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‘Cartas de um sedutor’, de Hilda Hilst, usa o obsceno para falar de literatura

'Cartas de um sedutor' integra tetralogia da poeta Hilda Hilst, que é uma simulação da linguagem pornográfica.

porMarilia Kubota
24 de julho de 2018
em Literatura
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'Cartas de um sedutor’, de Hilda Hilst, usa o obsceno para falar de literatura

Imagem: Reprodução.

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Cartas de um sedutor (Biblioteca Azul, 2012), de Hilda Hilst, compõe – com Contos de Escárnio, O Caderno Rosa de Lori Lambi e Bufólicas – a tetralogia denominada pornográfica pela autora. Publicados originalmente em 1992, num momento de desilusão sobre a vida literária, Hilda queria com estes quatro obras livrar-se da pecha de “autora difícil”, ou seja, com uma linguagem complexa que a tornava indeglutível para as massas.

O autor das cartas é Karl, que escreve à sua irmã Cordélia. Através das cartas, o leitor fica sabendo da vida incestuosa da família: as relações da irmã com o pai e dela com o irmão. Um outro narrador, Stamatius, é um poeta que encontra no lixo os manuscritos de Karl. Não se sabe se Karl é criação do poeta, ou são a mesma pessoa.

Em meio à narrativa que descreve relações familiares violentas, Hilda entremeia personagens hilários, como os criados alemães Frau Lotte e Franz. Seus comentários diretos a respeito das aventuras sexuais do patrão são satíricos:

“Lotte: ô coitadinho do senhorrr Karl e da menina Cordélia…senhorr Karl terr muit pouco tempo die mutter, …pobreezinhos, e menina Cordélia muito sem cabeça…e sem mutter tudo ficarr muito trriste. O senhor teve mutter, senhorr Franz ?
Franz: graças a Deus non ter mutter, no senhora, e também non querrer falar de mãe com a senhorra, querrer falar das bolotas grandes das suas peitas redondas.” (página 23).

Ao misturar estilo alta e o estilo baixo, Hilda remete a Bocage e Rabelais, que criticam os costumes da burguesia europeia e distancia-se de seu projeto de poesia, ao qual caberia denominar erótico. Uma poesia em que o erótico entra em diálogo com o misticismo, com a poesia de Sor Juana Inês, San Juan de la Cruz ou Santa Teresa. Mas à tetralogia também não cabe a pecha de pornografia, como alardeava a autora na época de sua primeira publicação.

Notável é, em Cartas de um sedutor, como observa o crítico, a quantidade de palavras da linguagem popular para denominar o órgão sexual feminino: cona, biriba, rosa, xiruba, xerca, tabaca, mata, perseguida, xereca, pomba, etc. E também os nomes populares do órgão sexual masculino: bagre, mastruço, bastão, quiabo, rombudo, gaita, taco, ponteiro, etc.

O projeto de popularizar sua obra fracassou porque, em vez de optar pelo realismo banal da pornografia, ela fala sobre literatura.

Além de escancarar a literatura moralista – e aí, até o realismo pornográfico pode ser moralista, se funciona como válvula de escape para a repressão do sexo como reprodução para as mulheres de família – Hilda escracha os autores de best seller.

Ela reúne escatologias e taras conhecidas de vacas sagradas, usando o obsceno para denegrir o sistema literário, quase como expediente de fofoca:  

“A lista dos tarados é enorme. Rimbaud, o tal gênio: catava os dele piolhos e atirava nos cidadãos . Urinava nos copos das gentes nos bares. Praticamente enlouqueceu Verlaine. […]Outro doido. Deu um tiro em Rimbaud. Se não me engano, incendiou a própria casa. Depois, Proust: consta que enfiava agulhas nos olhinhos dos ratos. E espancava os coitadinhos. Genet: comia os chatos que encontrava nas virilhas do amante. Foucault: saía às noites todo de couro negro, sadô, portanto, ou masô, dando e comendo roxinhos. O próprio Mishima, louco por soldados e por sangue.” (páginas 56 e 57)

O projeto de popularizar sua obra fracassou porque, em vez de optar pelo realismo banal da pornografia, ela fala sobre literatura. Hilda nasceu em 1930 e publicou seu primeiro livro, Presságio, em 1950. Foi publicando seus poemas, que dialogavam com os ritmos diversos da tradição poética ocidental: cantares bíblicos, a cantiga galaico-portuguesa, a canção petrarquista, a poesia mística espanhola, etc.

Este diálogo não é pura reprodução das criações originais, mas funde-se às revoluções de linguagem de Rilke, Joyce, Beckett e Pessoa. Até toda sua obra ser publicada pela Globo, em 2001, fazia edições artesanais, o que rendia pouco alcance, apesar de ter recebido vários prêmios, como o APCA em 1977 e 1981 e com o Jabuti, em 1984. Recebeu o APCA e o Moinho Santista em 2002, pelo conjunto da obra. Faleceu em 2004. Este ano, a FLIP homenageia a autora. 

CARTAS DE UM SEDUTOR | Hilda Hilst

Editora: Biblioteca Azul;
Tamanho: 200 págs.;
Lançamento: Janeiro, 2012.

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Tags: Alcir PécoraBook ReviewCartas de um sedutorCríticaCrítica LiteráriaEditora GloboHilda HilstLiteraturaLiteratura BrasileiraPoesiapornografiaResenhaResenha de Livros

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