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Ela apenas escrevia em vez de xingar – o “apenas” do ‘Quarto de Despejo’

Escrevendo em vez de xingar e sem exigir adulações, Carolina Maria de Jesus entregou o livro 'Quarto de Despejo', que é um soco no estômago.

porWalter Bach
26 de novembro de 2015
em Literatura
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Ela apenas escrevia em vez de xingar - o “apenas” do 'Quarto de Despejo'

Imagem: Reprodução.

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A obra Quarto de Despejo é um soco no estômago. Li sobre o livro de Carolina Maria de Jesus no texto de Estela Santos, no Homo Literatus (onde colaboro), e no ensaio Escrever Favela, de Miguel Sanches Neto, e cada um descreveu o quanto esta obra é importante por razões que também citarei. Só não compartilho da educação deles: soco no estômago é a melhor descrição que encontro para esse livro.

Carolina Maria de Jesus escreveu sobre sua vida, entregue no subtítulo: diário de uma favelada. Moradora da favela no Canindé na década de 1950, ela narra seu cotidiano de forma crua: a busca pela água, os miseráveis cruzeiros que fez em um dia, quando conseguia comprar comida para si e seus filhos, as vendas de materiais que compunham sua escassa renda.

Ela teve pouquíssima instrução formal, nem o quarto ano (velho “ginásio”) pode completar. Durante Quarto de Despejo, ela afirma que moldou o caráter por livros, embora não mencione quais – a dedução mais óbvia que podemos fazer é de que a Bíblia fazia parte do seu panteão, devido aos sentimentos religiosos. Mas só. Em muitas frases, temos um vocabulário informal mesclado a palavras rebuscadas, indicando o desejo da autora de escrever com mais elegância ou precisão, ainda que com palavras fora da grafia culta e até com erros. Ela também tinha o que hoje, em nosso comodismo de avaliar esta obra mais de meio século após sua redação, podemos chamar intenção do autor, comentando que vai escrever sobre outro assunto porque repetiu a busca pela água ou ter ficado cerca de dois meses sem escrever porque não estava bem de saúde.

Ela também tinha o que hoje, em nosso comodismo de avaliar esta obra mais de meio século após sua redação, podemos chamar intenção do autor.

“Não sei como havemos de fazer. Se a gente trabalha passa fome, se não trabalha passa fome.” Em outro trecho ela pergunta o que se compra com 55 cruzeiros, e mesmo quando ganha somas maiores a renda não basta para viver materialmente menos pobre, desde a comida (ela reclama e com razão do preço dos “gêneros alimentícios”) aos calçados dos filhos.

Sabemos um pouco de seu cotidiano apenas pela sua ótica, pois Carolina sem querer centralizou a obra. Poucas menções aos pais de sua prole, se é que foram esposos, embora seu desgosto por eles seja nítido; em um diálogo, uma moradora de Canindé pergunta o que Carolina vai ganhar a descrevendo no livro. Também lemos a preocupação da autora com os filhos – quando seu filho reclama de uma namorada que não quer namorar no escuro, ela diz que ele não tem boas intenções com a moça; sua insatisfação com as visitas dos políticos – alguns visitam Canindé pedindo votos e oferecendo pão, como se morador de favela só comesse isso -, e também o duro relacionamento da autora com os demais favelados.

Aqui temos outro ponto forte. Carolina desaprova ações dos vizinhos, desde o espetáculo em que brigas de casal são transformadas a repartição forçada de uma comida generosa que ela recebe, como se devesse àqueles que a destratam. Tal contradição de ter consicência social (segundo nossa época) e não demonstrar afeto algum pelos mais próximos é reforçada por alguns preconceitos da autora, talvez inconsciente de todas as interpretações possíveis de suas escritas.

“-E o seu relacionamento com o pessoal da favela mudou depois da fama?

– Muita gente passou a achar que eu fiquei rica. Procuravam-me como se eu fosse dona de uma fortuna. Queriam propor negócios malucos. Queriam pedir empréstimos, pedir auxílios descabidos. O que me dói é que se aproximam fantasiados de honestos. Pedem, exigem quase, como se eu não fosse apenas mãe da Vera,do João e do José Carlos, mas a mãe de todos. Pedem e depois não pagam.” Assim declarou Carolina em depoimentos após Quarto de Despejo ter enfim se tornado livro, publicados sob a forma de entrevista na edição da Editora Ática.

Com uma obra tão dolorosa quanto contraditória, Carolina expôs mais do que a dura situação da favela. A falta de solidariedade, que independe da condição econômica e nenhum de nós gosta de admitir, a preocupação com a prole e o desejo de sair de onde se está são atemporais, assim como a espontaneidade do seu livro, escrito por uma moradora da favela, não por alguém de fora que retrata os “menos favorecidos” como se prestasse um favor à sociedade e os transforma em bichos exóticos. E Carolina não exigia adulação moral por sua obra. Ela apenas escrevia em vez de xingar. “Apenas”.

QUARTO DE DESPEJO | Carolina Maria de Jesus

Editora: Ática;
Tamanho: 200 págs.;
Lançamento: Dezembro, 2019.

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Tags: Carolina Maria de JesusCrítica LiteráriaLiteraturaLiteratura BrasileiraQuarto de DespejoResenha

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