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‘Tudo pode ser roubado’: os vazios que habitam uma cidade abarrotada

porArthur Marchetto
14 de março de 2019
em Literatura
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Giovana Madalosso é formada em jornalismo, foi redatora publicitária e atualmente escreve roteiros para televisão Imagem: Bem Paraná.

Giovana Madalosso é formada em jornalismo, foi redatora publicitária e atualmente escreve roteiros para televisão Imagem: Bem Paraná.

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Tudo pode ser roubado é o romance de estreia de Giovana Madalosso, publicado pela editora Todavia em 2018. Antes disso, a escritora é também roteirista de televisão e publicou uma coletânea de contos em 2016 pela editora Grua, chamada A Teta Racional – finalista do Prêmio Literário Biblioteca Nacional.

Em Tudo pode ser roubado, acompanhamos a história de uma garçonete que trabalha em São Paulo. Tal trabalho, no entanto, é classificado pela personagem principal como um talento secundário. Sua habilidade principal seria a sua capacidade de seduzir, transar e furtar itens de valor (principalmente roupas e acessórios de marca) de homens e mulheres que encontra pela cidade. Os itens que “adquire” em suas noitadas costumam ser vendidos no brechó Bardot, especializado em vestimentas caras e gerenciado por sua colega Tina, apelido de Sebastiana, uma mulher trans.

No entanto, sua vida muda quando, durante seu expediente, é abordada por um malandro chamado Biel. Sem entender como um tipo como aquele sabia das suas atividades, a garçonete recebe uma proposta: furtar o primeiro exemplar de O Guarany, publicado por José de Alencar em 1857, de um professor solitário por R$ 50 mil reais.

A partir daí a trama passa a intercalar as cenas na vida da garçonete. Alguns furtos episódicos, sem relação direta com a trama principal, alternam com os capítulos que mostram como a garçonete passa a planejar o roubo do livro para J., um colecionador excêntrico e rico, que se gaba de ter trocado um cocar com um indígena por uma caixa de aspirinas.

O que surge da trama traçada pelos furtos cometidos e os subsequentes relacionamentos é a construção de uma protagonista menos interessante que o retrato da cidade e dos personagens ao redor.

O enredo, por si, relembra tramas clássicas de espionagem eternizadas no cinema. O grande roubo que permite a realização de um sonho (no caso da garçonete, a entrada em um imóvel próprio), o pícaro malandro que faz a conexão entre o ladrão responsável pela ação e o chefe mandante, o planejamento do crime, o envolvimento amoroso com a vítima, o desfecho e as consequentes perdas.

No entanto, o que surge da trama traçada pelos furtos cometidos e os subsequentes relacionamentos é a construção de uma protagonista menos interessante que o retrato da cidade e dos personagens ao redor – ainda que, às vezes, pese a mão na caricatura urbana, como mostrado na resenha de Alejandro Mercado aqui na Escotilha. Partindo de uma construção simples, a garçonete é marcada por um vício em café, por sua extrema apatia (fator que destaca como uma vantagem em um dos diálogos) e por ter uma bunda bonita – o que rende a ela o apelido de Rabudinha. Daí surge que a construção fosca da garçonete fosse até intencional.

O que é bastante interessante é a perspectiva da cidade que a história toma. Segundo a Rabudinha, a história se passa na “melhor São Paulo. A São Paulo depois do expediente, quando as pessoas afrouxavam a gravata e deixavam entrever, como flores sinistras rebentando pelo corpo, as marcas de viver numa cidade tão obcecada com a produtividade. Porque, no final, a verdade sobre uma cidade é esta: o que sobra de cada um depois que as luzes dos escritórios se apagam”.

Os perfis que surgem dessa cidade são tristes e solitários, mas interessantes. Uma das vítimas é a arquiteta Camila Freire, que descobre um câncer de mama depois de passar uma vida inteira dedicada ao trabalho. “Deu certo, gozei menos do que deveria, mas fiz obras relevantes. Daqui a cinquenta anos, meu nome vai continuar por aí, as pessoas vão falar: olha o prédio da Camila Freire. Mas a que custo. Quanta abdicação. Quanta pobreza afetiva”.

Sebastiana tem acesso aos bens mais ricos, que a garçonete custa em roubar, mas não tem com quem dividir seus sentimentos e é afetada pela transfobia em suas mais diversas formas. O professor é repleto de críticas sobre a desigualdade social, como a desvalorização de qualquer jornalismo que não tente mudar o sistema, mas é professor em uma das universidades mais caras de São Paulo com um salário excelente – e, ainda assim, possui uma vida cinza e solitária. O Biel, pilantra e vagabundo, revela as impossibilidades de uma vida regrada e um gosto por uma arte erudita e inalcançável.

É no jogo de preencher esses vazios que entra os questionamentos sobre os feitos, os bens materiais, os roubos. É sobre isso que remete o título do livro: tudo pode ser roubado – objetos, móveis, espaços, territórios, ideias, sentimentos. Basta saber quais desejos guiam você, como visto no diálogo entre a garçonete e Biel sobre J.:

“Cara estranho, falei, ainda lembrando do que tinha visto.
O que você esperava, um torcedor barrigudo do Palmeiras?
Alguém que quisesse O Guarani mais que tudo na vida.
Ele só não falou, mas quer. Até conseguir e querer outra coisa.
Isso não é estranho?”

Estranho nada. Todo mundo é assim, fabricando algum desejo, arrumando alguma necessidade nova para dar sentido para vida. A única diferença é que ele é rico. Ele compra arte.

O que resta para nós, dentro de todo esse vazio, onde tudo pode ser roubado, é a possibilidade de um choro convulsivo, solitário. Mas também sonhar.

TUDO PODE SER ROUBADO | Giovana Madalosso

Editora: Todavia;
Tamanho: 192 págs.;
Lançamento: Fevereiro, 2018.

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Tags: Giovana MadalossoLiteraturaLiteratura BrasileiraResenhaTodaviaTudo Pode Ser Roubado

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