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Home Teatro

O sujeito sem bom senso

porMarianna Holtz
10 de abril de 2018
em Teatro
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O público no Festival de Curitiba: o sujeito sem bom senso

Paisagens Marinhas #03. Imagem: Cássio Vasconcellos.

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O sujeito sem bom senso atravessa a rua, cruza o saguão e busca seu lugar na plateia do teatro. Com auxílio da luz do smartphone, senta-se naquele que é o último lugar na terceira fileira. A peça já havia começado. Devido ao pouco espaço, o restante do público se obriga a espremer-se entre as poltronas, ou até mesmo levantar-se para permitir a passagem do sujeito e da senhora que o acompanha. Já haviam passado mais de dez minutos do início da peça. Chegam mais dois, mais quatro, mais dez, mais quinze atrasados. Teatro devia ser tipo Enem: atrasou, não entra.

O sujeito sem bom senso não coloca o celular no modo vibra, silencioso ou desliga. Do contrário, orgulha-se em noticiar nas redes o feito daquela noite: ir ao teatro. Mas a peça em si não importa muito, porque o sujeito sem bom senso não concentra mais do que um minuto de sua atenção no espetáculo. Tudo importa mais: o celular, o vídeo do bebê no WhatsApp, fotografar, tossir, abrir uma bala, conversar com a comadre sentada na fila vizinha. Aos poucos, o público do espetáculo muda sua atenção para o próprio público: impossível conectar-se ao enredo enquanto o senhor sem bom senso suplica atenção deste modo. E um gigantesco “shiuuu” torna tudo ainda menos agradável. Os atores ruborizam em cena.

O sujeito sem bom senso não coloca o celular no modo vibra, silencioso ou desliga. Do contrário, orgulha-se em noticiar nas redes o feito daquela noite: ir ao teatro.

Certo tempo depois cochicho geral: “Não é aquele cara da TV? Qual novela? Busca, busca no Wikipédia. E não separou? Era mais bonito na TV!”, cochicha a senhora. “Por isso separou!”, completa a outra. “Embarangou um pouco, eu acho” – ouve-se dizer do outro lado. No ápice dramático um sonoro tossir interrompe a fala do protagonista. Impede a catarse coletiva. Uma tosse evoca a outra e mais outra, porque sabe-se: quando o chato está gripado vai ao teatro, não ao médico. Naturalmente, um ambiente fechado, sem janelas, com poltronas de tecido. chão de carpê e um aglomerado de mais de mil pessoas, fará bem para a rinite alérgica.

Dado momento, o senhor sem bom senso decide que é mais do que natural, é urgente comer naquele momento e tira do bolso do paletó um surrado tablete de chocolate. Muito gentil, come e oferece aos outros, contribuindo para a sonoplastia do espetáculo com o barulho da embalagem e do mastigar.

Peça longa. Seria cansativa não fosse o casal ao lado educadamente a nos distrair com selfies com flashes durante a peça. Ficaram mal na foto. Depois de uma hora de peça, todos lembram-se daquele acessório amarrado em seus pulsos que hesita em avançar no tempo. Suspiros, checagem de horas, checagem de horas e suspiros.

Lá fora um mundo feroz os aguarda. E eles contam ansiosos os minutos para ir de encontro ao abismo. Um mundo caótico, cruel, em um país dividido, politicamente problemático e que ainda lida com questões como fome e silenciamento representativo com nove balas num carro branco. No teatro, naquela noite, havia no palco a possibilidade da catarse, da sublimação, da utopia de um mundo melhor, pelo menos uns poucos minutos de leveza e diversão. Havia ali a possibilidade real e rápida da felicidade. Não fosse o sujeito sem bom senso.

Não é uma questão de elitismo, de acostumar-se culturalmente com o hábito de frequentar espetáculos, é uma questão de civilidade.

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Tags: Críticaetiquetafalta de educaçãoFestival de Curitibamau comportamentoplatéiapúblicoTeatro

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