada trilhada há tempos.

De alguma maneira, A liberdade total toma emprestado os personagens de Esperando Godot para criar uma narrativa absurda e impressionante, que verbaliza como poucas os dilemas de um mundo dilacerado pelo algoritmo e pela desumanização. Katchadjian consegue imprimir profundidade em uma construção, aparentemente, simplista e direta. A filosofia e o desconcerto estão nas entrelinhas, no vácuo das perguntas sem respostas e na impossibilidade do mundo contemporâneo.

A beleza do livro está fuga que Katchadjian propõe. A e B são corajosos ao pensar em enfrentar o sistema, mas são covardes ao colocar em dúvida as suas próprias capacidades de engendrar uma revolta. A e B, assim como Vladimir e Estragon, são todos nós e a impotência diante do caos que se concentra cada vez mais e invade o cotidiano. À medida em que outros seres se manifestam – E, F, G, H, I e J –, a confusão e a incapacidade de decidir aumenta, se maximiza em uma potência de barbárie e silêncio. Escrito em 2011, A liberdade total é um livro perfeito para o Brasil – e também todo o mundo – de 2021.

A LIBERDADE TOTAL | Pablo Katchadjian

Editora: DBA Literatura;
Tradução: Bruno Cobalchini Mattos;
Tamanho: 160 págs.;
Lançamento: Março, 2021.

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Tags: Book ReviewCésar AiraCríticaCrítica LiteráriaDBA LiteraturaJorge Luís BorgesJulio CortázaLiteraturaLiteratura ArgentinaPablo KatchadjianResenhaSamuel Beckett

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