• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Crônicas Paulo Camargo

Procuram-se versos

porPaulo Camargo
8 de dezembro de 2015
em Paulo Camargo
A A
"Procuram-se versos", crônica de Paulo Camargo

Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Remexe nos bolsos, em busca do papel. Deixou cair? Talvez. Havia rabiscado uns versos em uma folha de caderno. Dobrou e achou estavam salvos, guardados. Deve ter perdido enquanto pegava as moedas para completar o dinheiro do ônibus. Vivia fazendo isso: tentava registrar ideias que surgiam do nada, e não queria que se desmanchassem. Mas acabava as largando no mundo, nas calçadas, em cantos do seu cotidiano que pareciam ter fome do que escrevia e engoliam tudo.

Era um poeta sem obra.

Desatento, atrapalhado. Ele sabia que era assim. Fazer o quê? Talvez alguém lesse, achasse bonito e guardasse o poema que deixou escorrer pelo chão. Já teria servido para alguma coisa!

O moleque gostava de escrever, mas nunca era algo planejado, com horário marcado. A inspiração despencava sobre sua cabeça como chuva. Às vezes uma garoa, fina, daquelas que encharcam aos poucos, gelam a alma, fazem o queixo bater.

Só que também podia vir com força de tempestade de verão, pingos duros, que doíam na pele. Às vezes até granizo. Vingança de um céu inclemente, saturado. Daí a escrita saía mais raivosa, sanguínea, quase com ira. Também era bom assim! Precisava desabafar e deixava tudo verter, inundar.

Era como se ele fosse mais de um, mudando, escrevendo de lugares diferentes, materializando em textos emoções que podiam acariciar, com palavras bonitas, imagens doces, suaves. Só que elas também podiam vir afiadas, cortantes, com toda a crueldade que sentia brotar de repente, sabe Deus de onde.

Aquele poema ele escreveu pensando em alguém de quem gostava muito. Mas tinha desaparecido no mundo sem avisar. Quando ele se deu conta tinha sumido, como os versos que evaporaram de seu bolso. Do nada. Para o nada.

Fechou os olhos, se concentrou e tentou lembrar do que havia escrito. Via apenas a imagem daquele último adeus que não sabia ser definitivo. Era apenas um até logo, acreditava. Virara a esquina, depois mais nada. Acabou.

Era como se ele fosse mais de um, mudando, escrevendo de lugares diferentes, materializando em textos emoções que podiam acariciar, com palavras bonitas, imagens doces, suaves. Só que elas também podiam vir afiadas, cortantes, com toda a crueldade que sentia brotar de repente, sabe Deus de onde.

Catou um lápis na gaveta e pôs-se a escrever uma carta nem que fosse para não mandar. Uma despedida em prosa, virando seu coração do avesso, como ventania, quase outro poema. A mão esquerda (era canhoto) chegou a doer. Daí ele dobrou as folhas e as pôs no bolso da camisa, bem perto do peito. Ficariam ali, por enquanto.

Tags: calçadacartachuvaCrônicadespedidaescritainspiraçãopedraPoesiaraivaVersos

VEJA TAMBÉM

Paulo Camargo

Por que escuto o ‘Rádio Novelo Apresenta’

1 de agosto de 2025
Calçadão de Copacabana. Imagem: Sebastião Marinho / Agência O Globo / Reprodução.
Paulo Camargo

Rastros de tempo e mar

30 de maio de 2025
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Christian Bale e Jessie Buckley: amor além da vida. Imagem: Warner Bros. / Divulgação.

‘A Noiva!’ revisita o mito de Frankenstein pela ótica feminista

18 de maio de 2026
Béatrice Dalle e Jean-Hughes Anglade dão vida ao casal Betty e Zorg. Imagem: Cargo Films / Divulgação.

‘Betty Blue’ retorna aos cinemas falando de amor em estado de incêndio

11 de maio de 2026
No documentário de Alain Berliner e Elora Thevenet, Brigitte Bardot aparece de costas, em sua fazenda. Imagem: Timpel Pictures / Divulgação.

‘Bardot’ perde a oportunidade de revelar a musa francesa – É Tudo Verdade

7 de maio de 2026
O pianista Mauro Continentino é um dos entrevistados de 'Retiro: A Casa dos Artistas'. Imagem: Reprodução.

‘Retiro: A Casa dos Artistas’ emociona ao dar protagonismo e voz aos moradores – É Tudo Verdade

6 de maio de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.