Toda vez que se tenta diminuir qualquer sucesso pop do momento se usa a falácia do “no meu tempo, as rádios tocavam só música boa” ou “no meu tempo, as músicas era muito mais inteligentes”. Os principais alvos desses argumentos atualmente são o funk e a drag Pabllo Vittar, porém já vimos esses mesmos comentários direcionados ao axé e ao sertanejo nos anos 90, assim como ao brega dos anos 70 e 80, e ainda à Jovem Guarda dos anos 60.
Apesar desses comentários, os sucessos de outrora eram canções de apelo bastante popular e de diferentes ritmos, que eram geralmente consideradas bregas ou de gosto duvidoso pela crítica. Em contraponto a isso, sempre existiu a ala intelectual e conceitual da MPB, que apesar de seu P de popular, sempre foi mais elitizada e restrita.
De comunicação direta com as outras artes, como cinema e literatura, a MPB sempre possuiu certo respaldo da crítica e conseguiu, em determinados momentos, estrondosos sucessos que dizem muito mais sobre um mercado musical completamente distinto e que já ruiu há anos do que do público daquela época. Para pensarmos nessa relação sucesso – popular – indústria, é interessante olhar para a carreira de três cantoras essencialmente atreladas ao rótulo MPB:

Maria Bethânia é considerada a abelha rainha, quase um orixá da nossa música, especialmente pela sua mão firme sobre suas escolhas artísticas, que sempre envolveram uma força poética que passeia com liberdade entre os cantos populares e as poesias de Fernando Pessoa e Clarice Lispector.
Nos anos 60 e 70, Bethânia era sempre vista como artista intensa, mas atrelada a essa aura de cantora dos “loucos e lazarentos”, não uma estrela pop. É só no final dos anos 70, com Álibi (1978) e Mel (1980), álbuns mais românticos, que Bethânia fez um sucesso estrondoso, vendendo mais de um milhão de cópias de cada um deles (feito só atingido por uma mulher antes com Claridade, de Clara Nunes).
Nessa época, Bethânia apareceu no especial Mulher 80 da Globo e suas canções eram tocadas nas rádios, mas não pense que essas canções tocavam na rádio tão somente pela qualidade, mas sim pelo jabá das gravadoras: Bethânia era grande nome e por isso mesmo tinha grana de investimento suficiente para tocar aqui e acolá.
Hoje em dia, Bethânia continua trabalhando, cantando e produzindo, e por que suas canções não tocam na rádio? Desde o início dos anos 2000, Bethânia integra a Biscoito Fino, gravadora independente, que funciona à margem da grande indústria. A cantora preferiu um espaço mais independente, em que não fosse forçada pela gravadora a ceder suas decisões artísticas em nome dos números e das vendas.
Na mesma época em que Bethânia fez um estrondoso sucesso, sua contemporânea Gal Costa também se tornou popular nas rádios: Gal era musa do desbunde, voz da Tropicália, estrela roqueira, mas foi com a sua virada mais pop, gravando Ary Barroso e de ares mais sensuais, que o seu sucesso mercadológico chegou.
Nos anos 80, a maioria dos discos de Gal foi de sucessos comerciais, especialmente pelo fato de ela assumir riscos e gravar com artistas que não eram bem vistos nessa seara da MPB, como os hitmakers Roupa Nova e Michael Sullivan. Por seus inúmeros exageros estéticos, essa década pode ser claramente vista como a fase mais brega de Gal Costa, mas é seu momento de maior presença nas rádios e trilhas de novela. “Um dia de domingo”, ao lado de Tim Maia, por exemplo, é o momento cume do sucesso & da possível “breguice” dessa época.

Quando Gal se volta para seu lado mais bossa nova nos anos 90, buscando esse requinte meio “zona sul do Rio de Janeiro”, ela praticamente se apaga, deixando de lado o sucesso comercial. Nos anos 2000, ela tentou diferentes perspectivas para sua carreira, mas parecia sempre um tanto perdida sem o retorno desse grande público.
Só nos anos 2010 é que ela se encontra como artista quase independente, fazendo shows no Circo Voador, conversando com um público mais jovem e, com isso, não tocando na rádio, não tendo sucesso popular (essa opção mais alternativa é praticamente a mesma assumida por Caetano nesses tempos).
