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‘Cidade dos Sonhos’ aposta na dúvida como motor narrativo

Filme de David Lynch, 'Cidade dos Sonhos', lançado em 2001, ganha relançamento nos cinemas brasileiros em cópia restaurada em 4K, e reafirma seu status como obra-prima labiríntica sobre identidade, ilusão e os bastidores sombrios de Hollywood.

porPaulo Camargo
15 de abril de 2025
em Cinema
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Filme foi originalmente concebido para um piloto para a emissora ABC, que retirou a proposta após assistirem a primeira versão. Imagem: The Picture Factory / Divulgação.

Filme foi originalmente concebido para um piloto para a emissora ABC, que retirou a proposta após assistirem a primeira versão. Imagem: The Picture Factory / Divulgação.

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Há filmes que não se revelam de imediato; eles precisam de tempo para se desdobrar. São obras que não se limitam a uma única interpretação, exigindo do espectador mais do que uma simples observação – é preciso entrega, imersão. Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch, é uma delas. Talvez por isso, o relançamento nos cinemas brasileiros, com cópias restauradas em 4K – um formato que acentua texturas, contrastes e profundidade de cor – seja tão oportuno. Rever essa obra-prima meticulosamente reconstruída não é apenas uma oportunidade de reencontro; é a chance de (re)sonhá-la, de mergulhar novamente em seus enigmas e sensações.

Lynch é um autor de superfícies – mas superfícies que tremem. Nada em sua obra é estável. Tudo se move sob o verniz de uma aparente normalidade. Em Cidade dos Sonhos, esse jogo entre o que se vê e o que se oculta atinge um grau de sofisticação raro, mesmo dentro de sua filmografia. O filme nasce como projeto de série para a televisão, rejeitado por uma emissora que talvez tenha sentido, já ali, que o que Lynch propunha não era linear, vendável, tampouco decifrável. Dois anos depois, o diretor retoma o material, costura novos fragmentos, e o transforma em longa-metragem. Mas o que poderia ser apenas remendo se torna enigma.

A trama, se é que se pode chamá-la assim, gira em torno de Betty Elms (Naomi Watts), jovem atriz que chega a Los Angeles embalada por um otimismo anacrônico, e cruza o caminho de uma mulher amnésica (Laura Harring) que adota o nome de Rita, numa referência direta à Gilda de Rita Hayworth. A partir desse encontro, o filme se instala como um simulacro de investigação – uma busca por pistas, nomes, significados. Mas, aos poucos, percebe-se que o que está em jogo é outra coisa: a própria possibilidade de um sentido.

Como em um espelho partido, as identidades se desdobram e se confundem. Betty é também Diane. Rita é também Camilla. A história muda de tom, muda de foco, e o que antes parecia sonho ganha contornos de delírio. O cinema de Lynch é, desde sempre, interessado em máscaras, duplos, cortinas vermelhas e identidades oscilantes. Em Cidade dos Sonhos, essas obsessões ganham uma dimensão ainda mais amarga: o sonho hollywoodiano implode de dentro para fora, revelando não só seus mecanismos, mas sua crueldade estrutural.

O que Cidade dos Sonhos propõe é menos um comentário sobre a indústria e mais uma travessia sensorial pelo inconsciente do espetáculo. Em uma das cenas mais poderosas, no clube Silencio, Lynch desmonta o próprio cinema: uma cantora interpreta uma versão hispânica de “Crying”, de Roy Orbison, com emoção dilacerante — mas, de repente, desaba no palco, enquanto a música segue. Nada é ao vivo. Nada é real. É tudo ilusão. Mas há verdade na ilusão — talvez, a única possível.

O que Cidade dos Sonhos propõe é menos um comentário sobre a indústria e mais uma travessia sensorial pelo inconsciente do espetáculo.

Esse teatro da falsidade se estende também ao diretor Adam (Justin Theroux), personagem cujo arco revela a impotência criativa diante das forças obscuras do poder econômico e simbólico. Confrontado por produtores mafiosos e por um cowboy espectral que parece saído diretamente das alucinações de Twin Peaks ou de Estrada Perdida, ele se vê encurralado – como se o próprio ato de filmar fosse um pacto com o diabo.

Assistir a Cidade dos Sonhos hoje, mais de duas décadas após seu lançamento, é confrontar-se com um cinema que não subestima a inteligência do espectador, mas que também não lhe oferece chão firme. É um filme que aposta na dúvida como motor narrativo. E que, como poucos, compreende o cinema como dispositivo de montagem de identidades – íntimas, culturais, imagéticas.

Rever este pesadelo em 4K, com sua estética restaurada em minúcias, é deixar-se perder outra vez na névoa. É como visitar um lugar familiar que já não reconhecemos completamente. As texturas ganham espessura. As sombras se tornam mais densas. E o azul da caixa misteriosa parece ainda mais hipnótico.

No fim, talvez seja isso que Cidade dos Sonhos nos propõe: não um enigma a ser resolvido, mas uma experiência a ser atravessada. Como os próprios sonhos – que não pedem lógica, mas escuta.

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Tags: Cidade dos SonhosCinemaCrítica de CinemaDavid Lynch

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