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Home Literatura

‘Desesterro’: a pulsão negativa de uma tragédia

porJonatan Silva
5 de fevereiro de 2016
em Literatura
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Escritora Sheyla Smanioto

Escritora Sheyla Smanioto. Imagem: Reprodução.

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Não existe amor no sertão. Tampouco na cidade grande. Essa é a impressão que deixa Desesterro (Record, 304 págs.), romance de estreia de Sheyla Smanioto e que levou o prêmio SESC de Literatura no ano passado. A história de uma família – formada por tantas marias – em um rincão do Brasil é o retrato de país azedado pelas diferenças e pelas feridas que nunca fecham.

A primeira imagem do romance já é doída: Tonho, o marido de (Maria da) Penha desconta em todos os cachorros a raiva que sente de sua própria vida. “Ele assobia, o Tonho. Chama o cão assim bem perto. O cão vacila, abaixa o rabo. O cão vacila, acaba que vai. Quer saber por que chamam. Ele acerta nas costas do bicho e fica ganindo baixinho. O cão, não o Tonho. O cão devagarzinho se vai morrendo.”

E o leitor se sente tão agredido quanto o cão. Aos poucos, Desesterro apresenta cada uma das marias – Penha que é mãe de Maria Aparecida (Cida) que é mãe de Maria de Fátima que é mãe de Scarlett Maria – e a vida vai seguindo como a “Quadrilha” de Drummond e, no final, é Tonho que não ama ninguém e se lança no mundo levando consigo a filha.

A morte é o que traz luz às vidas daqueles que sobram. E os que sobram não conseguem enxergar a devassidão em que estão imersos, como se houvesse andassem sempre dentro de um pântano.

A morte de Cida é o elemento-chave a desestabilizar a família e tirá-la do chão. O fim de uma vida é o contato mais forte com a realidade. A morte é o que traz luz às vidas daqueles que sobram. E os que sobram não conseguem enxergar a devassidão em que estão imersos, como se houvesse andassem sempre dentro de um pântano.

Êxodo rural

Smanioto constrói seu castelo de areia em duas cidades fictícias, Vilaboinha e Vila Marta, e vai contra a maré a literatura atual, centrada no cenário urbano, nos dramas simples e cotidianos – cada vez mais afastada da raiz agrária brasileira como um êxodo rural. A força do livro está no registro da angústia dos personagens, gente simples e de fala errada, que se perde nas ideias que criam de um mundo que não existe. E assim, passado e presente se confundem em uma névoa onírica e proposital.

Ainda que Desesterro seja um romance sobre a força escondida nas mulheres, o livro não carrega nenhum quê feminista. Não existe bandeira. É como se a sensibilidade de uma Clarice que escreveu “O Ovo e a galinha” encontrasse a humanização que permitiu a um Graciliano Ramos criar Vidas Secas.

Por isso não existem sobras, nada parece estar no texto por acaso. Um mundo em que todos têm pés de barro não pode ser perfeito, não pode ser obra do mesmo deus que ofereceu a tantos outros o universo privilegiado da abundância de todas as coisas. Apesar de tantas ausências, Smanioto estabelece um paralelo entre as várias noções de mundo cabíveis em um lugar tão desigual como o Brasil.

DESESTERRO | Sheyla Smanioto

Editora: Record;
Tamanho: 304 págs.;
Lançamento: Outubro, 2015.

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Tags: bookBook ReviewClarice LispectorCríticaDesesterroGraciliano RamosLiteraturaLiteratura BrasileiraPrêmio SESCRecordResenhaSheyla SmaniotoVida Secas

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