O último exemplo dessa antiga indústria é Adriana Calcanhotto: cantora extremamente atrelada à poesia, sua obra não é a mais acessível ao grande público. Surgida na mesma época que Marisa Monte, Calcanhotto sempre foi menos popular e mais elitizada que sua contemporânea, porém ela teve dinheiro e carta branca da gravadora para seu trabalho.
O resultado disso são hits completamente estranhos como “Esquadros”, por exemplo, uma canção que cita Almodóvar, Frida Kahlo e fala sobre a dor das crianças que sentem fome e que milhões de pessoas sabem cantarolar. Os discos Senhas e A Fábrica do Poema reúnem alguns de seus maiores sucessos pop radiofônicos e algumas das canções mais complexas de Calcanhotto.
O poeta Waly Salomão contava que ele escrevia coisas cada vez mais complicadas e pensava “agora ela não conseguirá musicar”, e Calcanhotto musicava e ainda conseguia a façanha de vender discos. É preciso compreender o momento que a artista se inseriu nesse mercado: ela chegou bem a tempo de lucrar antes desse palco ser desmontado.
Hoje em dia, os discos de Adriana Calcanhotto seriam lançados na mesma prateleira que muitos dos artistas indie que vira e mexe aqui escrevemos e dizemos “fulano não tem o reconhecimento merecido”. Esses trabalhos antigos da MPB, se lançados hoje em dia, estariam ao lado de Arthur Nogueira, Zé Manoel, Bárbara Eugênia, Ava Rocha, Juçara Marçal, entre tantos outros que não tocam na rádio (assim como figuram ao lado de outros tantos artistas que produziram suas obras à margem nos anos 70, 80 e 90 e nunca tiveram o sucesso radiofônico, como Joyce, Cida Moreira, Ná Ozzetti e Monica Salmaso).
Muitas vezes, o público até diz “a MPB como conhecíamos não existe mais”, mas ela ainda está aí, muito viva, cheia de poesia. Infelizmente, ela segue um produto elitizado, que parece cada vez mais visto como “difícil” ou “inteligente demais” para o público, uma bobagem das gravadoras, rádios e programadores. Se Calcanhotto, com metonímias e aliterações, foi sucesso pop, por que os outros não podem ser?
Atualmente, só tocam na rádio os sucessos sertanejos, pois são esses cantores que tem grana para investir.
Curiosamente, se olharmos em retrospecto, a maioria desses artistas de MPB teve pouquíssimos grandes sucessos de rádio, hits pontuais que sempre surgiram de um momento em que as gravadoras investiam pesado em divulgação, tanto em rádio quanto em trilhas de novela, por exemplo. Bethânia nunca mais teve outra “Explode Coração”, Gal não teve outro “Balancê”, nem Calcanhotto outro “Vambora”, infelizmente.
E não caiamos na falácia de dizer que o público era mais inteligente antes e por isso explica-se estes sucessos, pois essas canções tocavam nas rádios ao mesmo tempo que outros artistas considerados “ruins”. Para se refletir: Calcanhotto fez a maioria de seus hits ao mesmo tempo em que o É O Tchan era um ícone nacional. A diferença é que as gravadoras tinham dinheiro para divulgar todos esses artistas de diferentes backgrounds.
Atualmente, só tocam na rádio os sucessos sertanejos, pois são esses cantores que têm grana para investir. Se você me disser “quase ninguém mais ouve rádio”, saiba que esses cantores também injetam grana em playlists do YouTube e em plataformas como o Spotify e o Deezer, dominando o mercado através de muito dinheiro.
As outras canções que fazem sucesso são sempre à margem, na garra, como o funk e o hip-hop, que sobrevivem nas beiradas, com seu próprio público (aliás, hoje em dia, quem já tem grana insere seu vídeo no KondZilla e tenta o sucesso de nicho).
No final das contas, o cenário da MPB parece cada vez menor, restrito a pequenos espaços, sobrevivendo graças aos Sescs da vida e sendo ouvido por cada vez menos pessoas, por qualquer preconceito que diz que o público é burro e incapaz de lidar, ao mesmo tempo, com canções mais dançantes e pop e outras mais complexas e distintas.