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Em ‘Real Beleza’, Jorge Furtado faz aquilo que não sabe

Em 'Real Beleza', Jorge Furtado foge das comédias e roteiro ágil para contar a história de um fotógrafo em crise.

porAline Vaz
14 de agosto de 2015
em Cinema
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Em 'Real Beleza', Jorge Furtado faz aquilo que não sabe

Imagem: Reprodução.

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Quando se fala do novo filme de Jorge Furtado, logo surge a inquietação. O diretor gaúcho investe em um novo gênero em sua carreira consagrada pela comédia. No drama Real Beleza, João, um fotógrafo que procura potenciais candidatas à modelo em cidades do interior do Rio Grande do Sul, depois de muitos testes, encontra uma jovem de real beleza, Maria (interpretada por Vitória Strada).

O pai não quer assinar a autorização para a filha de 16 anos deixar a cidade em busca do sonho de ser modelo. A mãe da jovem apoia a escolha da filha, e relaciona-se com o fotógrafo. Maior que o conflito em conseguir a autorização para Maria ser modelo, o filme trata do olhar. Encontrar a real beleza não é encontrar a garota mais bonita da cidade, é saber olhar e ser olhado por e para ela, um encontro sensível entre a lente da câmera de João e a jovem que é fotografada. Maria estabelece esse elo e guia o olhar de João para novas experiências.

Enquanto não conhecemos o pai da adolescente, conhecemos sua mãe, interpretada por Adriana Esteves, que insiste em ressaltar que seu marido é muito bonito. Quando surge na tela Francisco Cuoco, nos seus 80 e tantos anos, um senhor intelectual que perdeu a visão, percebe-se que a sua beleza está nos olhos da esposa.

A câmera, que em alguns momentos guia um olhar tenso, dando a impressão que a qualquer instante o filme se demonstrará um thriller, está ali dessa maneira, justamente, para lembrar que também estamos lá, também invadimos a casa de uma família e inquietamos suas vidas. No início do filme, quando a câmera de João, interpretado por Vladimir Brichta, é olhada de frente por nós, também estamos sendo olhados por ela, precisamos encontrar a real beleza um no outro para que possamos assinar o contrato da ficção que ali nos convence de uma história.

Precisamos encontrar a real beleza um no outro para que possamos assinar o contrato da ficção que ali nos convence de uma história.

Jorge Furtado que é grande fã de literatura, também escritor de contos e leitor de clássicos. Cria referências literárias marcantes em seus diálogos, do conhecido Decamerão, de Giovanni Boccaccio, já abordado por ele em outros trabalhos, à Guimarães Rosa, na frase “a gente só sabe bem aquilo que não entende”. O diretor que um dia leu um artista plástico espanhol, não se esqueceu da frase em que “o artista deve fazer aquilo que ele não sabe” e concordou, “pois o maior risco que a gente corre é o de imitar a si mesmo”. No roteiro de Real Beleza, Furtado foge das cenas ágeis e diálogos rápidos vistos em seus outros filmes, como no longa de estreia Houve Uma Vez Dois Verões, ou nos famosos O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou um Cara, ambos estrelados por Lázaro Ramos.

Enfim, em Real Beleza, a câmera de João é importante, a câmera de Jorge Furtado também, os nossos olhares e dos personagens são os protagonistas da narrativa. Como você vai olhar para o mundo e com quem você vai escolher olhar determinará sua história. Se mediado por câmeras ou guiado por olhares a sua volta, o mundo é o que vemos e o que nos olha, o real encontro da beleza.

Um comentário de fã? Jorge Furtado, não abandone as comédias, seus diálogos ainda são melhores que os seus silêncios.

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Tags: Adriana EstevesCasa de Cinema de Porto AlegreCinemaCinema NacionalCrítica de CinemaDocumentárioFrancisco CuocoJorge FurtadoReal BelezaVladimir Brichta

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