A literatura latino-americana tem nos mostrado, nos últimos anos, uma vocação para nos trazer uma experiência original de horror voltado não a monstros e sustos, mas ao cotidiano e aos elementos locais. Escritoras como Mariana Enríquez e Mónica Ojeda ganham destaque, mas a bola da vez é a argentina Samanta Schweblin, autora do livro de contos O Bom Mal (editora Fósforo, 2025, tradução de Livia Deorsola).
A união trazida pelos seis contos do livro proporciona uma reflexão sobre a solidão e sobre os traumas que ocorrem no passado e repercutem durante a vida toda. Sobre como um breve acontecimento que ocorre por um breve momento pode alterar a rota de um destino.
Mas o mais interessante é que, nas mãos de Schweblin (que, aos 47 anos, já venceu prêmios importantes como o National Book Award), o horror surge, quase sempre, dentro de casa, ou nos espaços que – ao menos em teoria – seriam os mais seguros. Assim, o título da obra sugere uma dicotomia inerente à vida: tudo que existe pode ser bom e mal, sem exceções.
As contradições entre a tranquilidade e o horror

De fato, nas seis histórias de O Bom Mal, as tramas provocam choque justamente por romperem a tranquilidade de uma rotina ao exibir personagens que carregam em si perturbações – seja por fatos que são esclarecidos a nós ou não. No primeiro conto, “Bem-vinda à comunidade”, há uma mulher (uma mãe) que entra num rio com os bolsos cheio de pedras, a la Virginia Woolf. Calmamente, ela reflete sobre quanto tempo levará até que ela deixe de respirar. Mas algo acontece no caminho que faz com que ela volte à sua labuta repetitiva do dia o dia.
O que fica claro em O Bom Mal é que a ordem cultivada em todas as famílias pode ruir a qualquer instante, seja por uma tragédia, como um acidente, seja por uma banalidade inesperada.
No conto seguinte, “O animal fabuloso”, há uma lembrança de uma tragédia com uma criança que se cruza com o insólito da presença de um belo animal, provocando uma sensação de estranhamento, mas também de poesia – característica de escritores com verdadeiro talento. Em “William na janela” (que Schweblin diz no posfácio ser uma história real) há toques de surrealismo em um conto que une escritores e fantasmas.
Em seguida, temos provavelmente o melhor conto do livro, chamado “Olho na garganta”, que impressiona pelo ritmo e pela história absolutamente banal – por isso assustadora. Nela, um menino de dois anos engole uma bateria em um momento de distração dos pais e da avó. Isso provoca uma série de efeitos na sua vida, incluindo uma traqueostomia que afeta a sua comunicação.
O ritmo diminui um pouco com um conto mais fraco, “A mulher de Atlántida”, que traz a lembrança de duas irmãs sobre uma poeta alcoólatra que elas conhecem na praia e resolvem proteger. No entanto, a obra se encerra com chave de ouro com o muito perturbador “O Todo-Poderoso faz uma visita”, em que uma mulher resolve ajudar uma mulher com Alzheimer que pega um ônibus e acaba parando na sua casa.
O que fica claro em O Bom Mal é que a ordem cultivada em todas as famílias pode ruir a qualquer instante, seja por uma tragédia, como um acidente, seja por uma banalidade inesperada. A segurança é uma ilusão, pois ninguém está realmente a salvo. E esta é a verdadeira experiência do horror. Ao nos confrontar com este fato indesejável e nos prender a uma narrativa irretocável, Samanta Schweblin se situa como uma das escritoras latino-americanas de maior destaque em sua geração.
O BOM MAL | Samanta Schweblin
Editora: Fósforo;
Tradução: Livia Deorsola;
Tamanho: 288 págs.;
Lançamento: Junho, 2025.
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