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Em ‘Um hino à vida’, Gisèle Pelicot devolve a vergonha aos culpados

Livro da francesa Gisèle Pelicot, 'Um hino à vida' narra o terrível caso de violência sexual ocorrido dentro seu casamento, e que escandalizou o mundo inteiro.

porMaura Martins
10 de março de 2026
em Literatura
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Gisèle Pelicot, autora de um dos livros de memória mais contundentes dos últimos tempos. Imagem: Christophe Simon / AFP / Reprodução.

Gisèle Pelicot, autora de um dos livros de memória mais contundentes dos últimos tempos. Imagem: Christophe Simon / AFP / Reprodução.

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Livros de sobreviventes de tragédias costumam atrair por carregarem uma questão de fundo: o que está presente em um indivíduo que se mantém em pé depois de encarar as piores monstruosidades, de ser submetido às piores dores que existem? O que essas vítimas nos mostram, e que talvez não imaginemos em nossa ingenuidade, é que o ser humano continua sendo capaz de criar novas configurações da maldade que ultrapassam os limites da imaginação.

A francesa Gisèle Pelicot é a prova disso. Sua infame história é hoje mundialmente conhecida. Durante dez anos, ela foi dopada e estuprada por dezenas de homens que eram trazidos para a sua casa por seu marido, Dominique Pelicot, com quem estava casada há quase cinquenta anos. Todo o caso foi levado a público por sua escolha, resultando em julgamentos que levaram à prisão de Dominique e de cerca de cinquenta homens.

Seu relato é organizado, com auxílio da escritora Judith Perrignon, no livro Um Hino à Vida – A Vergonha Precisa Mudar de Lado (editora Companhia das Letras, 2026; tradução de Julia da Rosa Simões), um dos grandes lançamentos do ano, mesmo que estejamos apenas em março. Estamos aqui diante de um testemunho franco e distante do formato de “história de superação” padrão, mas sim prestes a entrar nos sapatos de alguém que esteve diante do diabólico – e que, mesmo assim, recusa-se a se enquadrar como mera vítima.

Uma vítima insuspeita

Capa da edição brasileira de ‘Um hino à vida’. Imagem: Companhia das Letras / Arte: Escotilha.

A violência contra a mulher é um dos crimes mais debatidos nos últimos tempos. Ela existe desde que o mundo é mundo, claro. Mas talvez nunca tenhamos atravessado um momento histórico em que tantas luzes estejam sido jogadas sobre ela em suas intrincadas nuances, para que todas entendamos que ela não ocorre apenas na ocorrência de um tapa ou no abuso de um estupro. Ela se inicia muito antes.

Na casa dos 70 anos, Gisèle Pelicot cresceu em um ambiente sociocultural em que o sucesso das mulheres só era medido pela sua capacidade de capturar um bom homem e formar uma família. Profissão, por exemplo, não entrava nessa conta, e cabia a elas a responsabilidade de fazer um casamento prosperar. Isso envolvia, entre muitas coisas, manter seu homem satisfeito no âmbito sexual.

Um Hino à Vida – A Vergonha Precisa Mudar de Lado é um livro magnético, ainda que seu tema seja obviamente muito doloroso. Certamente haverá leitores mais sensíveis que não aguentarão seguir até os fins das páginas.

Giséle e Dominique eram ambos oriundos de famílias pobres rurais, e enfrentaram diferentes dificuldades. Ela era órfã de mãe desde os nove anos e filha de um militar de alma doce e reservada. Eternamente apaixonado pela esposa, ele acaba se casando rapidamente com uma viúva má e muquirana que maltratava Giséle e seu melancólico irmão – que, mais tarde se descobriria, sofria de uma depressão crônica.

Já o histórico de Dominique é ainda mais sombrio. Ele era oriundo de um lar violento em que o pai dominava e aterrorizava esposa e filhos. Mais adiante, durante os depoimentos do processo, descobre-se que Dominique passou por várias situações de abuso sexual em sua infância – seja como testemunha ou como vítima.

