Em 2006, a escritora francesa Virginie Despentes causou furor ao lançar um livro em que tratava de temas referentes à sua vida, amarrados a considerações suas sobre questões de gênero, sobretudo em relação à condição de submissão reservada às mulheres. Em Teoria King Kong, ela relembra sua experiência de estupro e como aquilo culminou em uma internação psiquiátrica e em uma passagem pela prostituição.
Dezessete anos depois do lançamento, a dramaturga Márcia Bechara e a diretora Yara de Novaes assumiram o desafio de levar esse romance/ensaio aos palcos – e fizeram isso com extrema originalidade e impacto. Na peça Teoria King Kong, Despentes se transforma em três: uma mulher negra (Ivy Souza), uma mulher trans (Verónica Valenttino) e uma mulher branca (Amanda Lyra).
As atrizes têm no palco o desafio de desnudar – por vezes literalmente – o texto potente em que Virginie Despentes diz ter escrito para todas as mulheres: as certas e as erradas, as adequadas e as que não se encaixam. Todas elas, conforme a escritora esclarece em seu texto, estão presas a uma lógica de serem sempre menos que os homens. E o estupro, nesse sentido, aparece como a condição necessária para a manutenção dessa submissão.
Na dramaturgia de Márcia Bechara, o texto francês se torna tanto brasileiro quanto universal. Para além disso, ele passa a dizer respeito a todas as mulheres, sobretudo as insatisfeitas com sua condição. Em um palco de cenografia minimalista, mas que simula a ideia da aridez do asfalto, Virginie se transforma em sua tradutora, M.B., que relata e trai ao mesmo tempo o texto original.
Todas as mulheres em uma

Em um palco de cenografia minimalista, mas que simula a ideia da aridez do asfalto, Virginie se transforma em sua tradutora, M.B., que relata e trai ao mesmo tempo o texto original.
Faz todo sentido. Afinal, as vivências dessas três mulheres – a branca, a preta, a trans – precisam ser adequadas aos sofrimentos vigentes a cada uma. Enquanto a preta tem um exploração específica do seu corpo e de seu movimento, a branca reclama de ter que se defender na rua.
Já a trans (como sempre, em uma performance poderosíssima de Verónica Valenttino, vencedora do Prêmio Shell de Teatro por sua interpretação de Brenda Lee) fala sobre a morte iminente a todo instante. “O Brasil é o país que mais consome pornografia trans, e que mais mata pessoas trans”, escancara. Em outro momento, em uma cena apoteótica, ela fica no centro do palco por cerca de dez minutos, enquanto lê uma lista imensa de nomes de mulheres trans célebres, vivas e mortas.
Mas, conforme a peça esclarece, as mulheres estão em desvantagem mesmo em situações de privilégios. No que talvez seja o momento mais icônico de Teoria King Kong, Verónica Valenttino desce em meio à plateia para proferir um texto que compara a prostituição ao matrimônio, e afirma que estigmatizar o trabalho sexual é impedir que uma mulher explore a única forma que tem de enriquecer.
A peça ainda explora o conceito da “Teoria King Kong” – que explora o dismorfismo do famoso macaco do cinema para reivindicar uma nova existência para a mulher, não mais condicionada às limitações de gênero. O corpo imprudente das mulheres livres é representado de várias maneiras, como por movimentos em câmera lenta, agasalhos que as fazem lembrar astronautas e camisinhas infladas que as deformam.
Assistir à peça é, acima de tudo, uma experiência de provocação e incômodo. Mas sobretudo de consciência social – que é uma vocação imprescindível ao teatro, e que Teoria King Kong atende com louvor.
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