No livro que deu origem a Tubarão (1975), clássico de Steven Spielberg, o romancista Peter Benchley descreve um flerte entre Ellen Brody e Matt Hooper em um restaurante. Os dois trocam confidências e discutem seus delírios eróticos. Entre uma bebida e outra, ela revela que fantasia em ser estuprada por um desconhecido. Em 2018, meses depois da ascensão do movimento #MeToo e da explosão de depoimentos de assédio nos Estados Unidos e no mundo, a cena, que ficou de fora do filme, só pode ser interpretada como de extremo mau gosto.
Fruto de seu tempo, esse pequeno momento dentro do livro de Benchley é um grave alerta sobre como algumas vozes masculinas representaram o estupro na segunda metade do século passado como um ato de submissão, com o qual as mulheres fantasiam. A banalização não é apenas descabida, mas pode ser profundamente perigosa.
Escrito e dirigido por uma mulher, Vingança (2017) acompanha uma jovem que, ao viajar com o namorado para uma casa no deserto, é estuprada por um dos amigos dele e empurrada de um penhasco para a morte pelo seu companheiro.
Na década de 1970, diretores de cinema de horror exploravam o abuso sexual para chocar o público. Obras como Aniversário Macabro (1972), de Wes Craven, e A Vingança de Jennifer (1978), de Meir Zarchi, tornaram-se símbolos dos filmes de estupro e vingança (rape and revenge). Mesmo que essas narrativas possam ter questionáveis momentos de erotismo, o desfecho era sempre uma punição violenta aos agressores: a mutilação e/ou a morte.
O horror de exploração, no entanto, tem diversos títulos com representações bem mais problemáticas do crime. A Noite do Terror Cego (1972), produção hispano-portuguesa de zumbis dirigida por Amando de Ossorio, apresenta um dos anti-heróis da trama estuprando a personagem lésbica de forma absolutamente gratuita em um cemitério. Ainda que a narrativa seja fruto do seu tempo, é difícil assistir ao longa-metragem, hoje, sem ficar incomodado com a cena (que nunca é problematizada como crime sexual e é filmada de forma quase erótica).
Parte do ciclo de filmes italianos de canibais, O Último Mundo dos Canibais (1977), de Ruggero Deodato, coloca o seu protagonista espancando e violentamente estuprando uma nativa de uma tribo canibal de uma floresta filipina. Depois do ato, os dois viram um casal – pois aparentemente a vítima se afeiçoou ao agressor. Novamente, o teor da mensagem é quase romântico, deturpado e perigoso.

Essas representações nem de longe são exclusivas do cinema de horror. Comandada por Jorge Fernando, a comédia com atores globais Sexo, Amor e Traição (2004) mostrava um violento estupro cometido pelo personagem de Caco Ciocler contra sua esposa, vivida por Alessandra Negrini. O crime não chega nem a ser questionado pelo casal, que decide por um término amigável do casamento no fim do filme.
Por sorte, parte dessas cenas dificilmente seria banalizada na tela hoje. Um dos títulos de horror mais elogiados de 2018, curiosamente, é uma história de estupro e vingança. Escrito e dirigido por uma mulher, a francesa Coralie Fargeat, Vingança (2017) acompanha uma jovem que, ao viajar com o namorado para uma casa no deserto, é estuprada por um dos amigos dele e empurrada de um penhasco para a morte pelo seu companheiro.
A menina, interpretada pela jovem Matilda Lutz, se recupera e parte para um violento jogo de gato e rato com seus agressores: o estuprador, o observador silencioso e o namorado que tentou assassiná-la. O estupro, aqui, é dimensionado com a devida gravidade, condenado e brutalmente punido pela protagonista. A cena em que o crime ocorre é filmada sem glamour e sem erotização. A vítima está presa, sufocada e sem saída. Uma situação jamais pareceria uma fantasia sexual.