Filho de imigrantes ganeses nascido no norte de Londres, Benjamin Clementine mudou para Paris aos 19 anos, momento conturbado de sua vida em que precisou tocar piano em estações de metrô e bares para arranjar uns trocados. Autodidata, o músico trará à próxima edição do C6 Fest o talento moldado especialmente na fase parisiense, marcado pelo estilo dramático, teatral e ancorado na palavra. Não à toa, a realidade social que viveu neste período ecoou mais tarde em suas composições.
Sua trajetória sonora trafega no limiar entre o pop, a música erudita, a poesia e a performance teatral, o que torna difícil categorizá-lo. Clmentine emergiu no cenário internacional com uma proposta artística fora do comum, capaz de desconstruir as expectativas do ouvinte sem perder intensidade emocional ou sentido narrativo. Criado em um ambiente familiar marcado pela forte educação cristã, na qual consumir cultura pop não era uma opção, ao contrário de literatura e música erudita, construiu sua estética a partir desse contexto, entrelaçando de maneira inusitada declamação, poesia e melodias clássicas.
Em 2015, Benjamin Clementine estreou com o lançamento de At Least for Now pela Behind Records. Rapidamente, atingiu reconhecimento internacional e de crítica. Marcado por canções pessoais, o registro continha baladas ao piano, poemas declamados e arranjos que fundiam a tradição erudita a estruturas pop pouco usuais aos ouvidos comuns. Pelo projeto, conquistou o Mercury Prize, um dos prêmios mais relevantes da música britânica. Ao recebê-lo, dedicou-o às vítimas dos ataques terroristas em Paris.
O artista como estrangeiro
Um dos elementos mais curiosos na música de Clementine é como se coloca como uma espécie de outsider, um personagem que olha para o mundo de fora e, neste processo de observação, reenquadra o sentido das coisas. No seu álbum seguinte, I Tell a Fly (2017), ele decide expandir esse olhar. As faixas do disco versam sobre a crise dos refugiados, o conflito na Síria e questões de pertencimento e identidade.
Em entrevista ao jornalista David Renshaw, Benjamin contou que a inspiração para criar I Tell a Fly veio de uma frase que encontrou em seu visto estadunidense: “Um estrangeiro com habilidades extraordinárias”. Segundo o músico, ele ficou “perplexo por uns dez minutos quando vi aquele visto pela primeira vez. Mas então pensei: eu sou um estrangeiro.” Ele explicou que foi o gatilho para pensar na história de um casal de pássaros apaixonados em que um tem medo de voar para longe, enquanto o outro é mais corajoso e deseja ver o que acontece no mundo.
Musicalmente, o álbum equilibrava o rigor experimental e a expressão poética, desbravando as fronteiras do que se entende por canção. O artista trouxe harpa, clavicêmbalo e elementos eletrônicos para coexistirem com suas narrativas que fogem às formas tradicionais. Um trabalho que desafiava o ouvinte.
Entre a emergência e a maturidade
O trabalho mais recente de Benjamin Clementine é And I Have Been, de 2022. Nele, o britânico compôs, produziu e mixou todas as faixas, em uma busca de manter as diretrizes artísticas sob controle – e o mais independente possível. O resultado foi menos radical sonoramente que seu antecessor, o que pode ter interferido na recepção crítica mais favorável.
Sua trajetória sonora trafega no limiar entre o pop, a música erudita, a poesia e a performance teatral, o que torna difícil categorizá-lo.
O músico procurou criar um encontro entre sua experiência pessoal com questões universais de identidade e raiz cultural. Em uma entrevista à revista NME, Clementine indicou que o disco era uma preparação de terreno para algo maior que estaria por vir. Especula-se que tenha sido o início de uma trilogia que marcará o fim de sua carreira musical, já que planeja dedicar-se a outras atividades artísticas, como a atuação.
Ele está no próximo filme do diretor estadunidense Julian Schnabel (de No Portal da Eternidade). Antes de vê-lo no C6 Fest, o público pode conferir sua performance no filme Blitz (2024), de Steve McQueen, disponível na AppleTV+.
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O C6 Fest de 2026 acontece entre os dias 21 e 24 de março, no Parque Ibirapuera. Edição deste ano conta com Robert Plant, The xx, Matt Berninger e nova geração indie e jazz nos palcos. Escotilha estará na cobertura e, nos próximos dias, apresentará os artistas, dando um panorama do que o público brasileiro deve esperar dos shows.
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