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‘O Tempo Envelhece Depressa’: o artesão do tempo

'O Tempo Envelhece Depressa', de Antonio Tabucchi, é uma espécie de manual de sobrevivência para que possamos ser humanos sem precisar desprezar a arte.

porJonatan Silva
3 de março de 2017
em Literatura
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antonio tabucchi o tempo envelhece depressa

Tabucchi nos deixou em 2012. Foto: Reprodução.

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A morte de um artista é sempre um choque – não porque seu corpo se vai, mas pelo significado que sua arte adquire a partir de então. Há sempre um quê de vazio e outro de orfandade. Quando Antonio Tabucchi (1943 – 2012) faleceu, ao lado de Umberto Eco um dos nomes mais importantes da literatura italiana contemporânea, foi como se uma névoa tomasse conta de seu país. O Tempo Envelhece Depressa (Cosac Naify, 2010, 160 págs), uma pequena coleção de contos, não foi seu canto do cisne, mas bem que poderia ter sido.

Como fez desde Noturno Indiano (1984), Tabucchi usou o tempo e a ausência como personagens de seus escritos. De lá para cá, se transformou em uma espécie de artesão do tempo, capaz de dobrar noções especiais e cronológicas. Nos textos que formam o volume de contos, é possível perceber um intricado jogo de espelhos, narrativas que se cruzam e se interpõem. Nenhum dos relatos é apenas um, são vários, múltiplos e, ao mesmo tempo, nada. O Tempo Envelhece Depressa é um livro sobre a negação, como em “Yo me anamoré del aire”, no qual o protagonista cai de amor – não por uma pessoa, mas – pelo ar, ou em “Nuvens”, em que um homem busca dar sentido à sua própria vida com base nas interpretações das nuvens que vê no céu. “Bucareste não mudou nada”, por exemplo, é uma ligeira alegoria sobre pertencimento e lugar.

É necessário certo grau de frieza para analisar a existência humana com tanta crueza e lirismo, e isso Tabucchi tem de sobra.

De maneira geral, suas nove histórias tratam de questões cotidianas e que, a olho nu, podem não significar nada. É preciso um potente microscópio para que se possa ver algum sentido naquelas vidas destroçadas. Todos os personagens estão se movendo em círculos, como anuncia e enuncia o conto de abertura, como fazer os insetos em torno de uma lâmpada. É necessário certo grau de frieza para analisar a existência humana com tanta crueza e lirismo, e isso Tabucchi tem de sobra.

É algo que impressiona e choca e estarrece o leitor despreparado. Bernardo Carvalho, na orelha do livro, cria uma metáfora perfeita: como se o autor fosse focando pouco a pouco a sua lente, até colocar o leitor totalmente em contato com o que quer narrar. Gonçalo M. Tavares fez isso em Short Movies e Animalescos, não se sabe se propositalmente ou por mera coincidência ou influência. São paralelos complexos de se identificar.

Todos os nove contos são exercícios de literacidade, como o narrador que se refere a Gregor Samsa como alguém que acordou “fora de contexto”. Ou seja, os personagens, assim como seus criadores, possuem uma natureza própria, ora humana, ora literária. Kafka, por exemplo, era muito mais literário que humano. K. ou Jesef K. eram muito mais humanos que literários.

Claro, essas são contradições impossíveis de serem resolvidas, e aí mora a grande beleza da Arte e o motivo pelo qual ela é tão necessária para que possamos sobreviver com um pingo de dignidade. Antonio Tabucchi, consciente disso, fez de O Tempo Envelhece Depressa um amuleto e, simultaneamente, um manual de existência.

O TEMPO ENVELHECE DEPRESSA | Antonio Tabucchi

Editora: Cosac Naify;
Tradução: Nilson Moulin;
Tamanho: 160 págs.;
Lançamento: Setembro, 2010.

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Tags: Antonio TabucchiCosac NaifyCríticaCrítica LiteráriaGonçalo M. TavaresLiteraturaLiteratura ItalianaO Tempo Envelhece Depressa

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