Caetano Veloso é um homem de mil faces. Tradicionalmente dado a experimentalismos, o baiano teve inúmeras fases, completamente distintas entre elas, e enveredou por caminhos que poucos tiveram a coragem de desbravar. Nem sempre acertou, é claro – quem é que consegue lançar mais de 30 álbuns de estúdio e mais uns 15 ao vivo e sair completamente incólume? –, mas tem ao seu lado um talento gigantesco, uma carreira indiscutível e inúmeros clássicos definitivos da música brasileira. Mas aqui vamos trazer os holofotes para um álbum muito pouco lembrado, para não dizer quase esquecido: Estrangeiro, de 1989.
Pouca gente pensa em Estrangeiro logo de cara quando o assunto é a discografia de Caetano Veloso. Quem gosta do Caetano clássico, pensa logo naquele disco da capa psicodélica, o autoentitulado, de 1968. “Alegria, Alegria”, “Superbacana”, “Tropicália”… Foi o álbum que pavimentou o caminho a seguir e que começou a cristalizá-lo como uma das grandes vozes de uma geração. Os fãs do experimentalismo lembram logo de Transa (1972), obra prima do exílio em Londres – e provavelmente o melhor Caetano até ali –, ou se recordam de Araçá Azul (1973), esquisito até dizer chega. Os românticos vão de Outras Palavras, de 1981, ou de Cores, Nomes, do ano seguinte, e se emocionam com “Rapte-me Camaleoa”. Os moderninhos, por sua vez, apostam na “trilogia” Cê, período de redescoberta de Caetano, que inclui os últimos (e ótimos) três discos de estúdio do compositor. E quem é que pensa em Estrangeiro?

Estrangeiro foi gravado em Nova York, com produção de Peter Scherer e Arto Lindsay – americano chegado ao Brasil e à nossa música –, e oferece exatamente o que o título sugere: um Caetano fora de casa, determinado e experimentando linguagens e modernidades eletrônicas que ainda não eram tendências estabelecidas em seu país de origem. Lançado no final de uma década tão confusa quanto idiossincrática, o disco não poderia ter sido escrito em outro momento.
E o que vem a seguir é um álbum interessantíssimo, denso, que alterna estrangeirismos dos mais atuais para a época e a brasilidade de sempre.
É curioso pensar que esse registro seja tão pouco valorizado até hoje. Afinal, logo na irretocável faixa de abertura (“O Estrangeiro”), são necessários apenas dez segundos – com a execução de um piano e a forma como Caetano entra contando que “O pintor Paul Gauguin amou a luz na baía de Guanabara” e que “O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela” – para percebermos que estamos diante de uma obra gigante. A canção, ao longo de seus mais de seis minutos, cresce em uma produção caprichada, com ritmo marcante e guitarras presentes e cheias de feedback, preparando o ouvinte para o que virá a seguir.
E o que vem a seguir é um álbum interessantíssimo, denso, que alterna estrangeirismos dos mais atuais para a época e a brasilidade de sempre. Estrangeiro, aliás, é costumeiramente definido como um disco pouco coeso esteticamente, por alternar momentos muito distintos. Encontra-se Brasil demais, especialmente em faixas como “Branquinha”, uma bossa nova meio baiana, ou no quase-afoxé de “Meia-Lua Inteira” (composta por Carlinhos Brown, percussionista de Caetano à época), que foi o grande sucesso comercial do disco. Na outra ponta sonora, canções poderosas como “O Estrangeiro”, “Jasper” e “Os Outros Românticos”, trazem arranjos eletrônicos e formatos diferentes para gêneros já conhecidos – esta última, aliás, uma aula sobre como flertar com o reggae não significa necessariamente fazer mais do mesmo.

Mas o fato é que o disco demonstra sim uma unidade muito presente, ainda que essa unidade se origine justamente da diversidade que ele oferece, com suas tantas cores e nuances. Todas as músicas são boas, às suas maneiras particulares, e fluem naturalmente ao longo da (bem planejada) tracklist que apresenta. Se “O Estrangeiro” abre o registro oferecendo não-pertencimento, peso e estranheza, “Genipapo Absoluto” se encarrega de fechá-lo no Brasil, com calma e leveza, deixando um retrogosto de tranquilidade para quem chega ao fim da audição de Estrangeiro.
Para quem, como eu, nasceu no fim dos anos 80 e precisou buscar mais tarde a arte produzida naquela era, ouvir Estrangeiro hoje é uma experiência recompensadora, que sintetiza de forma precisa o que houve de mais relevante no fim da década. A genialidade de Caetano gerou, ali, uma mistura entre o que há de mais tupiniquim com a inovação estética e tecnológica, alinhado ao que vinha fazendo gente como David Bowie e David Byrne naquele tempo. Por ser uma obra que não foge ao Brasil, mas ao mesmo tempo se revela do mundo todo, Estrangeiro é talvez o álbum mais cosmopolita de Caetano até hoje – e certamente um dos melhores de sua discografia.