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Home Literatura

A matemática dos afetos de Afonso Cruz

Em 'Vamos comprar um poeta', escritor português Afonso Cruz cria sátira de uma sociedade distópica em que artistas são transformados em “animais de estimação” das classes burguesas.

porJonatan Silva
12 de junho de 2020
em Literatura
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Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz

Detalhe da capa de 'Vamos comprar um poeta'. Imagem: Reprodução.

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A humanidade não aguenta muita realidade, dizia T. S. Eliot. E não fosse a arte, concluiu Nietzsche, seria impossível suportar essa mesma parca realidade. Diante de um mundo em bancarrota generalizada – como uma falência múltipla dos órgãos – que lugar ocupa a cultura? Em Vamos comprar um poeta, o escritor, artista visual e cineasta português Afonso Cruz cria uma distopia satírica para investigar a relação das pessoas comuns com a arte.

Os afetos, os sabores, as relações. Tudo é contabilizado, precificado. “Crescimento e prosperidade”, dizem as pessoas “lucrativas” do universo erguido por Cruz. Sob as nuances dos conflitos velados, o autor escarafuncha o invisível. E é na figura da narradora, uma menina de 13 anos, que Vamos comprar um poeta sintetiza a esperança que ainda nos separa da barbárie.

Quando todos vivem à sombra dos números e da razão, e em um momento em que tudo – do corrimão da escada à pantufa – é patrocinado por uma grande corporação, o interesse abstrato parece um ato subversivo ao extremo e os artistas se tornam animais de estimação, comprados em lojas especializadas. Nesse jogo de absurdos, entre a decadência moral de Beckett e a decomposição individual de Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz coloca luz sobre a ideia de valor e sobre as possibilidades de valorar aquilo que não é concreto, porém, preenche os sujeitos em seu cotidiano.

O livro parece dialogar com esse mundo pandêmico em que estamos enfiados, entretanto, a pior doença não é um vírus que se espalha pelo ar, mas a ignorância que se alastra igualmente na surdina e que também mata.

Nessa matemática dos afetos, Vamos comprar um poeta é um tiro à queima-roupa. É uma exploração corajosa daquilo que ainda nos faz humanos, mas que está a escorrer entre os dedos. Esse é o tal processo de desumanização do outro, que transforma o diferente em uma mercadoria, uma troca escabrosa em um mercado bizarro.

Em alguma medida, o livro parece dialogar com esse mundo pandêmico em que estamos enfiados, entretanto, a pior doença não é um vírus que se espalha pelo ar – e que mata sufocados aqueles que estão à sua mercê –, mas sim a ignorância que se alastra igualmente na surdina e que também mata, mesmo que simbolicamente, todos os homens e todas as mulheres que se negam a olhar o outro.

Antítese

Vamos comprar um poeta é a antítese do Pessoa. Se para o homem de mil nomes, o fazedor de versos é um fingidor, na obra de Afonso Cruz é o único capaz portar um pingo de verdade. É na figura do poeta – que como os demais personagens não passa de uma sequência de números e letras – que a família pratica a revolução.

Como em Teorema, livro e filme de Pasolini, a chegada de um artista coloca a família burguesa em choque. É impossível manter a normalidade, seguir adiante como se nada tivesse acontecido. “A nossa vida mudou muito e eu também”, afirma a menina. E mudar e transpor a constância, a mesmice da vida vulgar que esperam que levamos.

VAMOS COMPRAR UM POETA | Afonso Cruz

Editora: Dublinense;
Tamanho: 96 págs.;
Lançamento: Março, 2020.

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Tags: Afonso CruzBook ReviewCríticaCrítica LiteráriaDublinensefernando pessoaGonçalo M. TavaresLiteraturaLiteratura PortuguesaNietzschePier Paolo PassoliniResenhaSamuel BeckettVamos comprar um poeta

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