• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Literatura

‘A Trama do Casamento’: o metaromance de Eugenides

Em 'A trama do Casamento', o escritor norte-americano Jeffrey Eugenides emula a estrutura dos enredos de amor do século XIX e se vale da metalinguagem.

porAnna Carolina Azevedo
20 de abril de 2015
em Literatura
A A
'A Trama do Casamento': o metaromance de Eugenides

Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Com o ritmo retomado depois das biografias, o “Desafio dos 50 livros” entra em uma etapa de leitura de autores estrangeiros em atividade, que se inicia com o livro sobre o qual eu falarei hoje e irá desembocar em Coetzee, nas linhas dolorosas de Desonra (cujas inúmeras razões para encará-lo você pode conferir aqui).

Depois de uma indicação da Maura, também integrante da Escotilha, cheguei a Jeffrey Eugenides, um autor supercontemporâneo que, até então, eu desconhecia por completo. Ainda em janeiro, ela me emprestou o livro e, no mês seguinte, mergulhei em A Trama do Casamento (Companhia das Letras, 2012, com uma tradução bem bacana de Caetano W. Galindo).

A história se passa nos anos 80 e narra as inquietações sentimentais da jovem Madeleine Hanna. A pseudo-protagonista (e logo explico o porquê do “pseudo”) se dedicou não só ao longo da graduação em Letras na Brown University, como em toda sua trajetória como leitora a romances da literatura em língua inglesa do século XIX arquitetados sobre tramas amorosas. Ao final do curso, porém, Madeleine se vê em conflito entre preferência pessoal e seus novos percursos acadêmicos. Sobretudo depois de matricular-se no curso de Semiótica 211, uma espécie de seminário avançado ou disciplina optativa em sua grade curricular.

Os estudos semióticos, bem como o feminismo, estão em evidência naquele início de década. Ao descobrir críticos como Derrida, Foucault, Deleuze e Blanchot, Madeleine percebe que a nova teoria francesa (aquela que anda dominando as conversas pelo campus da Brown) desconstrói, por meio de uma abordagem linguística de vanguarda, a noção de amor em que sempre acreditou. A leitura de Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, vai se mostrar especialmente angustiante/provocadora e suscitar uma das questões que permeiam o romance: até que ponto se adequar a um viés de mundo pouco sentimental? Em que aspecto o apreço por histórias água-com-açúcar como as de Jane Austen ainda justifica a graduação em Letras – desde sempre questionada por sua mãe, a sem-noção Phyllida Hanna?

No entanto, é na vida sentimental dessa versão moderna de mocinha vitoriana que reside o conflito principal de A trama do Casamento. Não me soa fortuita a citação a Tainted Love no início do primeiro capítulo. Os versos da dupla Soft Cell, ícone da cena Pós-Punk oitentista, parecem embalar os conflitos de Madeleine. Sometimes I feel I’ve got to / Run away I’ve got to / Get away. Assim como ocorre nos escritos a que se dedica, ela se vê dividida entre dois pretendentes. Mitchell Grammaticus e Leonard Bankhead, também estudantes da mesma universidade, têm perfis totalmente antagônicos e suas histórias roubam o foco da heroína construída por Eugenides – daí a definição de “pseudo-protagonista”.

Diante da força e da complexidade desses dois personagens [Leonard e Mitchell], a filha caçula dos Hanna não chega a empolgar.

Em post sobre A trama do Casamento lá no Livrada! (leia aqui), o Yuri, outro membro do time desta Escotilha, chega a afirmar que Bankhead e Grammaticus são dois trastes – em muitos momentos, eu partilho dessa ideia. O estudante de Biologia Leonard Bankhead encontra-se em (uma tentativa de) tratamento de seu transtorno maníaco-depressivo. É um cara cujo alto quociente intelectual é inversamente proporcional à inteligência emocional, totalmente instável. Seu opositor é Mitchell Grammaticus, filho de uma família de ascendência grega e afeito à Teologia. Vivendo uma fase esotérica, Mitchell – o melhor amigo de Madeleine, diga-se – embarca em uma viagem para Calcutá, no melhor estilo peregrino. Diante da força e da complexidade desses dois personagens, a filha caçula dos Hanna não chega a empolgar.

