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Home Crônicas Yuri Al'Hanati

Um cachorro e um guarda-chuva

porYuri Al'Hanati
13 de julho de 2020
em Yuri Al'Hanati
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Um cachorro e um guarda-chuva, crônica de Yuri Al'Hanati

Imagem: Reprodução.

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Dessa vez é outro, mas está no mesmo lugar. Pedindo dinheiro para os que saem do mercado. Permanece sentado onde está, e a baixa luminosidade nos poupa dos detalhes. Sabe-se que é homem. Não é exatamente idoso, mas ninguém diria que não é velho: rugas enormes lhe sulcam a cara, a mandíbula levemente projetada para a frente. Cabelo raspado, botas sem cadarço, a mão que pende no ar como se já não esperasse mais resposta. Perdeu mais batalhas do que todos nós juntos, arriscaria dizer.

Senta com as pernas para a frente em cima de um colchão minúsculo e velho, em meio a cobertas. De um lado, um cachorro cor de caramelo se aninha junto a seu quadril. Do outro, um guarda chuva corta parte do vento frio que gela aquela noite. Um colchão, um cachorro e um guarda-chuva: eis o que é necessário para que se sinta à vontade em qualquer parte das ruas da cidade. Talvez durma dessa maneira, sem marquises, em noites quentes, e talvez procure algum lugar mais aconchegante em uma noite gelada como essa. Não pode ir para o abrigo por causa do cachorro, calculo. Parece gostar do bicho. Um montinho de ração displicentemente jogada na grama a seu lado, provavelmente dado por alguém de um dos prédios ao redor, mantém alimentado o amigo fiel. Dizem que o cachorro é capaz de amar até quem quase não o alimenta, ao passo que o gato abandona o dono ao menor sinal de privação. Não sei sobre a personalidade deste, mas sei que está frio e ali está ele.

Senta com as pernas para a frente em cima de um colchão minúsculo e velho, em meio a cobertas. De um lado, um cachorro cor de caramelo se aninha junto a seu quadril. Do outro, um guarda chuva corta parte do vento frio que gela aquela noite.

Ao seu redor, tudo se sustenta com relativa facilidade. Observa de baixo a todos passando a sua frente com sacolas de compras abarrotadas com comidas que jamais experimentará; o cachorro parece ter visto dias melhores que ele, está bem alimentado e sem doenças aparentes; o guarda-chuva é novo. É o mais destruído também de seu próprio mundo. Mantém como tenazes o conjunto preso e unido. Depende de dinheiro para manter a si e ao cachorro. Fora isso, não sei nada sobre ele. Não sei o que pensa sobre a vida, ou sobre morrer amanhã. Se tem medo do COVID-19, se apoia o presidente, se sente que a vida ficou mais difícil nos últimos tempos. Suspeito que nada disso sejam considerações pertinentes para ele.

A vida é agora e se decide numa equação constante em que as variáveis são horas e moedas obtidas. Permanecem as intempéries, a violência urbana, a peste e a repressão policial, mas aquilo é mais urgente. Coloco duas moedas de um real em sua mão, é o que tenho de dinheiro vivo na carteira. Ele balbucia algo, imagino ser um agradecimento. Eis toda nossa passagem na vida um do outro. No dia seguinte não estava lá. Restou alguns grãos de ração ao lado da grama quase alta um pouco amassada onde havia colocado seu colchão, e é tudo. Pegou seu companheiro e levou a casa nas costas para outro lugar.

Tags: cachorrocolchãoCrônicaguarda-chuvamoedasmorador de ruanoite friapedintepersonagem urbanoração

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