Leitores no mundo todo nutrem fascínio pelo chamado grupo de Bloomsbury, nome dado a um círculo de intelectuais que se juntou em Londres, no bairro de mesmo nome, no início do século XX. Faz-se referência aqui a pessoas como o casal de escritores e editores Virginia e Leonard Woolf, o economista John Maynard Keynes, o escritor E.M. Forster e os pintores Duncan Grant e Vanessa Bell, pensadores cujas ideias e reflexões sobre vários temas repercutem até hoje.
E talvez nenhum deles tenha atraído tantos admiradores e admiradoras quanto Virginia Woolf, cuja obra ainda não está totalmente traduzida no Brasil. A escritora inglesa – que enfrentou episódios de depressão ao longo da vida e se suicidou em 1941 – é tida como um ícone da literatura feminista, com muito ainda a ser decifrado. Não por acaso, o imaginário em torno dela é riquíssimo, e ganhou um capítulo especial quando, em 1998, a escritora estadunidense Sigrid Nunez lançou Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf (editora Instante, 2025; tradução de Carla Fortino), recentemente editado no Brasil.
Surgido a partir de um convite para um livro infantil, a pequena obra parte de documentos históricos (como os diários e cartas de Virginia Woolf, a autobiografia de Leonard Woolf, e livros sobre Bloomsbury) para imaginar uma biografia de um personagem inusitado: a pequena sagui de origem latino-americana que, em certo momento, foi adotada pelo casal Woolf. Mitz aparece em vários momentos da história dessa família e coroa a afeição que eles, sobretudo Leonard, tinham pelos animais – o mais famoso deles sendo Pinka, uma cocker spaniel cuja morte devastou Virginia.
O adorável livro de Sigrid Nunez encanta pela capacidade da escritora de partir de um episódio central (como o falecimento de alguém próximo, em O Amigo) para tecer considerações sobre a vida e seus dilemas diversos. Em Mitz, a pequena macaquinha ganha personalidade própria, mas também serve como um mote literário para documentar e imaginar a convivência entre os ilustres intelectuais. Contudo, acima de tudo, o livro fala sobre a parceria compartilhada entre este cultuado casal.
A biografia imaginada de uma sagui

Sigrid Nunez declarou em entrevista que há muito mais não ficção em seu livro do que ficção. Há vários fatos que podem ser verificados, claro, como a própria origem de Mitz na família Woolf. Já passados dos quarenta anos, o casal Virginia e Leonard, que não tinha filhos, “herda” por acaso a sagui quando visitam, em 1934, seu amigo Victor Rothschild. Ele havia comprado a desnutrida macaquinha em um brechó para presentear sua esposa Barbara, que então estava grávida.
Leonard, que era conhecido pelo seu jeito com os animais, oferece-se para cuidar dela enquanto a bichinha se recupera. A herança se torna definitiva, e Mitz acaba fazendo parte da família e participando do círculo de Bloomsbury. Tratada com esmero pelos dois, Mitz parece ser tão apaixonada por Leonard quanto Virginia, que se regozija pela dedicação integral do marido a ela ao longo dos anos em que convalescia por doenças.

Nas mãos e na mente de Sigrid Nunez, a sagui se torna um recurso imaginativo poderoso para articular os seus personagens reais. Ela serve para que Virginia reflita sobre como seria a existência de um animal. O que os seus olhos revelam? Será que ela é acometida por sentimentos comuns aos humanos? Aqui, Sigrid empresta elementos de um dos livros mais conhecidos de Virginia, Flush: Uma Biografia, no qual elabora uma biografia imaginária do cocker spaniel da poetisa vitoriana Elizabeth Barrett Browning.
O que testemunhamos então é uma rica declaração de Sigrid à história de amor dos Woolf, que ela documenta e inventa ao mesmo tempo. Temos aqui uma dupla que foi casada por 29 anos, até a morte da Virginia, que, ao encerrar a própria vida, deixou ao marido uma carta que terminava dizendo: “Não creio que tenham existido duas pessoas mais felizes do que nós”.
O que testemunhamos aqui é uma rica declaração de Sigrid Nunez à história de amor dos Woolf, que ela documenta e inventa ao mesmo tempo.
Mas a escritora estadunidense não está apenas registrando um casal, mas também o momento histórico tenso em que eles existiam. Entendemos no livro que muitos dos sofrimentos de Virginia Woolf eram intensificados pelas tensões que se acirravam na Europa com a ascensão do nazismo e a iminência de uma nova guerra. No círculo de Bloomsbury, discutia-se sobre a proximidade dos homens da violência e do belicismo. Enquanto isso, os Woolf eram visitados por novas tragédias, como a morte de Julian Bell, sobrinho de Virginia e filho de Vanessa Bell, que havia se voluntariado para lutar na guerra civil espanhola, gerando uma profunda incompreensão em sua família.
Em meio à turbulência, a pequena primata participa de cenas inusitadas. A mais marcante, e que parte da imaginação de Sigrid Nunez, se dá quando os Woolf passam pela cidade alemã de Bonn e cruzam com um desfile militar em homenagem a Hermann Göring, líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Eles são abordados por um soldado nazista, e há uma tensão pelo medo de que ele se dê conta de que Leonard é judeu. Mas os alemães adoram os macacos e Mitz conquista todos que estão naquele momento na rua, fazendo com que os escritores transitem com tranquilidade nas ruas.
Ainda que haja aqui a densidade de todo o contexto psiquiátrico que cercou a vida de Virginia Woolf, Mitz: A sagui que não teve medo de Virginia Woolf é uma visita leve ao universo que se engendrava ao seu entorno. Algo que só uma escritora da estirpe de Sigrid Nunez – com o auxílio de uma pequena macaquinha – poderia nos proporcionar.
MITZ: A SAGUI QUE NÃO TEVE MEDO DE VIRGINIA WOOLF | Sigrid Nunez
Editora: Instante;
Tradução: Carla Fortino;
Tamanho: 112 págs.;
Lançamento: Julho, 2025.
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