O metaromance de Eugenides provocou em mim algumas metaleituras. Logo no começo do livro, rolou certa familiaridade com alguns assuntos e teóricos citados, resultado das minhas duas passagens pelo curso de Letras. Em uma perspectiva mais profunda – ou literalmente psicológica -, o que me atingiu em cheio foi a identificação imediata com Leonard Bankhead – não à toa, meu personagem favorito. Isso porque o que há três décadas era definido como transtorno maníaco-depressivo, hoje se conhece por pertubação bipolar do humor. Há nove anos, fui diagnosticada com esse distúrbio. Desde então, me submeto ao tratamento medicamentoso e as visitas ao psiquiatra são periódicas. Transtorno bipolar não é modinha, tampouco um mal da contemporaneidade. Há quem defenda, inclusive, que o comportamento de Beethoven, lá na virada dos séculos XVIII e XIX, oscilava entre momentos intensos de mania/euforia e crises de depressão suicidas. A parada é crônica e atinge indivíduos com vulnerabilidade genética para a doença – não há motivo para vergonha, portanto. Com o uso dos remédios, dá pra controlar os sintomas numa boa. Só que se eu não tomar minhas pílulas mágicas de manhã, corro o risco de descarrilhar tipo O trem desgovernado. É exatamente o que acontece, por exemplo, quando Leonard inventa de fazer experiências com sua dosagem de lítio.

Por mais louco que possa parecer, foi tragicômico enxergar em mim alguns sintomas de Leonard – desde a impaciência diante de frases intermináveis (e a consequente ansiedade em querer conclui-las) até os sumiços repentinos em situações diversas. A sequência em que ele foge de uma festa e desaparece em uma estação de metrô é quase autobiográfica. E, sem sarcasmo, foi motivo de boas gargalhadas. Claro, eu bem sei da seriedade do assunto, muitas vezes motivo de sofrimento para os (nem sempre) pacientes e suas famílias. Só que, sei lá, tirar onda dessas coisas chatas é uma maneira leve de encarar o problema. Por mais que passe por vários perrengues, seja no âmbito acadêmico ou no das relações sociais, Leonard Bankhead parece não se intimidar tanto com o mal ao qual está fadado. Anna Carolina Azevedo também não.

Enfim, o terceiro livro de Jeffrey Eugenides – o norte-americano assina também As Virgens Suicidas e Middlesex – é um romance bem arquitetado. O autor se mostra competente ao emular a estrutura dos enredos de amor do século XIX para contar as histórias de Madeleine, Leonard e Mitchell. Revisita esse formato em uma abordagem contemporânea, com capítulos em que o foco de narração se alterna – destaque para as passagens que se debruçam sobre Leonard, nas quais a narrativa parece propositalmente tão instável quanto o personagem. Em suma, é um bom livro: mereceu dedicação quase exclusiva no mês de fevereiro e quatro estrelas na minha avaliação no Skoob. Vale a leitura.

A TRAMA DO CASAMENTO | Jeffrey Eugenides

Editora: Companhia das Letras;
Tradução: Caetano W. Galindo;
Tamanho: 440 págs.;
Lançamento: Maio, 2012.

Compre na Amazon

ESCOTILHA PRECISA DE AJUDA

Que tal apoiar a Escotilha? Assine nosso financiamento coletivo. Você pode contribuir a partir de R$ 15,00 mensais. Se preferir, pode enviar uma contribuição avulsa por PIX. A chave é pix@escotilha.com.br. Toda contribuição, grande ou pequena, potencializa e ajuda a manter nosso jornalismo.

CLIQUE AQUI E APOIE

Tags: A trama do casamentoCríticaCrítica LiteráriaDesafio dos 50 livrosJeffrey EugenidesLiteraturaResenha

VEJA TAMBÉM

A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.
Literatura

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Juliana Belo Diniz desafia o biologicismo e recoloca o sofrimento mental em seu contexto humano. Imagem: Juliana Veronese / Divulgação.
Literatura

‘O que os psiquiatras não te contam’ e a urgência de devolver complexidade à saúde mental

19 de dezembro de 2025
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Timothée Chalamet está indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação de Marty Mauser. Imagem: A24 / Divulgação.

‘Marty Supreme’ expõe o mito da autoconfiança americana

5 de fevereiro de 2026
'Guerreiras do K-Pop' desponta como favorito na categoria de melhor canção original no Oscar 2026. Imagem: Sony Pictures Animation / Divulgação.

O fenômeno ‘Guerreiras do K-Pop’

4 de fevereiro de 2026
Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

‘Pluribus’ faz da felicidade obrigatória uma forma de violência

3 de fevereiro de 2026
A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.