• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Literatura

‘Cartas de um sedutor’, de Hilda Hilst, usa o obsceno para falar de literatura

'Cartas de um sedutor' integra tetralogia da poeta Hilda Hilst, que é uma simulação da linguagem pornográfica.

porMarilia Kubota
24 de julho de 2018
em Literatura
A A
'Cartas de um sedutor’, de Hilda Hilst, usa o obsceno para falar de literatura

Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Cartas de um sedutor (Biblioteca Azul, 2012), de Hilda Hilst, compõe – com Contos de Escárnio, O Caderno Rosa de Lori Lambi e Bufólicas – a tetralogia denominada pornográfica pela autora. Publicados originalmente em 1992, num momento de desilusão sobre a vida literária, Hilda queria com estes quatro obras livrar-se da pecha de “autora difícil”, ou seja, com uma linguagem complexa que a tornava indeglutível para as massas.

O autor das cartas é Karl, que escreve à sua irmã Cordélia. Através das cartas, o leitor fica sabendo da vida incestuosa da família: as relações da irmã com o pai e dela com o irmão. Um outro narrador, Stamatius, é um poeta que encontra no lixo os manuscritos de Karl. Não se sabe se Karl é criação do poeta, ou são a mesma pessoa.

Em meio à narrativa que descreve relações familiares violentas, Hilda entremeia personagens hilários, como os criados alemães Frau Lotte e Franz. Seus comentários diretos a respeito das aventuras sexuais do patrão são satíricos:

“Lotte: ô coitadinho do senhorrr Karl e da menina Cordélia…senhorr Karl terr muit pouco tempo die mutter, …pobreezinhos, e menina Cordélia muito sem cabeça…e sem mutter tudo ficarr muito trriste. O senhor teve mutter, senhorr Franz ?
Franz: graças a Deus non ter mutter, no senhora, e também non querrer falar de mãe com a senhorra, querrer falar das bolotas grandes das suas peitas redondas.” (página 23).

Ao misturar estilo alta e o estilo baixo, Hilda remete a Bocage e Rabelais, que criticam os costumes da burguesia europeia e distancia-se de seu projeto de poesia, ao qual caberia denominar erótico. Uma poesia em que o erótico entra em diálogo com o misticismo, com a poesia de Sor Juana Inês, San Juan de la Cruz ou Santa Teresa. Mas à tetralogia também não cabe a pecha de pornografia, como alardeava a autora na época de sua primeira publicação.

Notável é, em Cartas de um sedutor, como observa o crítico, a quantidade de palavras da linguagem popular para denominar o órgão sexual feminino: cona, biriba, rosa, xiruba, xerca, tabaca, mata, perseguida, xereca, pomba, etc. E também os nomes populares do órgão sexual masculino: bagre, mastruço, bastão, quiabo, rombudo, gaita, taco, ponteiro, etc.

O projeto de popularizar sua obra fracassou porque, em vez de optar pelo realismo banal da pornografia, ela fala sobre literatura.

Além de escancarar a literatura moralista – e aí, até o realismo pornográfico pode ser moralista, se funciona como válvula de escape para a repressão do sexo como reprodução para as mulheres de família – Hilda escracha os autores de best seller.

Ela reúne escatologias e taras conhecidas de vacas sagradas, usando o obsceno para denegrir o sistema literário, quase como expediente de fofoca:  

“A lista dos tarados é enorme. Rimbaud, o tal gênio: catava os dele piolhos e atirava nos cidadãos . Urinava nos copos das gentes nos bares. Praticamente enlouqueceu Verlaine. […]Outro doido. Deu um tiro em Rimbaud. Se não me engano, incendiou a própria casa. Depois, Proust: consta que enfiava agulhas nos olhinhos dos ratos. E espancava os coitadinhos. Genet: comia os chatos que encontrava nas virilhas do amante. Foucault: saía às noites todo de couro negro, sadô, portanto, ou masô, dando e comendo roxinhos. O próprio Mishima, louco por soldados e por sangue.” (páginas 56 e 57)

O projeto de popularizar sua obra fracassou porque, em vez de optar pelo realismo banal da pornografia, ela fala sobre literatura. Hilda nasceu em 1930 e publicou seu primeiro livro, Presságio, em 1950. Foi publicando seus poemas, que dialogavam com os ritmos diversos da tradição poética ocidental: cantares bíblicos, a cantiga galaico-portuguesa, a canção petrarquista, a poesia mística espanhola, etc.

Este diálogo não é pura reprodução das criações originais, mas funde-se às revoluções de linguagem de Rilke, Joyce, Beckett e Pessoa. Até toda sua obra ser publicada pela Globo, em 2001, fazia edições artesanais, o que rendia pouco alcance, apesar de ter recebido vários prêmios, como o APCA em 1977 e 1981 e com o Jabuti, em 1984. Recebeu o APCA e o Moinho Santista em 2002, pelo conjunto da obra. Faleceu em 2004. Este ano, a FLIP homenageia a autora. 

CARTAS DE UM SEDUTOR | Hilda Hilst

Editora: Biblioteca Azul;
Tamanho: 200 págs.;
Lançamento: Janeiro, 2012.

COMPRE O LIVRO E AJUDE A ESCOTILHA

Tags: Alcir PécoraBook ReviewCartas de um sedutorCríticaCrítica LiteráriaEditora GloboHilda HilstLiteraturaLiteratura BrasileiraPoesiapornografiaResenhaResenha de Livros

VEJA TAMBÉM

Novas obras da autora neozelandesa começam a ganhar corpo no Brasil. Imagem: Alexander Turnbull Library / Divulgação / Montagem: Escotilha.
Entrevistas

Katherine Mansfield no Brasil; agora, por inteiro

9 de abril de 2026
Autora conversou com exclusividade com nossa reportagem. Imagem: Sebastián Freire / Divulgação.
Entrevistas

Mariana Enriquez: “Minha primeira impressão do mundo foi sob um regime autoritário muito feroz”

25 de março de 2026
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Registro de 'Piracema', do Grupo Corpo. Imagem: Humberto Araújo / Divulgação.

Crítica: ‘Piracema’ e o Corpo que insiste no movimento – Festival de Curitiba

14 de abril de 2026
Malu Galli em 'Mulher em Fuga'. Imagem: Annelize Tozetto / Divulgação.

Crítica: ‘Mulher em Fuga’ é encontro de Malu Galli e Édouard Louis em cena – Festival de Curitiba

13 de abril de 2026
Sarah Snook e Jake Lacy são a família Irvine em 'All Her Fault'. Imagem: Universal Studios / Divulgação.

‘All Her Fault’ acerta quando mira o privilégio

10 de abril de 2026
Gabriel Leone estrela a adaptação de 'Barba Ensopada de Sangue'. Imagem: Globoplay / Divulgação.

‘Barba Ensopada de Sangue’ é forte na atmosfera e frágil na dramaturgia

9 de abril de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.