Baixa autoestima, festas, masturbação e, de vez em quando – mas bem de vez em quando mesmo – uma abordagem mais política. E tudo isso em arranjos de não mais que três ou quatro acordes, riffs estridentes e oitavados e não mais que três minutos de duração.
Talvez essa seja a forma mais fácil de descrever para as gerações mais antigas – e também as mais novas – o que é o pop-punk, um estilo musical que fez parte da adolescência de muitos jovens entre os anos 90 e começo dos anos 2000.
Mas pouca gente sabe como tudo começou. Diferente de seu pai, que não tinha compromisso nenhum com a estética e que estampava mensagens do caos e da anarquia, o pop-punk sempre foi muito comprometido com batidas grudentas e cativantes, iguais às músicas pop que tomavam as estações de rádio. Aliás, foi com a junção de alguns desses elementos ao speed das bandas punks que começou a se desenhar o que viria a se tornar a trilha sonora preferida de garotos cheios de espinhas na cara e que queriam aproveitar o lado bom de ser jovem. O pop-punk não nasceu como um gênero ou uma corrente, ele simplesmente foi usado como nomenclatura para explicar bandas novas, como Hüsker Dü, que usavam elementos de fora em músicas cruas e rápidas, apostando também na sonoridade.
Com a ascensão do punk e a origem do hardcore nos anos 80, e as pistas de skate no sul da Califórnia, bandas como Bad Religion e Descendents surgiram dando uma cara nova àquele gênero raivoso voltado contra o sistema. O som mais melódico do Bad Religion foi classificado pela crítica da época como “a junção da raiva política com smooth melodies”, enquanto Descendents recebeu a classificação de uma banda que tinha “nítida influência do surf de Beach Boys, com letras que falavam sobre garotas, comida e como era legal ser jovem”.

Esse pontapé inicial da melodia no punk e no hardcore serviu de terreno para o que viria logo depois, como Guttermouth e Vandals, com letras bem-humoradas e ofensivas, NOFX e Pennywise, Social Distortion e Agent Orange que viriam a influenciar uma geração de artistas que mudaria a cara do punk rock para sempre; além das bandas, selos e gravadoras independentes como a Epitaph e a Fat Wreck Chords, totalmente baseado na ideia do Do It Yourself e do Fuck Authority, começaram a surgir e alimentar o hardcore melódico que tomou conta da costa oeste norte-americana.
Esse pontapé inicial da melodia no punk e no hardcore serviu de terreno para o que viria logo depois.
A história do punk com levadas pop começaria a mudar quando, em 1994, o próprio Bad Religion e o Green Day, desconhecido até então, se tornaram as primeiras bandas a gravar com gravadoras major labels. Com isso, o hardcore melódico e o punk chiclete começaram a ganhar popularidade e o mainstream do cenário musical. Nesse mesmo ano, os californianos do Offspring fizeram história com o Smash, o álbum independente mais vendido na história da música, enquanto Green Day lançava seu histórico Dookie. Logo atrás, três jovens da baía de San Diego chamados Blink-182 cresciam meteoricamente com músicas que deixavam qualquer crítica social e política de lado, dando espaço aos dilemas de adolescentes, a timidez com garotas e muitas piadas sobre sexo e masturbação.

Aos poucos, o pop-punk já havia se libertado das amarras e do estereótipo da sua origem no punk rock. A levada divertida, as músicas bem-humoradas e as piadas nos shows representavam um estilo de vida totalmente diferente da essência do punk rock em si. Assim, cada vez mais e mais a garotada ia se identificando e criando ídolos que não só penduravam guitarras no corpo, mas se tornavam celebridades e viraram base para construção de vários personagens no cinema e na televisão.
A santíssima trindade do pop-punk, como ficou conhecida a união das três bandas, marcava a música dos anos 90, dando espaço para tantas outras bandas que usariam essas temáticas para promover seu som e seu estilo de vida, se tornando inclusive a porta de entrada de muita gente no gênero. O punk rock gradativamente conquistava cada vez mais multidões com um som diferente daquilo que explodira nos anos 70 e se tornava mais comercial, mais festivo e, de certa forma, mais rebelde, dando independência aos jovens que só queriam andar de skate e quebrar regras.
Aquele som divertido e descompromissado – que parecia rebelde às regras, mas com capricho nas composições – aparecia como uma alternativa à escuridão do grunge e as maquiagens do glam rock, que já vinha perdendo espaço na mídia.

O sucesso do gênero foi tanto que, mesmo com o crescimento tecnológico e a mudança das ambições adolescentes, ao invés de perder espaço, o estilo foi se adaptando. Ao final de 2005, quando se notava um amadurecimento lírico nas músicas do Blink-182, do Offspring e do Green Day, o skate, bermudões e camisetas pretas davam espaço a penteados mais ousados e figurinos extravagantes, com bandas como Simple Plan, Fall Out Boy e Panic! at the Disco e para roupas coloridas e bandas como All Time Low, You Me at Six e Forever de Sickest Kids que traziam ao speed punk elementos da música pop vigente, dando espaço a outras bandas que viriam na sequência, puxando uma nova vertente do gênero.
Hoje em dia, o pop-punk é uma salada de gêneros e influências, unindo a mesma vibe divertida com batidas eletrônicas, pedais duplos, berros e guturais e tantas outras, mas dando mais espaço para novas bandas como The Wonder Years, Neck Deep e The Swellers, que possuem o espírito Old School. Em muitos dos casos, importante mencionar, o gênero hoje é mais moldado pelo pop, com elementos do punk cru, do que antigamente; mesmo assim, o pop-punk continua presente no mainstream, com seus sons cativando festas sempre que é dado o play.
E para nós, que já passamos de toda essa fase, só fica a nostalgia de relembrar diversos hinos de uma fase de diversão e sem regras, e daquelas cenas clássicas das comédias adolescentes com muita festa, cenas bizarras e engraçadas e piadas sobre sexo.
Ergam seus copos de plásticos vermelhos em homenagem ao pop-punk.