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Home Literatura

‘O Dicionário Kazar’: o sobrenatural, o maravilhoso e o fantástico em Milorad Pávitch

porLuiz Henrique Budant
3 de setembro de 2018
em Literatura
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Milorad Pávitch

Milorad Pávitch. Imagem: Reprodução.

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Pouquíssimo conhecido no Brasil, Milorad Pávitch (1929-2009) foi um escritor e professor de história da literatura sérvia. No Brasil, há duas traduções de obras suas: O Dicionário Kazar (tradução de Herbert Daniel) e Paisagem Pintada com Chá (tradução de Aleksandar Jovanovic). Desejo dedicar-me a O Dicionário Kazar, cujo subtítulo é Romance-Enciclopédia em 100.000 palavras.

A premissa do livro é, em aparência, simples: o povo kazar (que viveu às margens do mar Cáspio) converteu-se a uma religião. Os historiadores não sabem dizer a qual delas, mas, provavelmente, seria o judaísmo. Na obra paviciana, os kazares podem ter-se convertido ou ao judaísmo, ou ao islamismo, ou ao cristianismo.

Assim, o livro se divide em outros três livros: o Livro Vermelho (fontes cristãs), o Livro Verde (fontes islâmicas) e o Livro Amarelo (fontes hebraicas). Simples? Compliquemos algo mais: o livro tem duas versões – a masculina e a feminina, com a diferença de apenas um parágrafo (um parágrafo importantíssimo, contudo).

Podemos complicar um pouco mais: o livro é um dicionário, ou seja, há “entradas”: algumas nos três “sublivros”, algumas apenas em um deles. Deste modo, o leitor do romance-enciclopédia paviciano pode iniciar a leitura a partir de qualquer trecho. Última complicação formal: algumas palavras são acompanhadas de símbolos que remetem ao leitor a livros específicos: uma cruz remeterá o leitor àquela entrada, mas no livro das fontes cristãs; uma estrela de David remeterá o leitor às fontes hebraicas; um quarto crescente remeterá o leitor às fontes islâmicas. Para encerrar, um triângulo informa ao leitor que aquela “entrada” pode ser encontrada em qualquer uma das fontes.

Em suas obras, Milorad Pávitch é pródigo de jogos de leitura, o que nos permite colocá-lo ao lado de nomes da estatura de um Jorge Luís Borges ou de um Julio Cortázar.

O Dicionário Kazar inicia-se com um alerta: “Aqui jaz o leitor / que jamais abrirá este livro. / Aqui, ele está morto para sempre”. Eis aí a primeira brincadeira do livro. Propõe-nos Pávitch que temos em mãos uma mera reconstrução do verdadeiro dicionário, que tinha páginas envenenadas (e a história da primeira edição é um dos fios narrativos mais interessantes do livro, se quiserem minha opinião). Contudo, o leitor que jamais abriu o livro está, sim, morto; agora se trata de um novo leitor, um leitor que abriu o livro.

Mas tanto falei da forma e, até agora, pouco do enredo.

Um leitor de O Dicionário Kazar será levado a se questionar sobre a própria tessitura da realidade: o que é a realidade senão o que falamos dela?

Teremos a fantástica histórica dos kazares que caçavam sonhos (inclusive sonhos dentro dos sonhos e, dentro dos sonhos dentro dos sonhos, ainda sonhos dentro dos sonhos), buscando pistas que permitissem a reconstrução do homem original. Também muitíssimo interessante é a história da princesa Ateh, palavra que na antiga língua kazar significaria “os quatro estados do espírito” e que possuía “sete rostos, como havia sete espécies de sal”.

Há assassinatos, vários tipos de morbidez, mortos que se levantam de seu descanso (porque chamados) e devoram seus invocadores, histórias de vampiros, personagens da história da Sérvia ficcionalizados, poesia hebraica antiga, poemas árabes, pregações de Cirilo e Metódio…

Um livro difícil e sobremaneira interessante. Um leitor de O Dicionário Kazar será levado a se questionar sobre a própria tessitura da realidade: o que é a realidade senão o que falamos dela?

O trabalho de Pávitch em O Dicionário Kazar, expondo a tessitura da realidade, expõe também diversos mecanismos da literatura, especialmente os pactos: há um pacto do lexicógrafo com o leitor (“ele [o lexicógrafo] escreverá suas observações antes do jantar, e o leitor as lerá depois das refeições. Assim, a fome impulsionará o escritor a ser breve […]”). Também ocorrem (ou não) pactos com o demônio, pactos de sangue, pactos de vida e morte, pactos de amor.

O sobrenatural, o maravilhoso e o fantástico permeiam o exuberante uso da linguagem que Pávitch faz. Num livro “pós-moderno”, tão disposto a questionar grandes temas da teoria da literatura, este é um feito raro. O tal dicionário dos kazares pode, enfim, ser lido como dicionário, como romance, mas, também, como um pitoresco livro-modelo de um curso de teoria da literatura.

O DICIONÁRIO KAZAR | Milorad Pávitch

Editora: Marco Zero;
Tradução: Herbert Daniel;
Tamanho: 304 págs.;
Lançamento: Janeiro, 1961.

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Tags: Book ReviewCrítica LiteráriaEditora Marco ZeroLiteraturaMilorad PávitchO Dicionário KazarResenhaResenha de LivrosReview

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