Uma das bandeiras cada vez mais levantadas pela crítica musical independente (leia-se A Escotilha, Scream&Yell, Senhor F e Cambio) e pelo crítico musical e jornalista Cristiano Castilho é justamente a necessidade da música brasileira aproximar-se de nossos irmãos latinos.
Nada contra a influência anglo-saxônica em nossa música. Há de salientar, ainda, que a música africana foi fonte inesgotável de ritmos e suingues. Acontece que, ao contrário do que pensa boa parte do público (e da mídia), a cultura latina conflui para uma mesma sintonia, em especial na música.
A música é uma das mais representativas formas de afirmação de um povo e, pode ter certeza, as fronteiras do México à ponta do Uruguai estão, musicalmente, derrubadas. A Trombone de Frutas e seu Chanti, Charango, EP de 2014, disponível no Spotify e Soundcloud, são celebrações dessa unicidade na América.
Mesmo que enraizada na terra das araucárias, a banda leva os ouvintes a Havana do Buena Vista Social Club, a Kingston do Toots and The Maytals e do The Skatalites, a Medellín da Áluna e mesmo a Recife do Mombojó.
Nada escapa aos músicos Conde Baltazar, Marc Olaf, Joao Taborda, Rodrigo Chavez, Thiago Ramalho e Lauro Ribeiro. Chanti, Charango faz dançar, pensar, suingar e tantos outros verbos, conjugados em comum acordo com o espírito errante do rapaz latino-americano de Belchior.
Ouvir a Trombone de Frutas é “assistir mentalmente” a Chico Buarque bailar o reggaeton, Pink Floyd na era Syd Barrett fazendo duo com Pepeu Gomes e os Novos Baianos ou mesmo Os Mutantes riffando “War Pigs” enquanto Ozzy Osbourne bate cabeça (e come morcegos?) com Caetano Veloso, em uma versão tropicalista de haikais de Leminski.
Essa antropofagia na música latina e mundial, confere à Trombone de Frutas um lugar de destaque no cenário paranaense e nacional. Entre tantas virtudes, criar uma identidade própria com o que se gosta talvez seja a maior delas. Se tudo o que a crítica especializada pede é (ao menos) originalidade, fiquem tranquilos, Chanti, Charango é um prato cheio.
Essa antropofagia na música latina e mundial, confere à Trombone de Frutas um lugar de destaque no cenário paranaense e nacional.

Em recente show, a banda ainda brindou a cidade de Curitiba com releituras do trabalho de Vinicius de Moraes. Arriscado? Não vejo motivos para se dizer isso. Lacrar os ditos “deuses da música popular brasileira” em um invólucro, no qual eu, você e qualquer outro “reles mortal” não possam sequer tocar é aceitar a mediocridade e a mesmice que assolam, em especial, o rock nacional, tão desconexo da realidade do Brasil.
Convido o leitor a conferir o som da Trombone de Frutas. Esqueça os rótulos, esqueça os filtros hipsters e, se possível, entenda que toda música é “música cabeça”, afinal, não me recordo de alguma vez, mesmo que para descansar do estresse cotidiano, tenha retirado o cérebro antes de qualquer atividade.