Sorry, Baby, estreia em longa-metragem de Eva Victor, faz o caminho inverso de obras cujos eventos estruturam seu desenvolvimento. O filme, que fez sucesso no Festival de Sundance de 2025, retira o acontecimento de cena para observar o que sobra quando a vida, contrariando expectativas narrativas e morais, insiste em continuar. Algo ruim aconteceu com Agnes — a frase, repetida como um refrão discreto, é suficiente. O filme não se interessa em mostrar, reconstruir ou dramatizar o evento em si, mas em acompanhar os seus efeitos diluídos no tempo, no corpo e nas relações. Essa decisão, ética e estética, é o gesto mais radical e mais preciso do longa.
Victor escreve, dirige e interpreta Agnes com uma atenção rara aos detalhes da experiência vivida após a violência. Professora universitária em uma pequena cidade da Nova Inglaterra, Agnes permanece no mesmo espaço físico e simbólico de antes, enquanto o mundo ao redor segue adiante: amigos mudam, casam, têm filhos, se deslocam. O filme é organizado em capítulos nomeados, que embaralham passado e presente, mas essa estrutura nunca soa como artifício. Ao contrário, espelha a maneira fragmentada com que o trauma reorganiza a memória, dividindo a vida em antes e depois, sem nunca permitir que essa divisão seja completamente estanque.
O grande acerto de Sorry, Baby está em recusar a lógica totalizante do chamado “filme de trauma”, tão recorrente no cinema contemporâneo, em que a violência define integralmente a personagem e orienta todas as suas ações subsequentes. Agnes não é reduzida a vítima nem elevada a símbolo. Ela é inteligente, irônica, socialmente desajeitada em alguns momentos, generosa em outros, capaz de ternura e de crueldade consigo mesma. O trauma a atravessa, mas não a esgota. Eva Victor entende que a experiência da violência convive, de maneira desconfortável e realista, com a banalidade do cotidiano: aulas para preparar, vizinhos estranhos, burocracias institucionais, piadas deslocadas, silêncios prolongados.
O humor, seco e frequentemente desconcertante, funciona como ferramenta de sobrevivência e de revelação. Há cenas em que o riso surge quase por reflexo, apenas para ser interrompido por uma percepção súbita da dor subjacente. A diretora maneja esse equilíbrio com notável segurança, sem recorrer ao cinismo nem à solenidade. O absurdo das respostas institucionais (reuniões administrativas, procedimentos médicos, discursos ensaiados de empatia) é exposto sem caricatura excessiva, ainda que algumas situações se aproximem do limite da estilização. Ainda assim, o filme jamais perde o vínculo com uma sensação de verdade emocional.
Central para essa experiência é a relação entre Agnes e Lydie, interpretada por Naomi Ackie com uma combinação precisa de calor, presença e contenção. A amizade entre as duas é o eixo afetivo do filme, retratada não por grandes declarações, mas por gestos mínimos, silêncios compartilhados, intimidades físicas desprovidas de erotização. Se podemos afirmar que o cinema frequentemente subestima a força narrativa da amizade feminina, Sorry, Baby aposta nesse vínculo como espaço de reconhecimento e permanência, sem idealizá-lo ou submetê-lo a conflitos artificiais.
Como diretora, Eva Victor demonstra um domínio notável do ritmo e do espaço. A câmera observa mais do que sublinha, permitindo que cenas aparentemente banais adquiram densidade ao longo do tempo. A casa de Agnes, com seus ruídos, portas trancadas e rotinas repetidas, torna-se extensão do estado emocional da personagem, sem jamais se transformar em metáfora óbvia. O uso da elipse é especialmente eficaz: o filme confia na inteligência do espectador para preencher lacunas, compreender o que não é dito, aceitar que nem tudo precisa ser explicado ou resolvido.
A câmera observa mais do que sublinha, permitindo que cenas aparentemente banais adquiram densidade ao longo do tempo.
Há, naturalmente, imperfeições. Alguns personagens secundários são delineados de forma mais esquemática, e certas situações parecem levemente intensificadas para efeito dramático. No entanto, essas escolhas não comprometem o conjunto, que se sustenta pela coerência de sua proposta e pela honestidade de seu olhar. Sorry, Baby não oferece catarse fácil, nem soluções reconfortantes. O que oferece é algo mais raro: a sensação de estar diante de uma vida em andamento, com suas contradições, avanços mínimos e recaídas silenciosas.
O filme de Eva Victor se afirma como uma das estreias mais sensíveis e inteligentes do cinema independente recente. Ao recusar o espetáculo da dor e apostar na persistência do cotidiano, Sorry, Baby amplia as possibilidades de representação do trauma no cinema, lembrando que sobreviver não é um arco narrativo, mas um processo irregular, muitas vezes sem clímax, que se desenrola dia após dia. É nesse espaço aparentemente modesto que o filme encontra sua força e sua necessidade.
ESCOTILHA PRECISA DE AJUDA
Que tal apoiar a Escotilha? Assine nosso financiamento coletivo. Você pode contribuir a partir de R$ 15,00 mensais. Se preferir, pode enviar uma contribuição avulsa por PIX. A chave é pix@escotilha.com.br. Toda contribuição, grande ou pequena, potencializa e ajuda a manter nosso jornalismo.






