O filme Tese Sobre uma Domesticação é a primeira tentativa de transpor ao audiovisual o universo criado pela escritora argentina Camila Sosa Villada. A partir de suas obras, que são hoje objeto de culto, Villada foi capaz de trazer contornos a um ethos específico, que parece só existir nas linhas da imaginação: um mundo em que as travestis e pessoas trans vivem em pé de igualdade o resto da sociedade, podendo triunfar pelos seus talentos e esforços.
Não por acaso, a autora categorizou o livro que dá origem ao filme como uma “ficção científica“: só assim seria plausível acreditar na existência dessa atriz travesti cultuadíssima, com o porte de uma Fernanda Montenegro em seu país, com a capacidade de lotar todos os lugares de um grande teatro nacional.
O desafio do diretor Javier van de Couter, portanto, é o de trazer contornos imagéticos para esta história centralizada em sua personagem principal, que nunca é nomeada – e que, diferente do que se poderia pensar, é uma heroína repleta de falhas. A primeira cena já dá o tom sobre quem ela é. A atriz (interpretada, para nossa surpresa, pela própria Camila Sosa Villada) acende um cigarro no teatro no qual está ensaiando uma peça. Ao ser repreendida pelo segurança local para que o apague, ela reage furiosamente. Em outra cena situada em seu trabalho, a atriz grita: “quem mandou contratar uma louca, agora aguentem!”.
Tese Sobre uma Domesticação busca então contar-nos quem é essa mulher, uma espécie de animal selvagem, admiradíssima em seu país, e que é incapaz de controlar os seus impulsos. Mesmo domesticada pelo sucesso e por fazer parte do status quo, sua natureza segue indomável.
Em uma festa, ela conhece um mexicano lindíssimo (Alfonso Herrera, que fez parte do grupo RBD) que se mudou para a Argentina “por conta dos homens”. Ele gay, ela travesti. Ambos se apaixonam e passam a sonhar com essa vida tradicional: um casamento elegante e chique, em um cenário do campo, onde reside a família da atriz. Planejam até tornar-se mãe e pai de um menino com HIV, adotado em um orfanato.
Villada nos entrega nesta obra um “conto de fadas travesti”, povoado pelos sonhos heteronormativos, mas inevitavelmente condenado a ter fissuras. Afinal, estamos diante de uma mulher que é uma força da natureza, fiel aos seus instintos, como um bicho.
O conto de fadas de Camila Sosa Villada
Ao transpor a trama às telas, o diretor Javier van de Couter precisa dar concretude a esse universo, e o faz a partir de uma fotografia elegante e robusta, com planos abertos e passagens longas. A atriz e o seu marido são como personagens de revista, e vivem em um apartamento chique que configuraria em qualquer publicação de arquitetura super moderna.
Não obstante, enquanto o livro situa os detalhes dessa história (entendemos mais, por exemplo, dos conflitos da atriz com os seus familiares do ambiente rural, em uma relação que conjuga a afetividade, a provocação sexual e o ódio), o filme de van de Couter prioriza mais a experiência estética.
O que Tese sobre uma Domesticação pretende nos revelar é que há muitos preços a serem pagos na busca por essa vida heteronormativa burguesa, e que nem sempre a atriz está disposta a custear esse ônus.
Por isso, o longa nos entrega muitas cenas de sexo, que servem para contextualizar a potência da atriz, mas pecam na hora de transmitir a complexidade dos seus relacionamentos. Talvez seja difícil entender, apenas pela fruição do filme, que o idoso que mora em um casebre no meio do mato – a quem ela procura para ceder seu corpo, aparentemente contra a vontade dele – é um homem que a salvou do estupro e da morte durante a juventude.
O mesmo talvez possa ser dito sobre o seu casamento: o casal se entrega separadamente a muitos encontros sexuais. Mas enquanto a atriz vive de forma mais livre a sua sexualidade, entregando-se a quem quiser, ela parece cobrar a fidelidade do marido. Não parece ficar tão claro, então, que o conflito entre ambos se dá pelo pouco desejo sexual que ele tem pelas mulheres.
O que Tese Sobre uma Domesticação pretende nos revelar é que há muitos preços a serem pagos na busca por essa vida heteronormativa burguesa, e que nem sempre a atriz está disposta a custear esse ônus. Ela não pode ser adestrada. Os distanciamentos e as rupturas são inevitáveis. Nesse conto de fadas, os personagens são muito mais humanos do que pressuporia o gênero destinado às crianças.
Claramente fascinado pela história que conta, Javier van de Couter nos apresenta uma obra que seduz e provoca, e que – mesmo com as limitações esperadas a uma adaptação – faz jus ao grande romance de Villada.
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