Há um sem-fim de divisões dicotômicas possíveis a respeito de qualquer coisa. Não dá pra negar que é fascinante a possibilidade clubística da humanidade, por exemplo. Dois times, cada qual com suas particularidades, grandes guarda-chuvas de características que pretendem, não sem uma divertida arrogância, dar conta de resumir a complexidade humana, diminuindo nuances e relegando desvios à exclusão hegeliana: pior para os fatos!
Gabriel García Marquez, o Nobel de literatura colombiano, disse certa vez em uma entrevista acreditar que a humanidade se divide entre os que cagam bem e os que cagam mal, para logo em seguida, em um momento de autoentretenimento, se colocar como pertencente à segunda categoria. Pois bem, a que se destina essa distinção? Vejamos a partir daí, já que o escritor nos deu poucas pistas.
Gabriel García Marquez, o Nobel de literatura colombiano, disse certa vez em uma entrevista acreditar que a humanidade se divide entre os que cagam bem e os que cagam mal, para logo em seguida, em um momento de autoentretenimento, se colocar como pertencente à segunda categoria. Pois bem, a que se destina essa distinção?
Os que cagam bem são aqueles para quem a previsibilidade fisiológica é fato consumado. Não entendem a contingência dos corpos porque, não importa o que comem, sempre cagam bem. Jamais aquelas horas perdidas em contenda com os intestinos. Com isso, vivem alheios ao tempo cósmico, são intolerantes às impontualidades eventuais, manejam mal os imprevistos, encaram as batalhas como vencidas e, por isso mesmo, são maus perdedores, os que cagam bem. São leitores de Dumas, Arthur Conan Doyle e Norman Bridwell, e assistem Velozes e Furiosos com uma falsa tensão nos sentidos. Sabem que tudo vai acabar bem. Para os bons cagadores, o mundo é o seu quintal. São destinados a serem grandes capitalistas porque não são atrapalhados pelo corpo. São os tubarões de Wall Street, os especuladores, os sociopatas exigidos pelas forças gerenciais. Tente encontrar um só CEO que não cague bem, apenas tente.
Muito diferentes são os que cagam mal. Esses são os filósofos, forçados à bios theoretikós aristotélica. Contemplam, pensam na morte da bezerra, são acostumados aos esforços vãos e às urgências selvagens. Engana-se quem pensa que são mais infelizes por cagarem mal, pelo contrário. A felicidade é o reconhecimento do momento feliz, e estes epicuristas de banheiro conhecem a felicidade porque entendem os desconfortos da vida como ninguém. São conformados, mas não conformistas. São humilhados pelo próprio corpo, constrangidos pelo tempo e pela ética dos sentidos, e por isso mesmo são cautelosos. Entendem os perigos que espreitam em momentos inofensivos e, por isso mesmo, são melhores leitores de Roald Dahl, Kafka e Camus, os que cagam mal. São pequenos burgueses, proletários, funcionários, dotados da virtude apequenadora que Zaratustra viu naquelas casinhas, porque entendem a causalidade do corpo. Procuram comer melhor, se desenvolver como ser humano.
Também morrem melhor, quando morrem de doença, os que cagam mal, porque toda vida doente termina cagando mal. Entendem a mortalidade, como Saramago, como Oliver Sacks naquela carta, como o próprio García Marquez, o primeiro mau cagador confesso. São pois, indivíduos telúricos, comungados com Gaia, combatentes da guerra dentro da gente, frustrados porque têm gana, raivosos porque têm bile, amorosos porque têm coração. Invejam os que cagam bem sem nem suspeitar de que cagar bem seria a desconstrução de toda a personalidade moldada até aqui. Nem por isso deixam de sonhar. Sonham e imaginam como é cagar bem. Sonham e dividem o mundo em grupos. Reduzem a humanidade a dicotomias, clubes, grupos e trincheiras bem demarcadas. Os que cagam mal são os que escrevem.