É justo dizer que a atriz australiana Rose Byrne (mais conhecida pelas séries Damages e Physical, além de participações menores em franquias como X-Men) está se especializando em um tipo específico de papel: o de mulheres – quase sempre mães – que estão à beira de um colapso. Em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, da diretora, roteirista e atriz Mary Bronstein, esse talento é aproveitado ao máximo em um filme estranho e incômodo, justificando a indicação de Byrne ao Oscar de melhor atriz.
Embora focado principalmente na experiência da sua personagem, que se chama Linda, o fato é que Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um filme essencialmente sombrio e que aborda a maternidade no aspecto que ela tem de mais revoltante: a sobrecarga que, quase sempre, cai sobre as mulheres. E o longa de Bronstein trata isso de maneira brutal e algo fantasiosa, exagerada, em que o drama da protagonista mistura realidade e delírio.
Na história, Linda é mãe de uma menina que tem um sério problema gástrico, que precisa dormir ligada a um aparelho conectado a um tubo inserido em sua barriga. Ela faz um acompanhamento em um hospital, e precisa ganhar peso para poder tirar a sonda. O pai (Christian Slater, que durante quase todo o tempo aparece só como uma voz ao telefone) está longe, trabalhando. Em suma, Linda está totalmente sozinha, e as coisas só vão piorar.
Uma mãe à beira de um ataque de nervos
Logo entendemos que Linda está muito, muito cansada. Já na primeira cena, nos é esclarecido que ela precisa acompanhar a filha no tratamento e que ela é acusada de não ajudá-la a evoluir em sua condição física. Linda é tida como insubmissa, como alguém que contraria as recomendações médicas.
Em seguida, ao retornar para casa, soma-se ao estresse o fato de que o teto do seu apartamento ruiu e a casa está inundada. Mãe e filha então precisam se mudar para um motel barato enquanto a reforma é feita, aos trancos e barrancos. O caos só segue aumentando – e Linda está sozinha e sobrecarregada. E cansada.
O filme vai evoluindo para uma espécie de body horror misturado com drama, em que o estado mental deteriorado de uma mãe vai aos poucos moldando a sua realidade externa, que o mundo concreto se funde com os delírios.
Além disso, ela trabalha. E por uma ironia do destino, veja só, é uma terapeuta, que convive diariamente com pacientes com questões mentais, incluindo uma puérpera com uma paranoia severa que requisita tratamento psiquiátrico, e que não consegue se separar do filho. Tudo o que Linda quer é alguns minutinhos de paz para se afastar um pouco enquanto a filha dorme para beber vinho e fumar maconha, mas nem isso ela consegue.
Há muitas mensagens sutis no filme de Mary Bronstein. Muitos homens circundam Linda – o marido, o terapeuta dela (vivido por Conan O’Brien), um funcionário solícito do motel (A$AP Rocky), os pacientes. Eles estão sempre prontos a dar conselhos e dizer o que ela deve fazer, mas nunca estão de fato ajudando. Além disso, os homens nunca têm problema em colocar limites (note as cenas em que um paciente briga por conta de um atraso em seu horário), mas a Linda nunca é permitido negociar nada.
Outra escolha interessante de Bronstein é o enquadramento sempre próximo do rosto de Rose Byrne. Há um foco nos seus sentimentos do ponto de vista físico, na visceralidade manifestada pelo desconforto que emerge do contato com as piores sensações.
Isso faz com que um filme vá evoluindo para uma espécie de body horror misturado com drama, em que o estado mental deteriorado de uma mãe vai aos poucos moldando a sua realidade externa, que o mundo concreto se funde com os delírios, tornando tudo um grande devaneio. Nesse sentido, há certas similares com Mãe!, filme de Darren Aronofsky, outra obra que lembra um pesadelo materno.
Em suma, é um filme feito não para agradar, mas para incomodar. Não à toa, foi dirigido e roteirizado por uma mulher: Mary Bronstein declarou que começou a planejá-lo quando passou um período acompanhando a filha que estava internada. Para quem conseguir atravessá-lo, será uma jornada e tanto, mas não exatamente prazerosa.
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