O casal cria uma família normal no subúrbio da França e eram, da sua forma, felizes, ao lados dos três filhos e dos netos. Ao longo de décadas, enfrentaram dificuldades relativamente comuns aos cônjuges: problemas financeiros, trocas de emprego, dívidas, infidelidades eventuais. Talvez o detalhe mais desequilibrado entre a dupla fosse o apetite sexual do marido: ele queria sempre mais e sugeria fantasias mais arrojadas. Frente à recusa da mulher, Dominique chamava a esposa pejorativamente de “santa”.

Até que, em 2021, Gisèle recebe um telefonema de um policial constrangido solicitando que fosse à delegacia. Lá, descobre que seu marido estava sendo indiciado por filmar por baixo de saias de mulheres em um supermercado de seu bairro.

Mas o que foi encontrado em seu celular era muito mais grave: ele possuía registros de vídeos e fotos de dezenas de homens que estupravam sua esposa enquanto ela estava desfalecida na cama do casal. Com a captura de provas, descobriu-se que Dominique dopava Gisèle com remédios para que ela ficasse inconsciente. No total, foram 51 homens condenados à prisão – e 20 homens que aparecem nas imagens nunca foram identificados.

O reenquadramento da vergonha na violência sexual

Gisèle Pelicot chega ao tribunal acompanhada de seus advogados. Imagem: Reprodução.

Obra muito esperada desde o escândalo veio à tona, Um Hino à Vida – A Vergonha Precisa Mudar de Lado é um livro magnético, ainda que seu tema seja obviamente muito doloroso. Certamente haverá leitores mais sensíveis que não aguentarão seguir até o fim das páginas. Mas, para os que forem, há muitos presentes reservados na voz dessa mulher que viu os aspectos mais sombrios do humano e voltou transformada para nos contar.

Sua jornada após estar de frente ao mais monstruoso que existe é também um trabalho de resistência: o de lutar para não desmoronar caso aceite o papel de vítima. Tudo em sua volta, incluindo seus filhos, pede para que se considere suas últimas décadas de vida como uma mentira, já que seu marido a enganava, mas Gisèle se segura nas lembranças dos momentos felizes que sempre existiram, pois isso significaria manter-se viva.

“Eu sou a inimiga da morte”, ela clama nas páginas, expressando que foi sua pulsão de vida (que teria surgido justamente no momento da morte de sua mãe) o que a manteve de pé, mesmo diante de tantas perdas. Sua autorreflexão também impressiona: em muitos momentos, Gisèle também reconhece a sua disposição em ignorar pistas que poderiam levá-la para mais perto da verdade. Muitas vezes, ela conta, foi acusada de “passar pano” para Dominique.

E talvez o mais terrível que é trazido para nós é a certeza de Gisèle que, mesmo com todas as abominações, Dominique foi um homem capaz de amá-la. Resta no livro o retrato de um homem rachado: de um lado, um doente, um psicopata, incapaz de ter empatia; do outro, o homem amoroso, arrependido, que assume no tribunal que é um estuprador, que não provoca nenhum questionamento (diferente dos demais réus, que tentam usar como argumento de defesa que a vítima estava consciente e gostando dos estupros), e que segue declarando que a esposa é o amor de sua vida. Como podem esses dois coexistirem dentro de um mesmo indivíduo?

Como todo bom livro deve ser, Um Hino à Vida nos deixa com mais perguntas que respostas. Mas se encerra com a convicção de que Gisèle Pelicot, com seu ato corajoso – optar por um julgamento aberto, expondo seu nome, seu rosto e os de todos os seus algozes – prestou um grande serviço a todas nós.  Com coragem, ela segue celebrando a vida.

UM HINO À VIDA | Gisèle Pelicot

Editora: Companhia das Letras;
Tradução: Julia da Rosa Simões;
Tamanho: 208 págs.;
Lançamento: Fevereiro, 2026.

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Tags: Companhia das LetrasGisèle PelicotLiteraturaUm hino à vida

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