[Alerta: este texto tem spoilers do filme Demônio de Neon]
Demônio de Neon (2016), novo filme do cineasta Nicolas Winding Refn, dividiu opiniões quando foi lançado no primeiro semestre de 2016. A produção apareceu em várias listas de melhores títulos do ano, mas irritou muita gente ao se vender como um horror e entregar uma narrativa fragmentada e cheia de elementos abertos a interpretação. Foi acusado de não pertencer efetivamente ao gênero e ser pretensioso e vazio.
Embora não seja grande entusiasta da obra, acho que ela permite um debate interessante sobre o sentido do que consideramos um filme horrífico. Afinal, o limite bastante vago em alguns casos e normalmente não temos dificuldade em reconhecer as convenções dessas narrativas. Basta pensar em A Pequena Loja dos Horrores (1986), Abracadabra (1993) e Goosebumps: Monstros e Arrepios (2015).
A intenção de classificar Demônio de Neon como horror parte do próprio diretor, que assim o definiu em entrevistas e em materiais de divulgação. Ao assisti-lo, no entanto, há uma impressão de que o gênero não cai adequadamente no longa-metragem.
Ter somente o monstro ameaçador e repulsivo (no caso, a maquiadora e as duas modelos canibais) não seria o suficiente para defender que um enredo seja ou não de horror. É preciso que a forma também se adeque à apresentação do conteúdo.
Toda a simbologia da produção gira em torno dos perigos de se admirar excessivamente a beleza. O enredo se divide em três atos. No primeiro, a jovem Jesse (Elle Fanning) começa a trabalhar como modelo em Los Angeles, onde mora sozinha. Ela conhece Ruby (Jena Malone), uma maquiadora que a deseja, e outras duas modelos Gigi (Bella Heathcote) e Sarah (Abbey Lee), que a invejam.
Na segunda parte da trama, Jesse passa a ter sucesso no universo fashion. Cenas em boates e espaços fechados com luzes cintilantes mostram o ego consumindo a protagonista. No último ato, ela recusa as investidas de Ruby, que chama Gigi e Sarah para a assassinarem e a consumirem em um violento ato de canibalismo não mostrado na tela.

Sem entrar em mais detalhes sobre a história e suas pontas soltas, pode-se argumentar que o ato de antropofagia, sozinho, já caracterizaria Demônio de Neon como uma narrativa de horror. O problema é que, apesar de vermos sangue e uma bola de olho regurgitada, falta uma gravidade atribuída ao que vemos – provavelmente porque não nos afeiçoamos a nenhum dos personagens como estamos acostumados a ver.
Deixando de lado a atual definição de horror narrativo adotada no âmbito teórico, de que um filme horrífico é um filme de monstro, é viável argumentar que o gênero não se insere adequadamente à produção. Winding Refn é um cineasta bastante preocupado com a plasticidade das imagens que constrói, mas suas cenas não seguem convenções tradicionais do gênero, pois ele apenas flerta com o sangue, com a necrofilia e com o gore.
Na Grécia Antiga, Aristóteles definia um gênero a partir do modo em que a narrativa era apresentada, no meio que utilizava para criar a história e nos objetos que representava. Assim, ter somente o monstro ameaçador e repulsivo (no caso, a maquiadora e as duas modelos canibais) não seria o suficiente para defender que um enredo seja ou não de horror. É preciso que a forma também se adeque à apresentação do conteúdo.
A classificação aristotélica de gênero foi reafirmada ao longo de muito tempo. No livro Gêneros Literários, Angélica Soares diz que essa perspectiva foi responsável por transformar os gêneros em amarras para o autor, pois era tratada com demasiada rigidez. De certa forma, essa maneira de entender uma classificação continua conosco, pois temos dificuldade em aceitar variantes sem rotulá-las com o que já conhecemos.
Ouso dizer que a determinação de Demônio de Neon como um filme de horror pode ser uma estratégia para a construção da mensagem sobre a beleza que percorre a narrativa. Difícil saber sem ouvir o próprio diretor, que costuma divagar sobre arte e simbolismos quando fala para jornalistas.
Ainda que eu tenha escrito este texto, admito que pensar demasiadamente sobre o tema também pode ser uma perda de tempo. Debruçar-se longamente sobre o novo longa-metragem de Winding Refn pode até gerar indícios de outros gêneros, que definam o título como uma história de amor, uma comédia ou até uma ficção científica. A obra é aberta justamente para que façamos com ela o que bem entendermos.