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Home Literatura

Constelação de dúvidas em ‘A Hora da Estrela’

Coluna mergulha em 'A Hora da Estrela', clássico de Clarice Lispector, obra incontornável da literatura brasileira.

porWalter Bach
19 de novembro de 2015
em Literatura
A A
Constelação de dúvidas em 'A Hora da Estrela'

Imagem: Reprodução.

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O nome do livro é A Hora da Estrela, novela de tamanho modesto na qual Clarice Lispector abandonou a pose séria e austera de suas fotos, nos sacaneou muito e entregou uma constelação portátil. Nos sacaneou sim, porque, nessa história tão enxuta que mal dura um dia em nossas mãos, ela condensou tudo o que disse e principalmente o que não disse.

Disse indiretamente pelo relato da narradora, alguém que insiste em se esconder, mas sabemos bem que ela está ali, mesmo sem interferir e querer se expor na história, olhando-a de perto e contando suas impressões. Ao mesmo tempo em que a “narradora” se esconde, adiciona um pouco de sua ótica à novela, quase como um personagem ficcional contando a ficção de maneira às vezes próxima dela.

Em A Hora da Estrela, acompanhamos Macabéa, sincera e profundamente ingênua. Talvez um pouco tímida, ela fala pouquíssimo e quando participa de conversas parece ter vergonha de si ou se sentir intimidada no trato com as pessoas. É como se Macabéa quisesse dar um passo além para o mundo e tivesse algo a impedindo, sem ela ter total consciência disso.

É como se Macabéa quisesse dar um passo além para o mundo e tivesse algo a impedindo.

Um exemplo bem simples (e talvez bobo) é o seu namoro. Macabéa admira Olímpico e o considera um grande “sabedor”, e não muda de expressão – palavra que Clarice Lispector cuidadosamente tornou desconhecida para a protagonista dessa novela – nem quando ela foge de um assunto banal:

“- Nessa rádio eles dizem essa coisa de ‘cultura’ e palavras difíceis, por exemplo: o que quer dizer ‘eletrônico’?
Silêncio.
– Eu sei mas não quero dizer.
– Eu gosto tanto de ouvir os pingos de minutos do tempo assim: tic-tac-tic-tac-tic-tac. A Rádio Relógio diz que dá a hora certa, cultura e anúncios. Que quer dizer cultura?
– Cultura é cultura – continuou ele emburrado.”.

Macabéa age dessa forma com mais gente, embora converse pouco e igualmente com poucas pessoas. Ao mesmo tempo em que sua ingenuidade incomoda e até irrita, também é fundamental para o romance, porque com suas dúvidas Macabéa também dá espaço para questões além do banal. Numa conversa, ela diz que não se acha muito gente, não se habituou com isso; depois fala que não sabe o que tem dentro do nome, nunca foi importante. Em uma breve lembrança, ela conta que preferia nunca ser chamada a ter um nome que ninguém tem “mas parece que deu certo”. É quase como se Clarice Lispector tivesse posto dúvidas próprias na boca de sua personagem e as disfarçado de propósito nos modos dela. Algumas delas persistem e mesmo em nossa época fica difícil achar um começo de resposta. Deu certo.

A HORA DA ESTRELA | Clarice Lispector

Editora: Rocco;
Tamanho: 88 págs.;
Lançamento: Novembro, 2020 (atual edição).

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Tags: A Hora da EstrelaClarice LispectorCrítica LiteráriaEditora RoccoLiteraturaLiteratura BrasileiraResenha

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