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‘Lady Bird’ aborda com delicadeza o conflito inevitável entre mãe e filha

'Lady Bird' delicadamente aborda o conflito entre mãe e filha, destacando-se pela atuação cativante de Saoirse Ronan e sua sutileza.

porMaura Martins
16 de fevereiro de 2018
em Cinema
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Lady Bird - Greta Gerwig

As protagonistas são o destaque de 'Lady Bird'. Imagem: Divulgação.

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Talvez a melhor cena de Lady Bird – A Hora de Voar seja justamente a que abre o filme de Greta Gerwig: uma moça de cabelo cor de rosa (Saoirse Ronan) percorre uma estrada com a mãe (Laurie Metcalf). Ambas ouvem um audiobook de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, e estão visivelmente emocionadas. Compartilham um momento único, de mãe e filha. Mas logo algo inesperado acontece, que quebra todo o “clima” e traz um tom tragicômico à situação.

A cena é sintomática justamente porque assinala o tema central, aquilo que há de mais tocante em Lady Bird: o filme trata do inevitável conflito entre mãe e filha, dos sonhos de uma e da teimosa mania de encarar a realidade da outra. É sempre uma relação agridoce, amorosa mas irritante, triste mas engraçada. No filme, a protagonista, Christine, é um tanto esquisita e idealista: ela quer alçar voos mais altos do que proporciona a ela sua cidade natal, Sacramento. Para isso, precisa se desatar das amarras da vida concreta (sendo a primeira libertação a do nome de batismo – ela pede incessantemente para ser chamada de Lady Bird, e acha uma arbitrariedade os pais darem um nome ao filho) e fazer faculdade em Nova York, onde acredita que irá encontrar seus “pares”. Já sua mãe, que trabalha em um hospital e visivelmente se desdobra para sustentar uma família em crise financeira, é a responsável por trazer a filha à terra, mostrar as limitações inevitáveis dos sonhos adolescentes – como a dificuldade que é pagar uma faculdade em outra cidade.

‘Lady Bird’ é a estreia na direção de Greta Gerwig, musa dos filmes de Noah Baumbach. Imagem: Divulgação.

O conflito não é simples, é claro, mas os dramas mostrados no filme são sutis e algo poéticos quando tratados pela delicada direção e pelo roteiro preciso de Greta Gerwig, que despontou como atriz nos filmes de Noah Baumbach, seu esposo, e de quem empresta, em alguma medida, a estética que utiliza para construir Lady Bird. Ou seja, o filme tem muito do “clima” de quase todas as obras do diretor (como A Lula e a Baleia, Frances Ha e Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe). São todas obras que, de alguma forma, falam sobre nada, ou melhor, falam sobre as pequenezas da vida – especialmente das vidas daqueles que se sentem desajustados, algo deslocados das convenções sociais do que significa ser bem sucedido.

Lady Bird tem muito de Frances Ha, a personagem que tornou Greta Gerwig uma espécie de musa indie.

Lady Bird, aliás, tem muito de Frances Ha, a personagem que tornou Greta Gerwig uma espécie de musa indie. Assim como Frances Ha, Lady Bird também está desencaixada: ela se interessa em artes, mas não parece ter muito talento para o teatro ou para a música; ela quer um namorado, mas os pretendentes que parecem promissores não são lá isso tudo. Em suma, ela espera mais da vida do que seu entorno pode lhe proporcionar – mas também não se leva muito a sério. Assim com Frances Ha, Lady Bird é involuntariamente engraçada, algo desengonçada, meio apatetada, e isso certamente é um fator que ajuda com que nos identifiquemos com ela.

Parte do carisma da personagem se dá pelo trabalho da atriz que a encarna. Aos 23 anos, Saoirse Ronan já estrelou o cativante Brooklin e estreou no cinema como Briony, a protagonista de Desejo e Reparação, adaptação cinematográfica da obra-prima do inglês Ian McEwan. Conhecida do público em papéis de época, ela agora dá vida a uma moça contemporânea (o filme passa em 2003) que encara os dramas típicos de uma garota adolescente de 17 anos: ela quer se livrar da virgindade o quanto antes e enfrenta certos perrengues no colégio católico em que estuda. Nem popular nem nerd, Lady Bird tenta encontrar sua turma, mas sem grandes dramas: ela tem um ar meio blasé bem comum em meninas de sua idade.

E aí surge a beleza do filme, justamente no confronto amoroso com sua mãe, vivida pela adorável Laurie Metcalf (que talvez seja mais conhecida no Brasil como a mãe de Sheldon em The Big Bang Theory). A qualidade de Lady Bird talvez esteja na delicadeza pela qual explora estas arestas de mãe e filha: sem grandes arroubos ou tragédias, mas como uma fase necessária a ser enfrentada na vida. A cena que encerra o filme, tal como a que abre, é belíssima.

A fragilidade do filme está na sua falta de originalidade: filmes fofinhos com personagens indie são já meio manjados, e Lady Bird acaba remetendo excessivamente a obras como Juno, Mistress America, Napoleon Dynamite e o próprio Frances Ha. Se Lady Bird não é um filme exatamente memorável (uma vez que já vimos esta história no cinema várias outras vezes), por outro lado, cativa com o humor bem sacado que Greta Gerwig empresta a alguns momentos da obra. Preste atenção na cena hilária em que Lady Bird completa 18 anos e resolve fazer tudo o que não podia até então.

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Tags: CinemaCrítica CinematográficaGreta GerwigLady BirdLaurie MetcalfNoah BaumbachOscarOscar 2018ResenhaSaoirse Ronan

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