Curitiba mais uma vez se transforma, a partir desta quarta-feira (11), em capital do cinema independente com a abertura da 14ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, que vai até o dia 19 de junho. Com mais de 90 filmes selecionados, entre longas e curtas, brasileiros e internacionais, o evento traz ao público uma programação que se equilibra entre experimentação estética, força narrativa e diversidade temática. E, como não poderia deixar de ser, começa em grande estilo, com a exibição na do aguardado Cloud, novo filme do cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa.
A sessão de abertura acontecerá na Ópera de Arame, local já tradicional no calendário do festival, que este ano abrigará uma experiência cinematográfica especial: a projeção do filme em uma tela de 400 polegadas, em um ambiente que mescla natureza e arquitetura, criando uma atmosfera sensorial única. Escolher Cloud como porta de entrada para a programação de 2025 não é apenas uma escolha estética, mas também política.
Dirigido por um dos mestres contemporâneos do suspense asiático, Cloud é um thriller psicológico ambientado na Tóquio contemporânea. Acompanhamos Yoshii (Masaki Suda), jovem vendedor online de gadgets eletrônicos, que se vê progressivamente encurralado por um grupo anônimo de justiçadores virtuais que o acusam, sem provas, de um suposto crime. O filme articula tensão emocional, crítica às redes sociais e uma estética minimalista carregada de sugestão e silêncio — marcas autorais de Kurosawa.
A escolha ressoa com o espírito do festival: uma proposta curatorial voltada para filmes que escapam do lugar-comum, que provocam o olhar e desafiam convenções narrativas. Estreia japonesa no Brasil, Cloud já passou pelos festivais de Veneza e Toronto, e foi o representante do Japão na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano, vencido pelo brasileiro Ainda Estou Aqui, de Walter Salles.
Competitiva Brasileira

A Mostra Competitiva Brasileira traz oito longas-metragens e oito curtas, formando um retrato fragmentado, mas vigoroso, da produção contemporânea do país. Entre os destaques, está o delicado e político Apenas Coisas Boas, de Daniel Nolasco, sobre um romance gay entre dois homens maduros no interior de Goiás nos anos 1980. O filme lida com desejo, repressão e afeto em um tempo em que tudo parecia estar fora do lugar.
Já Aurora, de João Vieira Torres, é um ensaio documental que parte da figura de uma avó curandeira para investigar ancestralidade, memória e violência contra mulheres no sertão baiano. Cais, de Safira Moreira, aposta na força poética das imagens para narrar travessias emocionais em rios que são também metáforas do tempo e da história.
Outros títulos da mostra, como A Voz de Deus (de Miguel Antunes Ramos) e Glória & Liberdade (de Letícia Simões), tratam de fé, poder e utopia a partir de estruturas narrativas não convencionais, provocando o espectador a encontrar sentidos nas lacunas e ambiguidades da linguagem cinematográfica.
Competitiva Internacional

A Mostra Competitiva Internacional continua sendo o coração estético do Olhar de Cinema. Este ano, são seis longas e oito curtas, provenientes de países como Bélgica, Argentina, Espanha, Canadá, Filipinas e Haiti. Em comum, essas obras experimentam formas narrativas híbridas e temas que giram em torno de pertencimento, deslocamento e identidade.
O belga-congolês A Árvore da Autenticidade, de Sammy Baloji, é um ensaio visual sobre colonialismo e crise ambiental, enquanto Ariel, do espanhol Lois Patiño, explora o metateatro e a filosofia da alteridade em um jogo de vozes, encenações e fantasmagorias. Já o canadense Medidas para um Funeral, de Sofia Bohdanowicz, é uma delicada construção sobre a solidão, a música e a vida no limiar da ausência.
Agnès Varda

Um dos pontos altos da 14ª edição do Olhar de Cinema é a Mostra Olhar Retrospectivo, que neste ano homenageia a cineasta belga-francesa Agnès Varda (1928–2019), figura seminal da Nouvelle Vague e precursora de um cinema profundamente pessoal, político e inventivo. A retrospectiva apresenta uma seleção de nove longas-metragens e dois curtas, cobrindo desde seus primeiros trabalhos, como La Pointe Courte (1955), até seu celebrado testamento fílmico Varda por Agnès (2019), permitindo um mergulho na trajetória de uma artista que fez do olhar uma forma de questionamento permanente.
Sua obra, sempre atenta às questões de gênero, classe e memória, dialoga diretamente com a proposta curatorial do festival, ao oferecer uma ética da escuta e uma estética do afeto, sem nunca abdicar da experimentação formal.
A mostra revela as múltiplas faces de Varda: a cronista sensível das transformações sociais (Cléo das 5 às 7), a viajante curiosa em constante diálogo com os invisibilizados (Os Catadores e Eu), a arquiteta de formas híbridas entre documentário e ficção (Sem Teto Nem Lei). Sua obra, sempre atenta às questões de gênero, classe e memória, dialoga diretamente com a proposta curatorial do festival, ao oferecer uma ética da escuta e uma estética do afeto, sem nunca abdicar da experimentação formal.
Mais que uma homenagem, a retrospectiva funciona como uma espécie de espelho poético para os filmes contemporâneos em exibição no Olhar. Em tempos de urgência política e crise de representações, revisitar Agnès Varda é reencontrar a potência de um cinema que vê o mundo não como algo a ser dominado, mas como um espaço a ser partilhado — com delicadeza, ironia e radical liberdade criativa.
Sala de cinema expandida

Além da já citada Ópera de Arame, o festival deste ano ocupa espaços novos e renovados: a estreia do MON (Museu Oscar Niemeyer) como sala de exibição representa um marco para a cultura da cidade. Também retornam à programação o Cine Guarani, recém-reformado, e a Cinemateca de Curitiba, que completa 50 anos. O Cine Passeio continua sendo um dos epicentros do evento, e o Teatro da Vila, na CIC, receberá sessões gratuitas.
A ampliação dos espaços físicos dialoga com a amplitude simbólica do Olhar: “Estamos chegando em lugares novos, com filmes novos, vozes novas. É um movimento que reflete o próprio cinema que estamos exibindo — múltiplo, fragmentado, mas profundamente conectado ao tempo presente.”
SERVIÇO | 14º Olhar de Cinema
Onde: Cine Guarani | Cine Passeio | Cinemateca de Curitiba | Museu Oscar Niemeyer | Ópera de Arame | Teatro da Vila – para endereços e sessões, confira o PDF do guia do festival;
Quando: de 11 a 19 de junho;
Quanto: R$ 16 (inteira) e R$ 8 (meia) – algumas sessões, como as do Teatro da Vila, têm entrada gratuita.
Com um recorte curatorial que combina urgência e contemplação, política e poesia, o Olhar de Cinema 2025 promete ser mais que um festival: uma travessia estética que aposta na sensibilidade como resistência, no cinema como forma de reencantar o real e na cidade como palco para encontros improváveis — entre pessoas, imagens, histórias e afetos.
Mais informações, incluindo a programação completa, estão disponíveis no site oficial do festival e no app para iPhone e Android.
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